No Dia Nacional do Patrimônio Histórico, o interesse crescente dos feirenses pelo passado contrasta com décadas de perdas arquitetônicas e revela uma cidade que começa a compreender que conhecer sua história também é uma forma de preservá-la
Neste 17 de agosto, Dia Nacional do Patrimônio Histórico, a Prefeitura de Feira de Santana publicou uma reflexão importante. “A preservação exige compromisso permanente do poder público e da sociedade”, diz o título do texto divulgado pela Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer. A data, celebrada em referência ao nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, fundador do Iphan, é dedicada à defesa dos bens materiais e imateriais que ajudam a contar a história brasileira.
A Prefeitura fez bem em lembrar.
Em Feira de Santana, porém, celebrar o patrimônio exige mais do que reconhecer aquilo que conseguimos preservar. Exige olhar também para o que perdemos. E perdemos muito.
Há algo novo acontecendo na relação dos feirenses com a própria cidade. Uma curiosidade que deixou os livros especializados, os arquivos e os círculos de memorialistas e começou a ocupar as redes sociais, as conversas, os vídeos, as fotografias compartilhadas, os comentários de quem olha uma imagem antiga e pergunta: “onde era isso?”. Uma geração que não conheceu aquela Feira começa a querer saber como ela era.
É um movimento particularmente significativo numa cidade que, durante décadas, confundiu modernização com substituição e permitiu que uma parcela importante da própria paisagem histórica desaparecesse.
A Feira que o progresso apagou

Feira de Santana chegou ao século XX com um conjunto expressivo de arquitetura eclética, especialmente no Centro, marcado por casarões, sobrados, igrejas, coretos, edifícios públicos e residências que ajudavam a contar visualmente a ascensão econômica e urbana da cidade. O próprio Memorial da Feira, mantido pela Prefeitura, reconheceu, ao apresentar fotografias da expansão urbana do município, que aquele núcleo central se encontra hoje profundamente descaracterizado.
Não é apenas uma impressão provocada pelas fotografias antigas.
Em abril de 2024, uma inspeção da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Municipal percorreu ruas do Centro para observar o estado do patrimônio arquitetônico. O levantamento encontrou imóveis deteriorados, construções transformadas sem preocupação com suas características e registrou perdas como a do antigo Hotel Solar Senador e de residências históricas da Avenida Senhor dos Passos. A própria comissão chamou atenção para casarões derrubados para dar espaço a supermercados, estabelecimentos comerciais e estacionamentos.
E não estamos falando apenas de perdas distantes.
Em fevereiro de 2025, foi demolido na Avenida Senhor dos Passos o prédio onde havia funcionado o Colégio Intelecto, apontado como exemplar da arquitetura eclética feirense. A demolição reacendeu na Câmara a discussão sobre a ausência de instrumentos suficientemente eficazes para impedir que outros imóveis de interesse histórico tenham o mesmo destino.
A Avenida Senhor dos Passos talvez seja o retrato mais visível desse processo. Fotografias antigas revelam uma via ladeada por edificações de grande riqueza arquitetônica. Hoje, são poucos os exemplares capazes de permitir que alguém caminhe por ela e reconheça, no espaço urbano, a cidade que existiu ali.
Na região da Igreja dos Remédios, outro dos núcleos mais antigos de Feira, sobrados que compunham a paisagem desapareceram ao longo do processo de adensamento comercial. Restou a igreja, mas boa parte do contexto urbano que ajudava a compreendê-la historicamente não existe mais.
Perder um prédio histórico não significa perder somente paredes, janelas, ornamentos ou telhados. Perde-se uma referência espacial. Uma maneira de entender como aquela sociedade vivia, construía, circulava e se enxergava. Uma cidade também conta sua história pela paisagem.
Preservar depois de perder
Seria injusto afirmar que nada foi feito.
Feira possui imóveis protegidos pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, o IPAC, entre eles o Paço Municipal, o Mercado de Arte Popular, o Arquivo Público, coretos, igrejas e outros bens representativos de sua história. Em 2023, a Câmara contabilizava 16 edificações tombadas pelo órgão estadual.
No âmbito municipal, a legislação que estabeleceu procedimentos próprios de tombamento foi sancionada em 2013. Em 2019, a Prefeitura lançou o Memorial da Feira, reunindo fotografias, vídeos, documentos e conteúdos sobre personagens, arquitetura, manifestações culturais e acontecimentos da cidade.
São movimentos importantes, mas que chegaram depois de uma longa sucessão de desaparecimentos.
O caso do Casarão Olhos D’Água é ilustrativo. Considerado de grande relevância para a memória da formação do município, o imóvel só teve seu tombamento municipal publicado em 2022, depois de recomendação do Ministério Público feita ainda em 2016, inspeções e um Termo de Ajustamento de Conduta firmado em 2019.
Em 2024, diante da situação dos imóveis do Centro, a própria Câmara voltou a discutir a necessidade de levantamento dos prédios históricos, revisão da legislação, fiscalização, incentivos à preservação e criação de um circuito histórico. Em outras palavras, mais de um século depois de grande parte daqueles edifícios ter sido construída, Feira ainda busca estabelecer uma política mais abrangente para proteger aquilo que restou.
Há avanços recentes. Em abril deste ano, por exemplo, o Município oficializou o tombamento de uma pintura histórica de 1902. São ações que precisam ser reconhecidas, justamente porque preservação depende de continuidade, inventário, recursos, fiscalização e política pública, e não apenas de homenagens em datas comemorativas.
Antes das redes, alguém guardou Feira

