Nona maior população quilombola entre os municípios brasileiros, Feira guarda na Lagoa Grande, Matinha dos Pretos, Candeal II e Moita da Onça uma história que começa muito antes da abolição e ajuda a revelar quem construiu a cidade
Feira de Santana tem 12.190 habitantes quilombolas. São quase 2% de toda a população do município e um contingente grande o suficiente para colocar a cidade na nona posição entre os municípios brasileiros com maior população quilombola Os dados são do Censo 2022 do IBGE. Ainda assim, para muitos feirenses, falar em quilombo parece falar de uma realidade distante. Não é. Quilombo também é Feira de Santana.
O município possui quatro comunidades reconhecidas como quilombolas: Lagoa Grande, Matinha dos Pretos, Candeal II e Moita da Onça, a mais recente delas, reconhecida em 2024. São territórios onde a história da população negra não aparece apenas nos livros. Está nos sobrenomes, na terra, nas relações de parentesco, na agricultura, no samba de roda, na religiosidade, nas associações comunitárias, na memória dos mais velhos e nas lutas contemporâneas por educação, água, transporte, infraestrutura e reconhecimento.
O dado surpreende porque Feira aprendeu a contar sua própria história a partir de outras imagens.
Aprendemos sobre o gado, os tropeiros, a feira livre e o comércio que fizeram crescer aquele pequeno núcleo formado em torno da Fazenda Sant’Anna dos Olhos d’Água. Conhecemos a vocação comercial que transformaria a antiga vila na maior cidade do interior baiano.
Mas há uma pergunta que durante muito tempo ficou em segundo plano: quem trabalhou para construir essa riqueza?
Parte da resposta está registrada nos cartórios da própria Feira.
Antes da Princesa do Sertão, a Feira escravagista
No século XIX, Feira de Santana ocupava uma posição estratégica entre o Recôncavo e o sertão. A criação e a comercialização de gado conviveram com plantações de mandioca, algodão, tabaco e cana-de-açúcar. Pesquisa do historiador Luiz Cleber Moraes Freire mostra que a agropecuária, a posse de pessoas escravizadas e outros ativos foram elementos fundamentais na formação da riqueza da comarca entre 1850 e 1888. O trabalho escravizado não se restringia à enxada. Havia negros escravizados trabalhando como vaqueiros, ferreiros, marceneiros, sapateiros, alfaiates, costureiras e até músicos.
A Feira que negociava bois também negociava seres humanos.
A dimensão dessa história está preservada em um extraordinário acervo da Universidade Estadual de Feira de Santana. O projeto Cativos às Portas do Sertão catalogou 1.250 documentos relacionados à escravidão entre as décadas de 1830 e 1880. São escrituras de compra e venda, cartas de alforria, hipotecas, penhores, doações, recibos, contratos de prestação de serviços e outros registros encontrados no Tabelionato do 1º Ofício de Feira de Santana. Centenas deles foram digitalizados.
Lidos quase dois séculos depois, alguns documentos são desconcertantes.
Em novembro de 1839, na Vila da Feira, foi registrada a venda de Maurício, identificado como um homem escravizado crioulo. Valor: 300 mil réis.
Em outro documento, de 1836, Domingos, identificado como africano, aparece em uma escritura de hipoteca junto a uma casa na Rua do Cajueiro, uma pequena taberna na Rua da Gameleira e um cavalo.
Naquele mesmo conjunto documental aparece uma propriedade chamada Fazenda Lagoa Grande. Na hipoteca foram incluídas terras, benfeitorias, vacas, centenas de cabras e quatro pessoas escravizadas: Romana, Feliz, Luiz e Domingos.
A linguagem fria do cartório expõe de forma brutal o que significava a escravidão.
Casa.
Terra.
Cavalo.
Gado.
Romana.
Feliz.
Luiz.
Domingos.
Todos podiam aparecer dentro de uma mesma operação patrimonial.
Não são números abstratos em uma explicação sobre o Brasil escravista. São registros produzidos na Vila da Feira, envolvendo pessoas que viveram, trabalharam, constituíram famílias, resistiram e tiveram seus corpos submetidos à lógica da propriedade.
Feira também participou do comércio de escravizados
A localização que fez de Feira um importante entreposto comercial também teve papel no mercado interno de pessoas escravizadas.
