Muito antes de Feira de Santana se consolidar como polo comercial e entroncamento econômico da Bahia, a cidade já dava seus primeiros passos industriais. E um dos marcos dessa transformação nasceu do conhecimento químico, da medicina popular e do empreendedorismo de uma família feirense: a Fábrica Leão do Norte, criadora da tradicional Jurubeba Leão do Norte.
Fundada em 1920 por Paulo da Costa Lima e Sinval Costa Lima, a empresa é apontada por pesquisadores e registros históricos como a primeira indústria de grande porte de Feira de Santana. Inicialmente instalada na cidade, a fábrica produzia um composto à base de jurubeba, planta conhecida por propriedades digestivas e medicinais, utilizado como tônico estomacal, reconstituinte e auxiliar no tratamento de diversos males.
A bebida nasceu em uma época em que o consumo de vinhos ainda era restrito às elites brasileiras e fortemente associado à tradição europeia. O escritor e memorialista feirense Adilson Simas escreveu que, diante da dificuldade de acesso ao vinho de uva, produtores brasileiros passaram a desenvolver bebidas semelhantes utilizando frutas e ervas nacionais.
Segundo Simas, Paulo da Costa Lima percebeu esse potencial e criou vinhos compostos a partir da jurubeba, do abacaxi, do jenipapo, do maracujá e do caju, estabelecendo em Feira de Santana a primeira grande fábrica do segmento. O sucesso da produção transformou a Leão do Norte em referência regional e abriu caminho para o desenvolvimento de outras pequenas fábricas de vinho e vinagre na cidade.

Entre todos os produtos lançados, foi justamente o vinho composto com jurubeba que atravessou décadas e se consolidou na memória afetiva de gerações de baianos e nordestinos. Com sabor marcante, amargo adocicado e aroma característico, a bebida passou a ser consumida não apenas como medicinal, mas também como aperitivo popular.
O êxito comercial fez a empresa crescer rapidamente. Em 1932, a fábrica deixou Feira de Santana e foi transferida para Salvador, buscando acompanhar a ampliação do mercado consumidor e da distribuição dos produtos. Décadas depois, em 1978, já com demanda nacional consolidada, a empresa inaugurou sua sede no Centro Industrial de Aratu (CIA), em Simões Filho, onde permanece até hoje.
Ao longo do tempo, a Jurubeba Leão do Norte conseguiu algo raro entre marcas tradicionais brasileiras: atravessar mudanças culturais, econômicas e de hábitos de consumo sem desaparecer. Enquanto muitas pequenas fábricas de vinhos compostos encerraram suas atividades após a popularização dos vinhos de uva no pós-guerra, a Leão do Norte permaneceu ativa e preservou sua identidade regional.

Hoje, a empresa se apresenta oficialmente como Organização Leão do Norte e mantém a jurubeba como carro-chefe da marca. Em seu site institucional, a companhia destaca possuir mais de um século de história e afirma combinar tradição e controle de qualidade na fabricação de bebidas. A empresa também reforça o vínculo da marca com a cultura baiana e nordestina.
Atualmente sediada em Simões Filho, a organização possui atuação nacional e segue comercializando a tradicional Jurubeba Leão do Norte, encontrada em supermercados, bares e plataformas de venda online em diferentes estados brasileiros. Dados empresariais apontam que a fábrica continua ativa no setor de fabricação de vinhos e bebidas compostas.
Mais do que uma bebida, a Jurubeba Leão do Norte se tornou um símbolo de permanência cultural. Uma marca criada em Feira de Santana há mais de cem anos, nascida entre laboratórios artesanais, ervas medicinais e receitas populares, e que resistiu às transformações da indústria brasileira sem perder sua identidade original.

