Caso 01

Lausanne Vicentin

Telefonema ao Colégio Gastão Guimarães antecedeu a entrega do bebê numa caixa de papelão

Por João França
Feira de Santana, 2025–2026
2 partes publicadas
Lausanne na infância
Lausanne com irmãs
Lausanne bebê
Parte I

A cegonha bate à porta

Lausanne e a mãe atualmente
Lausanne e a mãe atualmente. Foto: acervo da família.

O dia 6 de setembro de 1989 parecia ser mais uma quarta-feira comum na vida da professora Marta Vicentin, que costumava retornar para casa, no bairro Parque Ipê, em Feira de Santana, sempre por volta das 13h, depois de um turno de aulas em um dos colégios públicos mais famosos da cidade: o Gastão Guimarães. Mas, assim que adentrou à residência, o habitual silêncio da rua foi interrompido por sucessivos e apressados toques de campainha. Quem estava à espera de Marta, ao chão, diante da porta, era um bebê que se debatia assustado dentro de uma caixa de papelão.

Bilhete encontrado na caixa

“Deus me mandou para este lar para ter o que minha outra mãe não pode me dar. Viu, papai, mamãe, irmãos e demais”

“Eu tenho um mês, não tenho nome. Uma garota que Jesus mandou para vocês.”

Lausanne bebê (esquerda)
Lausanne bebê (direita). Foto: acervo da família.

Assim começava a história de Lausanne Vicentin no lar que lhe daria sobrenomes, régua e compasso. Hoje aos 35 anos, a auxiliar administrativa busca conhecer suas origens e entender como foi parar nas mãos das “Cegonhas da Noite” — um grupo independente que entregava bebês a famílias adotivas e que atuou em Feira de Santana nas décadas de 1980 e 1990.

Esta é a primeira reportagem de uma série que vai contar as histórias de filhos adotivos que chegaram às suas atuais famílias por intermédio das Cegonhas da Noite. Um grupo formado exclusivamente por mulheres que, informalmente, entregaram centenas de bebês a novas famílias. Agora, mais de quarenta anos depois, com uma geração de filhos crescidos e com remota possibilidade de penalização jurídica, o passado cobra seu lugar no presente, através dos anseios de homens e mulheres que buscam compreender sua origem.

As Cegonhas atuavam com discrição na maior cidade do interior baiano, para encontrar casais que tivessem, além de interesse, condições financeiras e afetivas para adotar crianças que supostamente viviam em situação de vulnerabilidade. A ação era, e ainda é, apreciada por boa parte da população do município. O grupo funcionava a partir da ação central de quatro mulheres que, com a contribuição de pessoas que simpatizavam com a ideia, construíram uma imensa rede de contatos.

Lausanne na infância
Lausanne na infância. Foto: acervo da família.

Com o tempo, a necessidade de entender a própria origem aumentou. Em 2016, já adulta e com filhos, Lausanne assistia a um programa de reencontros na TV, quando sua mãe adotiva a encontrou chorando. “Eu entrei na sala e vi minha filha chorando enquanto assistia a uma filha reencontrando a mãe biológica. Eu me aproximei e perguntei: ‘Você deseja encontrar sua mãe biológica?’. Ela me abraçou forte e respondeu: ‘Eu quero saber de onde vim, mas nunca vou deixar de te amar’. Foi quando percebi que a busca por suas raízes era importante para ela”, conta.

As primeiras pistas

Marta conta que anos após o episódio, encontrou uma ex-colega de trabalho chamada Ângela e se lembrou que a mulher usava uma agenda cujas páginas tinham um tipo de papel semelhante ao bilhete que recebeu junto com o bebê e também era proprietária de um carro com a mesma cor de “café com leite” vistos no dia em que a filha adotiva foi deixada na porta de casa. Prontamente abordou a ex-colega e perguntou-a sobre a história.