Pesquisas acadêmicas sobre a região demonstram que, sobretudo depois da proibição do tráfico transatlântico em 1850, a circulação interna de escravizados ganhou importância. Documentos feirenses registram vendas, procurações e negociações que conectavam a região a outras províncias. A tese da historiadora Chintamani Santana Alves, da Universidade Federal da Bahia, investiga justamente as relações entre o tráfico interprovincial e as possibilidades de liberdade da população escravizada em Feira de Santana na segunda metade do século XIX.
Isso amplia a maneira como podemos olhar para a famosa “vocação comercial” feirense.
A posição entre o Recôncavo e o sertão favoreceu a circulação de mercadorias, animais e pessoas livres, mas também inseriu Feira nos circuitos econômicos de uma sociedade em que pessoas negras escravizadas eram compradas, vendidas e usadas como garantia de dívidas.
A escravidão, portanto, não aconteceu à margem da formação econômica de Feira. Ela fez parte dela.
Onde houve escravidão, também houve resistência
Contar essa história apenas pela violência exercida pelos senhores produziria outro apagamento. Os escravizados não foram sujeitos passivos.
Em Feira, fugiram, formaram redes familiares, juntaram dinheiro, buscaram alforrias, desafiaram proprietários e chegaram aos tribunais para reivindicar a própria liberdade.
Uma dessas pessoas tinha nome: Belmira.
Entre 1878 e 1879, a mulher escravizada lutou judicialmente em Feira de Santana pela liberdade dela e dos filhos Antero, Senhorinha e Manuel. Segundo pesquisa da historiadora Karine Teixeira Damasceno, Belmira fugiu e procurou a Justiça Municipal para contestar o cativeiro imposto à família.
Não estava sozinha nessa estratégia. Entre dez ações de liberdade de Feira de Santana que chegaram à segunda instância entre 1876 e 1887, nove tiveram mulheres negras escravizadas, libertas ou livres participando da iniciativa de buscar a liberdade para si ou para familiares.
É uma mudança importante de perspectiva.
A história da escravidão em Feira também é a história das pessoas que passaram a vida tentando acabar com ela.
E é nesse ponto que a Feira escravagista começa a se encontrar com a Feira quilombola.
Matinha dos Pretos: o nome guarda uma memória
Na Matinha, a memória transmitida entre gerações relaciona a origem da comunidade à antiga Fazenda Candeal e às estratégias de resistência de pessoas submetidas à escravidão.
Pesquisas realizadas na UEFS registraram relatos segundo os quais escravizados fugiam e se escondiam em uma área pequena de mata cerrada existente dentro da extensa propriedade. A tradição oral associa a essa mata a origem do nome Matinha dos Pretos. Outros relatos preservados pelos pesquisadores mencionam diferentes formas de enfrentamento cotidiano à violência dos senhores.
É importante fazer uma distinção. História oral, documentação cartorial e memória comunitária não são exatamente a mesma coisa e nem sempre permitem reconstruir uma linha genealógica simples entre um quilombo do século XIX e cada família atual. A própria pesquisa histórica sobre a Matinha registra versões distintas acerca de momentos de formação do povoado.
Mas essas memórias revelam algo fundamental: durante gerações, moradores daquele território conservaram narrativas sobre escravidão, fuga, terra e resistência.
Um dos símbolos dessa memória continua existindo.
O Tanque da Matinha dos Pretos é reconhecido pela própria comunidade e pelo poder público como espaço de importância histórica. Em 2025, depois de anos de reivindicação, foi autorizada sua revitalização. Moradores e representantes locais relacionam o tanque à presença das famílias negras que se refugiaram e viveram naquela região.
A paisagem, nesse caso, também é documento.
Quatro comunidades. Mais de 12 mil pessoas.
A Feira quilombola de hoje não se resume à Matinha.
Lagoa Grande, no distrito de Maria Quitéria, foi a primeira comunidade feirense reconhecida pela Fundação Cultural Palmares. Depois vieram Matinha dos Pretos, Candeal II e, mais recentemente, Moita da Onça.
O reconhecimento não significa que o Estado “transforma” uma comunidade em quilombo. A certificação da Fundação Cultural Palmares reconhece oficialmente a autodefinição de grupos que possuem trajetória histórica própria, relações específicas com o território e ancestralidade relacionada à resistência à opressão histórica. Também é importante lembrar que certificação e titulação territorial são processos diferentes.
O número revelado pelo Censo de 2022 dá dimensão a essa presença.
Feira tinha 616.272 habitantes. Desses, 12.190 se declararam quilombolas, o equivalente a 1,98% da população. Em números absolutos, Feira apareceu como o nono município com maior população quilombola do Brasil.
