Durante mais de seis décadas, quem circulou pelo centro de Feira de Santana certamente cruzou com ele. Chapéu de couro na cabeça, mercadorias penduradas pelo corpo e uma conversa sempre pronta na ponta da língua. Caculé, nome pelo qual ficou conhecido José Pergentino da Silva, foi muito mais do que um vendedor ambulante. Tornou-se um personagem da cidade, desses que ajudam a contar a história de um lugar sem jamais ter ocupado cargo público ou estampado manchetes de jornal.
Nascido na Paraíba, chegou à Feira ainda criança e adotou a cidade como sua terra. Pelas ruas da Sales Barbosa, Marechal Deodoro, Senhor dos Passos, Queimadinha e arredores das feiras livres, vendia baldes, bacias, peneiras, colheres de pau, pentes e outros utensílios domésticos. Mas quem parava para conversar acabava levando muito mais do que um produto.
Caculé gostava de falar sobre política, sobre a história de Feira de Santana e, principalmente, sobre o destino das pessoas. Dizia possuir um dom especial para enxergar aspectos da vida de quem encontrava pelo caminho. Segundo ele próprio, sua habilidade se deu, porque chorou ainda na barriga da mãe.
As previsões de Caculé se tornaram parte do folclore urbano feirense. Eram centenas de histórias espalhadas pela cidade. Ele observava detalhes físicos, fazia perguntas e, com enorme segurança, apresentava interpretações sobre passado, presente e futuro.
Muitos ouviam previsões parecidas. Ainda assim, não faltam pessoas que juram ter sido surpreendidas pela precisão de suas leituras. Eu sou uma delas.
Lembro de uma conversa que tive com Caculé quando ainda era uma adolescente, ali perto do colégio Nobre. Sem me conhecer, ele disse:
“Tu é teimosa é! Tua avó é índia e tu tem uma pinta reta do lado esquerdo do corpo. Tu vai casar com um homem que a inicial do nome é a letra L.”
Na época, ouvi aquilo com a curiosidade de quem escuta uma boa história de rua e confesso, que os arroubos da juventude me fizeram ficar impressionada. Anos depois, descobri que algumas dessas previsões faziam parte do repertório que ele repetia para outras pessoas. Ainda assim, não deixa de ser curioso que, no meu caso, ele tenha acertado quase tudo.
Era justamente essa mistura de observação, intuição, crença popular e carisma que fazia de Caculé uma figura tão fascinante. Pouca gente saía de uma conversa com ele sem levar alguma história para contar.
Outro elemento inseparável de sua figura era o rapé, o tradicional pó de tabaco aspirado pelas narinas. O pequeno recipiente estava quase sempre por perto. Entre uma venda e outra, era comum vê-lo cheirando rapé enquanto conversava com comerciantes, clientes e curiosos. O hábito fazia parte de sua identidade tanto quanto o chapéu de couro e as incontáveis quinquilharias que conseguia levar nos braços.
Mais do que um ambulante, Caculé era uma espécie de cronista popular das ruas. Conhecia pessoas, famílias, acontecimentos e personagens da cidade. Seu conhecimento sobre Feira de Santana impressionava os frequentadores do centro comercial. Caminhava pela cidade como quem conhecia cada esquina, cada história e cada transformação que a Princesa do Sertão viveu em seu tempo.
Quando morreu, em janeiro de 2021, vítima da Covid-19, Feira de Santana perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas. Nas redes sociais e nas ruas, multiplicaram-se as homenagens de pessoas que conviveram com ele ao longo dos anos. Não era apenas a despedida de um vendedor conhecido. Era a partida de um personagem que ajudou a construir a memória afetiva de gerações de feirenses.
Em uma cidade que cresce rapidamente e vê desaparecer muitos de seus tipos populares, a lembrança de Caculé permanece viva. Seja pelas histórias que contava, pelas previsões que fazia, pelo rapé que carregava ou pelas conversas que iniciava com qualquer desconhecido, ele segue ocupando um lugar especial na memória coletiva de Feira de Santana.