“Ela me disse que a mãe biológica de Lausanne trabalhava como doméstica para uma enfermeira que vivia na região do Shopping Boulevard. E como já tinha cinco criancinhas, todas de olhos azuis, passava por dificuldades. A enfermeira para não perder a empregada por mais uma criança… Foi essa patroa que tomou a iniciativa de entregar a criança.” Marta Vicentin

“A mãe quis?” foi a pergunta que Marta diz ter feito após ouvir o relato da ex-colega de trabalho. “Ela me disse que esperou do outro lado da rua enquanto a enfermeira foi lá dentro e pegou a criança que estava mamando no peito da mãe e levou. Isso eu nunca consegui esquecer. Se foi isso mesmo, essa mãe sofreu”, comentou.

Após a conversa, Marta anotou em uma pequena agenda de papel pautado todos os dados importantes, inclusive os nomes citados, numa tentativa de salvaguardar, sem depender unicamente da memória, possíveis pistas que um dia poderiam apontar caminhos para dar fim às dúvidas.

Com o passar dos anos, e sem indícios concretos da veracidade das informações que teve acesso, o desejo de Lausanne de encontrar a família biológica se manteve latente. Então, em busca de ajuda, ela decidiu expor o caso para o maior número de pessoas possível através de um vídeo publicado no Instagram. Em meio a milhares de internautas que assistiram ao relato estava eu, que conheci Lausanne em meados de 2016, quando ainda era estudante de jornalismo e trabálhavamos na Fundação Egberto Costa, ironicamente situada nas proximidades do Shopping Boulevard, no bairro São João.

Busquei entender melhor o caso. Marquei algumas conversas com ela e Dona Marta. Após a conclusão da primeira versão deste texto, recebi uma mensagem. Era Lausanne com novas informações. Encontrou no Facebook o perfil de uma enfermeira chamada Alba, cuja mãe se chamava Cleonice e que morava numa rua que dá acesso ao Anel de Contorno, fazendo a interseção entre os bairros Mangabeira e São João. Na manhã seguinte, dia 2 de abril de 2025, fomos ao conjunto ACM, para encontrar as mulheres que, ao que tudo indicava, poderiam nos dar respostas para as perguntas que há anos acompanham a vida de Lausanne.

Parte II

A casa da enfermeira

Por volta das 10h chegamos à rua que fica às margens do acesso ao Anel de Contorno de Feira de Santana e cujos moradores poderiam saber de informações privilegiadas sobre o caso. Era uma manhã ensolarada. A rua estava tranquila, com poucos passantes. Lausanne estava tranquila. Juntos, tocamos a campainha da casa situada próximo ao portão sombreado por uma árvore de pequeno porte. Imediatamente uma voz ecoa vindo da residência.

Lausanne na adolescência (esquerda)
Lausanne na adolescência (esquerda). Foto: acervo da família.

“Quem é?”, perguntou desconfiada.
“João!”, eu respondi. Consciente do quão genérica poderia ser essa informação, apesar de verdadeira.
“Quer falar com quem?”
“Dona Alba!”, respondi em coro com Lausanne.
“Ah, certo.”

Lausanne ficou ofegante. Tento acalmá-la quebrando o silêncio ao comentar sobre o cenário da rua. Alba se aproxima e, deixando o portão entreaberto, nos atende. Somos desconhecidos. Nos apresentamos cordialmente. Explicamos os motivos que nos levaram até lá, com um pequeno resumo da história. Ainda desconfiada, encostada ao portão, como quem se apoia num escudo de corpo inteiro, Alba se justifica: “Deixa eu só falar pra vocês, eu ainda estou de camisola. Minha mãe está acamada. Estava trocando ela porque o fisioterapeuta está chegando. Se fosse outro horário, atenderia vocês com a maior tranquilidade. Mas pela manhã é muito difícil pra mim”.

Nosso receio era de que ela encerrasse o assunto sem nos dar nenhuma informação. Lausanne intervém:

— É porque a gente não tinha o contato da senhora para saber o melhor horário que a gente poderia…

Alba a interrompe:

— Como vocês chegaram ao meu nome?