Há outro dado que ajuda a compreender essa cidade: 180.190 feirenses se declararam pretos e 330.451 pardos. Juntos, pretos e pardos correspondiam a aproximadamente 82,8% da população do município.
Feira é uma cidade profundamente negra, não apenas porque os números atuais dizem isso, mas porque sua própria formação histórica diz.
Um dos equívocos mais persistentes sobre comunidades quilombolas é tratá-las como fragmentos sobreviventes de um tempo remoto.
As comunidades quilombolas de Feira estão no presente.
Na Matinha dos Pretos, a cultura permanece no samba de roda, nas práticas comunitárias, na religiosidade e na atuação de associações locais. Em 2025, moradores, sobretudo mulheres e jovens ligados à Associação Comunitária da Matinha, participaram da construção de um etnomapa do território, registrando lugares de memória, referências culturais e relações construídas com aquela terra.
É também na Matinha que está a Paróquia São Roque, considerada a primeira paróquia quilombola do Brasil. Criada oficialmente em 28 de novembro de 2021 pela Arquidiocese de Feira de Santana, ela nasceu de uma comunidade religiosa com mais de um século de história e está inserida em um território marcado pela ancestralidade negra e pela resistência quilombola. A paróquia reúne 13 comunidades e desenvolve uma atuação que busca aproximar a fé católica da valorização da identidade e da cultura afro-brasileira. A Pastoral Afro-Brasileira mantém, por exemplo, ações de formação sobre história e identidade negra e iniciativas como o concurso Miss e Mister Quilombola, realizado com participação de moradores de diferentes religiões da Matinha.
Em Candeal II, a Associação Comunitária de Desenvolvimento do Candeal mantém iniciativas voltadas para educação, memória, agricultura familiar e geração de renda. Entre elas estão biblioteca comunitária, ações voltadas às mulheres e o projeto Retalhos da História, pensado para transmitir às novas gerações a memória das lutas da comunidade.
Na Lagoa Grande está a primeira escola municipal quilombola de Feira de Santana, inaugurada em 2022 e batizada com o nome de Luiz Pereira dos Santos, apontado pela memória comunitária como fundador da localidade. A escola desenvolve atividades de valorização da ancestralidade e da identidade negra ao longo do ano letivo.
Mas o reconhecimento identitário convive com velhas desigualdades.
Em 2025, por exemplo, a Escola Municipal Quilombola Luiz Pereira dos Santos recebeu uma cisterna de 52 mil litros. O motivo expõe uma contradição difícil de ignorar: a falta de água em períodos de estiagem chegava a provocar cancelamento de aulas na comunidade de Lagoa Grande, localizada a cerca de dez quilômetros da sede urbana de Feira.
Quando Moita da Onça conquistou o reconhecimento em 2024, o debate realizado na Câmara Municipal voltou a expor reivindicações por transporte, educação quilombola, estradas e atendimento adequado nas políticas públicas.
São demandas do século XXI que dialogam, de diferentes maneiras, com uma questão muito mais antiga: quem tem pleno direito à cidade, à terra e aos recursos produzidos por ela?
Reconhecer muda também a história que contamos
Há uma Feira construída nos livros oficiais. A Feira dos grandes comerciantes, dos coronéis, dos intendentes, dos casarões, do gado, dos tropeiros, das estradas. Mas também existe uma Feira construída por Maurício, Romana, Luiz, Domingos e tantos outros cujos nomes sobreviveram porque um escrivão precisava registrar que eles pertenciam legalmente a alguém.
Existe a Feira de Belmira, que chegou à cidade em 1878 para dizer à Justiça que ela e seus filhos deveriam ser livres.
Existe a memória de homens e mulheres que buscaram abrigo nas matas da região da atual Matinha.
E existem milhares de descendentes de uma longa experiência negra que hoje plantam, estudam, trabalham, cantam samba, organizam associações, preservam histórias e reivindicam direitos em Lagoa Grande, Matinha dos Pretos, Candeal II, Moita da Onça e em outras partes do município.
O Censo apenas colocou um número sobre essa presença: 12.190.
Mais importante do que o próprio número é a pergunta que ele impõe a Feira de Santana sobre sua própria história: Como uma cidade com uma das maiores populações quilombolas do Brasil conseguiu tornar sua história quilombola tão pouco conhecida por grande parte dos próprios feirenses?
Recolocar essa população dentro da narrativa da cidade é urgente!