Se hoje é possível abrir o celular e descobrir como era uma rua feirense em 1930, identificar um casarão desaparecido ou reconhecer personagens que ajudaram a construir a cidade, isso acontece porque houve gente que decidiu guardar Feira quando preservar sua memória estava longe de ser uma pauta popular.
A Fundação Senhor dos Passos ocupa lugar fundamental nessa história. A instituição adquiriu o Casarão Fróes da Motta no fim dos anos 1990 e transformou o imóvel em espaço dedicado à memória. A própria Fundação registra que, sem aquela iniciativa, o casarão corria o risco de terminar como tantos outros imóveis históricos da cidade. Hoje, além do edifício preservado, a instituição mantém ações de restauração, exposições fotográficas, digitalização de registros audiovisuais, publicações e projetos ligados à história feirense.
É preciso falar também de quem transformou a própria vida em arquivo.
Adilson Simas, morto em 2025, foi um deles. Um dos fundadores do jornal Feira Hoje, jornalista, cronista e memorialista, reuniu durante décadas jornais, fotografias e lembranças. No blog “Por Simas e posteriormente na coluna Feira em História, tornou acessíveis episódios que poderiam ter permanecido confinados a acervos particulares. Durante anos, jornalistas e pesquisadores recorriam a ele quando precisavam reconstruir uma Feira que já não estava diante dos olhos.

Zadir Marques Porto atravessa mais de meio século de jornalismo acompanhando as transformações da cidade e continua fazendo da imprensa um instrumento de memória. Seus textos recuperam personagens, episódios políticos, esporte, rádio, costumes e acontecimentos registrados em antigos periódicos.
Ao lado deles estão nomes como Juraci Dórea, cuja pesquisa sobre a arquitetura eclética documentou parte importante do patrimônio que desapareceu; Antônio do Lajedinho; Raimundo Gama; José Ângelo Pinto; Carlos Brito; fotógrafos como Antônio Magalhães e tantos pesquisadores, artistas, jornalistas, professores e colecionadores que entenderam antes de muita gente que memória também precisa ser guardada. O Memorial da Feira, a Fundação Senhor dos Passos, a UEFS e diferentes acervos particulares são hoje depositários de parcelas dessa cidade desaparecida.
Foram essas pessoas que permitiram que os olhos mais jovens conhecessem aquilo que já não podem ver caminhando pelas ruas.
A história de Feira encontrou as redes

A diferença é que agora esses arquivos encontraram um público.
Conteúdos sobre a história de Feira de Santana têm conquistado espaço nas redes sociais e alcançado principalmente pessoas que dificilmente procurariam espontaneamente um livro de história local. Fotografias antigas circulam, vídeos sobre bairros despertam milhares de visualizações, monumentos voltam a ser percebidos e episódios esquecidos transformam-se em conversa.
Um dos nomes mais interessantes dessa nova geração é Mana Lula.
Arquiteta e urbanista, Manuela Lula Reis começou a chamar atenção produzindo ilustrações inspiradas em monumentos de Feira e ampliou sua atuação para conteúdos que misturam história, arquitetura, cultura urbana e humor. Em poucos anos, transformou o patrimônio feirense em assunto de rede social e mostrou que falar sobre arquitetura antiga não precisa ser uma conversa restrita à academia.
Seu trabalho é parte de uma mudança maior. Ao contar a história de ruas, prédios, bairros e acontecimentos da cidade numa linguagem digital, Mana ajuda uma geração a olhar para lugares pelos quais passou centenas de vezes sem saber o que havia ali antes. A memória encontra novas formas de circular.
O Feira Hoje também percebeu isso. Fundado em 1970 e referência da imprensa local por décadas, o jornal retomou suas atividades e vem transformando o próprio arquivo em conteúdo. A seção Feira em Memória recupera capas, fotografias e reportagens históricas.
E é impossível falar de imprensa e memória sem reconhecer a Folha do Norte. Fundada em 1909, é apontada como o jornal mais antigo ainda em circulação na Bahia. Mais de um século de suas páginas constitui uma fonte extraordinária para compreender transformações políticas, sociais, econômicas e culturais de Feira de Santana. Jornais também são patrimônio.
E foi dessa sede que o Feirenses voltou
O Feirenses nasceu em 2015 carregando essa inquietação.
Durante anos, este site reuniu histórias de personagens, monumentos, manifestações culturais, fotografias, documentos e episódios que ajudavam a revelar uma cidade que muitas vezes não aparecia no noticiário cotidiano. O próprio arquivo do site conserva conteúdos publicados desde aquele primeiro ano e reportagens que transformaram a história local em matéria jornalística acessível.
Quando decidimos retomá-lo, havia uma percepção muito clara: existia novamente uma sede por Feira de Santana.
Sede de saber quem foram as pessoas cujos nomes estão nas placas das ruas. De descobrir o que existia onde hoje há um estacionamento. De entender porque determinado bairro recebeu aquele nome. De conhecer a Feira negra, indígena, quilombola, sertaneja, comercial, religiosa, artística, popular. De descobrir mulheres esquecidas pelos registros oficiais e personagens que sobreviveram apenas na memória oral.
É motivo de orgulho para nós, editores, perceber que existe público para uma Feira de Santana aprofundada.
Ninguém luta por aquilo que não conhece. Ninguém sente falta de uma história que nunca lhe foi contada.
A geração que descobre a Feira antiga pelas redes sociais pode ser também aquela que se recusará a assistir passivamente ao desaparecimento do que restou dela.
A Prefeitura acerta ao afirmar, neste 17 de agosto, que preservar é responsabilidade do poder público e da sociedade.
O desafio agora é transformar essa frase em prática permanente.
Feira de Santana já perdeu patrimônio demais para continuar tratando memória como saudade depois da demolição.
Conhecer nossa história enquanto ela ainda pode ser protegida é uma maneira de impedir que, daqui a algumas décadas, nossos filhos precisem conhecer a Feira de hoje apenas por fotografias.

