Em abril, tradicionalmente, o feirense costumava estar com o pensamento voltado para a avenida e o som dos trios. A ausência da micareta neste período e o clima mais friozinho que tomou conta da cidade criaram o cenário perfeito para uma antecipação junina. O acordeon de Neném transformou o Teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana, na noite da última quinta-feira, 23, em um grande salão de forró, fazendo o público lotar o espaço e querer arrastar o pé como se já fosse São João.
Natural de Jaguara, distrito de Feira de Santana, Neném do Acordeon conduziu o espetáculo “Forró e Causos” com domínio de palco, carisma e uma trajetória de 18 anos dedicada ao forró raiz. Entre clássicos do gênero, músicas autorais e sucessos que atravessam gerações, o artista entregou um repertório que dialoga com a tradição de nomes como Luiz Gonzaga e Flávio José, sem deixar de lado a leveza e a conexão direta com o público.

Na frente do palco, o espetáculo ganhou ainda mais vida. Grupos de dança de salão e casais apaixonados pelo forró ocuparam o espaço e transformaram a plateia em extensão do show. Entre giros, passos sincronizados e muita leveza, vários pares deram um show à parte, arrancando aplausos e reforçando que o forró, ali, não era apenas para ouvir, mas para viver.
Como todo bom sertanejo gosta, o show foi costurado por causos. Em um dos momentos, Asa Filho subiu ao palco e arrancou risadas ao narrar uma história que misturava música, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Alceu Valença, a icônica Carulina e até a égua de Seu Luiz. Humor e memória se encontraram ali, reafirmando o lugar do forró como expressão viva da cultura popular.
A participação de Roberval Barreto trouxe ainda mais identidade ao espetáculo. Vestido a caráter de vaqueiro, ele apresentou o cordel “Estouro da Boiada” e provocou identificação e gargalhadas na plateia. O clima descontraído seguiu com a presença espontânea de Madalena Braga. Feira já está acostumada a vê-la contar histórias na Tv, mas Madá foi além disso e brilhou com o cordel do futebol, reforçando o tom afetivo e coletivo da noite.

O ponto alto do espetáculo foi a homenagem à Baio do Acordeon, referência viva do forró nordestino. Aos 82 anos, com 74 dedicados à sanfona e 51 à frente da banda Os Bambas do Nordeste, Baio foi celebrado no palco pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. A diretora de eventos e espaços culturais, Larissa Santana, entregou ao músico um buquê de girassóis e uma placa em reconhecimento à sua trajetória.
A história de Baio se entrelaça com a própria história do forró. Ainda adolescente, conheceu Luiz Gonzaga durante uma passagem do artista por Feira de Santana, na década de 1970. Anos depois, os dois dividiram o palco. Na mesma época, Baio recebeu de Gonzaga uma sanfona branca, símbolo que atravessa gerações e reforça a continuidade dessa tradição. No palco, ao lado de Carlos Matheus e Jacinto Limeira, Baio levou a força dos Bambas do Nordeste para o público, em uma apresentação carregada de energia e memória. O encontro de gerações e histórias consolidou o espetáculo como uma celebração da cultura nordestina.
Neném do Acordeon encerrou a noite reafirmando seu lugar como um dos nomes que mantêm viva a tradição do forró em Feira de Santana, unindo técnica, carisma e respeito às raízes nordestinas. O espetáculo também reforça o papel do Teatro do Centro de Convenções como um espaço que tem valorizado a produção artística local, com uma programação gratuita, diversa e cada vez mais prestigiada pelo público, que tem respondido à altura, ocupando a casa e celebrando a cultura feirense.
Forró, causos, raízes e identidade. Mais Feira de Santana, impossível.

