A cegonha bate à porta
O dia 6 de setembro de 1989 parecia ser mais uma quarta-feira comum na vida da professora Marta Vicentin, que costumava retornar para casa, no bairro Parque Ipê, em Feira de Santana, sempre por volta das 13h, depois de um turno de aulas em um dos colégios públicos mais famosos da cidade: o Gastão Guimarães. Mas, assim que adentrou à residência, o habitual silêncio da rua foi interrompido por sucessivos e apressados toques de campainha. Quem estava à espera de Marta, ao chão, diante da porta, era um bebê que se debatia assustado dentro de uma caixa de papelão.
“Deus me mandou para este lar para ter o que minha outra mãe não pode me dar. Viu, papai, mamãe, irmãos e demais”
“Eu tenho um mês, não tenho nome. Uma garota que Jesus mandou para vocês.”
Assim começava a história de Lausanne Vicentin no lar que lhe daria sobrenomes, régua e compasso. Hoje aos 35 anos, a auxiliar administrativa busca conhecer suas origens e entender como foi parar nas mãos das “Cegonhas da Noite” — um grupo independente que entregava bebês a famílias adotivas e que atuou em Feira de Santana nas décadas de 1980 e 1990.
Esta é a primeira reportagem de uma série que vai contar as histórias de filhos adotivos que chegaram às suas atuais famílias por intermédio das Cegonhas da Noite. Um grupo formado exclusivamente por mulheres que, informalmente, entregaram centenas de bebês a novas famílias. Agora, mais de quarenta anos depois, com uma geração de filhos crescidos e com remota possibilidade de penalização jurídica, o passado cobra seu lugar no presente, através dos anseios de homens e mulheres que buscam compreender sua origem.
As Cegonhas atuavam com discrição na maior cidade do interior baiano, para encontrar casais que tivessem, além de interesse, condições financeiras e afetivas para adotar crianças que supostamente viviam em situação de vulnerabilidade. A ação era, e ainda é, apreciada por boa parte da população do município. O grupo funcionava a partir da ação central de quatro mulheres que, com a contribuição de pessoas que simpatizavam com a ideia, construíram uma imensa rede de contatos.
Com o tempo, a necessidade de entender a própria origem aumentou. Em 2016, já adulta e com filhos, Lausanne assistia a um programa de reencontros na TV, quando sua mãe adotiva a encontrou chorando. “Eu entrei na sala e vi minha filha chorando enquanto assistia a uma filha reencontrando a mãe biológica. Eu me aproximei e perguntei: ‘Você deseja encontrar sua mãe biológica?’. Ela me abraçou forte e respondeu: ‘Eu quero saber de onde vim, mas nunca vou deixar de te amar’. Foi quando percebi que a busca por suas raízes era importante para ela”, conta.
As primeiras pistas
Marta conta que anos após o episódio, encontrou uma ex-colega de trabalho chamada Ângela e se lembrou que a mulher usava uma agenda cujas páginas tinham um tipo de papel semelhante ao bilhete que recebeu junto com o bebê e também era proprietária de um carro com a mesma cor de “café com leite” vistos no dia em que a filha adotiva foi deixada na porta de casa. Prontamente abordou a ex-colega e perguntou-a sobre a história.
“Ela me disse que a mãe biológica de Lausanne trabalhava como doméstica para uma enfermeira que vivia na região do Shopping Boulevard. E como já tinha cinco criancinhas, todas de olhos azuis, passava por dificuldades. A enfermeira para não perder a empregada por mais uma criança… Foi essa patroa que tomou a iniciativa de entregar a criança.” Marta Vicentin
“A mãe quis?” foi a pergunta que Marta diz ter feito após ouvir o relato da ex-colega de trabalho. “Ela me disse que esperou do outro lado da rua enquanto a enfermeira foi lá dentro e pegou a criança que estava mamando no peito da mãe e levou. Isso eu nunca consegui esquecer. Se foi isso mesmo, essa mãe sofreu”, comentou.
Após a conversa, Marta anotou em uma pequena agenda de papel pautado todos os dados importantes, inclusive os nomes citados, numa tentativa de salvaguardar, sem depender unicamente da memória, possíveis pistas que um dia poderiam apontar caminhos para dar fim às dúvidas.
Com o passar dos anos, e sem indícios concretos da veracidade das informações que teve acesso, o desejo de Lausanne de encontrar a família biológica se manteve latente. Então, em busca de ajuda, ela decidiu expor o caso para o maior número de pessoas possível através de um vídeo publicado no Instagram. Em meio a milhares de internautas que assistiram ao relato estava eu, que conheci Lausanne em meados de 2016, quando ainda era estudante de jornalismo e trabálhavamos na Fundação Egberto Costa, ironicamente situada nas proximidades do Shopping Boulevard, no bairro São João.
Busquei entender melhor o caso. Marquei algumas conversas com ela e Dona Marta. Após a conclusão da primeira versão deste texto, recebi uma mensagem. Era Lausanne com novas informações. Encontrou no Facebook o perfil de uma enfermeira chamada Alba, cuja mãe se chamava Cleonice e que morava numa rua que dá acesso ao Anel de Contorno, fazendo a interseção entre os bairros Mangabeira e São João. Na manhã seguinte, dia 2 de abril de 2025, fomos ao conjunto ACM, para encontrar as mulheres que, ao que tudo indicava, poderiam nos dar respostas para as perguntas que há anos acompanham a vida de Lausanne.