Lausanne cita Ângela, a ex-colega de trabalho da sua mãe adotiva. Relata a possibilidade de ser filha de uma empregada doméstica que teria trabalhado naquela residência. Alba tenta se distanciar da história, mas algo parece atravessá-la.

“Nós, absolutamente, nunca tivemos ninguém trabalhando direto com a gente aqui. Nós temos diaristas. Então, assim… se alguém disser que alguém que trabalhou aqui em casa… Quando você foi adotada?” Alba

“1989!”, respondeu Lausanne.

“Tinha uma pessoa aqui no conjunto que teve muitos filhos e todos eles foram dados em adoção. Era uma pessoa que… hoje não sei como é que é, mas era conhecida aqui no Conjunto. O nome dela era Maria de Jesus. Mas Maria já faleceu. Maria, na realidade, teve 16 filhos. Um faleceu. Foram 15 vivos. Não ficou com nenhum deles. Ela tinha criança espalhada por tudo que era canto, entendeu? A última notícia que eu tive dela é que foi assassinada. Ela era dependente química.” Alba

“Mas ela chegou a trabalhar aqui? Por que a senhora lembrou dela nessa conversa, a senhora achou parecido…?”, questiono.

“Não, porque… falando de uma pessoa aqui do Conjunto que tinham 3, 4 filhos… Não eram 3 ou 4, são 16. Aí eu lembrei que poderia ser ela. Mas não conheci, nunca vi, nunca tive contato. É uma história assim de você saber, de você conhecer”, respondeu.

Antes de encerrar a conversa, Alba faz uma última observação ampliando o mistério em torno da história de Maria de Jesus e sugere a existência de uma rede ilegal de circulação de crianças na época, com atuação internacional.

“Nós nunca tivemos ninguém que trabalhou aqui em casa. Minha mãe nunca aceitou. E não conheço ninguém porque as pessoas da época não vivem mais aqui. Tinha uma pessoa que negociava as crianças com ela e mandava tudo para fora do Brasil. Dela eu não sei nada. Só sei da história de muitos filhos e de que não ficava com nenhum deles. Já era conhecida.” Alba

Com essa informação, a história se complexifica. Pergunto de forma objetiva se ela conhece alguém que fez parte do grupo Cegonhas da Noite. Alba recua levantando levemente a voz:

“Meu bem, nessa época, em 1989, eu estava em Florianópolis fazendo meu mestrado. Então, eu tô dizendo para você uma coisa que eu ouvi falar. Não tenho certeza de absolutamen… nem sei se é essa pessoa que você está procurando. Pelo que eu sei as crianças dela não ficavam no Brasil, iam todas para fora. Então, não posso ajudar vocês em nada. Infelizmente.” Alba

“Sobre as crianças irem para fora do Brasil, como a senhora sabe disso?”, pergunto.
“Todo mundo sabe”, retruca.
“Elas eram vendidas?”, sugiro.

Alba fica em silêncio.

Toda a conversa dura pouco mais de nove minutos até que Alba se despede cordialmente com o mesmo tom de voz suave e manso do início do diálogo.

— Desculpe, eu vou precisar entrar. Boa sorte para vocês!

Mas, antes de fechar o portão por completo, ainda quis saber quem indicou o nome dela. Conversou um pouco mais e logo pediu licença, fechando o portão educadamente.

Lausanne e eu nos olhamos. Ela não estava convencida de que Maria de Jesus seria a mãe biológica que tanto procurava. Talvez não fosse mesmo. As informações também não provocaram entusiasmo, pelo contrário. Uma mãe assassinada, com problemas com drogas e 15 filhos que poderiam estar em outros países. Será? Sugeri que conversássemos com mais pessoas do bairro. Visitamos algumas residências. Ao longo da manhã, abordamos pessoas nas ruas e nas casas, em busca sobretudo de moradores antigos. Até que uma senhora que só aceitou nos receber por insistência da filha, afirmou que uma mulher envolvida com as Cegonhas da Noite havia morado no bairro por um tempo e sugeriu que retornássemos à rua em que iniciamos a busca para batermos à porta de uma das vizinhas de Alba. Assim fizemos.

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