Líder dos sem-teto, George Américo esteve à frente de ocupações por moradia, mobilizou milhares de pessoas no antigo Campo de Aviação e foi assassinado em 1988. Quase quatro décadas depois, seu nome permanece no mapa de Feira, mas sua história ainda é pouco conhecida.

George Américo é um nome conhecido em Feira de Santana. Está nas placas dos ônibus, nos endereços, no comércio, nas escolas, nas unidades de saúde e na fala cotidiana de milhares de pessoas. “Moro no George Américo”, “vou ao George Américo”, “nasci no George Américo”.

Antes de virar bairro, no entanto, George Américo foi gente.

Foi um jovem envolvido com movimentos sociais, funcionário da Prefeitura, participante do movimento estudantil e presidente da Associação dos Sem-Teto de Feira de Santana. Em uma cidade que crescia enquanto parte de sua população permanecia sem acesso à moradia, ele transformou a falta de um teto em mobilização política e coletiva. Segundo registros da Câmara Municipal, esteve à frente de 21 ocupações de terrenos em Feira e acabou conhecido pela imprensa como o “rei das invasões”.

A expressão atravessou o tempo. A história que existe por trás dela é bem mais complexa.

George organizava a luta de pessoas que não tinham onde morar. As ocupações reivindicavam terrenos vazios e colocavam no centro da discussão um problema que acompanhava o crescimento urbano de Feira de Santana: quem também tinha direito a viver na cidade?

Foi assim que, na madrugada de 28 de novembro de 1987, começou o episódio que marcaria definitivamente sua trajetória.

Uma madrugada e milhares de pessoas

O lugar era conhecido como Campo de Aviação, uma extensa área pública próxima ao Campo Limpo. Naquela madrugada, famílias chegaram carregando pás, enxadas, picaretas, pedaços de madeira, lona e o que mais fosse possível usar para demarcar um pedaço de chão.

A estimativa divulgada pela imprensa naquele período chegou a aproximadamente cinco mil pessoas. A ocupação havia sido programada e era liderada por George Américo e pela organização dos sem-teto. O episódio ganhou espaço não apenas na imprensa de Feira, mas também em jornais de circulação nacional.

Não se tratava apenas de entrar em um terreno. Ali começava a surgir um território.

As pesquisas que posteriormente se dedicaram à formação do bairro George Américo mostram que movimentos sociais, organizações populares e integrantes das Comunidades Eclesiais de Base participaram da mobilização e da construção daquele processo. O Movimento de Organização Comunitária, o MOC, também aparece entre as organizações que apoiaram a luta pela permanência das famílias.

Décadas depois, a forma como o conjunto nasceu ainda pode ser percebida em sua organização urbana. Durante sessão realizada pela Câmara Municipal em 2023 para lembrar os 36 anos da ocupação, moradores e lideranças destacaram que a organização coletiva desde os primeiros dias contribuiu para a formação de ruas largas e para a posterior consolidação do comércio e dos serviços da comunidade.

Era gente pobre planejando, dentro das possibilidades daquele momento, o lugar onde pretendia viver.

A disputa pela terra

George Américo

O contexto habitacional do país na época era precário. O acesso aos programas habitacionais exigia uma renda que estava fora da realidade de grande parte da população. Para muitas famílias, a ocupação aparecia como uma saída, mas precisava ser acompanhada pela desapropriação das áreas e pela presença do poder público, garantindo infraestrutura e condições dignas de moradia.

Em Feira, a dimensão daquela ocupação colocou o movimento diante do poder público e da Justiça.

Na época, Feira de Santana era administrada pelo prefeito José Falcão da Silva. A Prefeitura buscou judicialmente a reintegração de posse da área. Notícias publicadas naquele período mostram que muitas das famílias que estavam no Campo de Aviação já haviam procurado programas de habitação popular, mas continuavam sem uma casa.

Dias depois da ocupação, cerca de mil manifestantes foram ao centro da cidade em defesa da permanência das famílias. George estava à frente da mobilização.

A luta pela terra deixava de acontecer apenas na periferia e chegava ao coração de Feira.

O Feira Hoje, principal jornal diário da cidade naquele período, acompanhou intensamente o conflito. Pesquisas sobre a memória de George recuperam manchetes como “Ação contra invasores está na Vara de Fazenda Pública”, publicada em 5 de dezembro de 1987, e “Desapropriada a área da invasão no Campo Limpo”, no dia seguinte.

A mobilização conseguiu permanecer.

O antigo Campo de Aviação começou, aos poucos, a se transformar em lugar de moradia para todas aquelas pessoas.

“Rei das invasões”

George já era conhecido pelas ocupações anteriores. A do Campo de Aviação foi a 21ª ação associada à sua liderança.
A imprensa lhe deu um título que se tornou praticamente inseparável de sua memória: “rei das invasões”.

O historiador Clóvis Ramaiana faz uma distinção entre os termos “invasão e ocupação”. Em entrevista concedida à jornalista Cristiane Melo para o documentário George Américo: líder ou bandido?, lançado em 2008, ele argumenta que ocupação e invasão não significam a mesma coisa.

Para Ramaiana, invasão pressupõe retirar alguém de um espaço que já está ocupado e possui uso definido. Ocupação, por outro lado, ocorre quando um território sem utilização social definida passa a ser reivindicado.

No caso do antigo Campo de Aviação, ele considera a definição especialmente importante e afirma que ali ocorreu um caso evidente de ocupação, já que se tratava de um terreno da Prefeitura, anteriormente utilizado como campo de aviação, cuja destinação social ainda não havia sido definida.

Ramaiana situa George dentro de uma geração de trabalhadores que chegou ou cresceu em uma Feira de Santana marcada pela expansão dos anos 1970, mas não foi incorporada da mesma maneira às oportunidades econômicas e ao acesso à moradia.

Ele define aquela população como parte dos “excluídos do milagre brasileiro” e vê George como uma síntese dessa inconformidade.

Para o historiador, diante da exclusão, enquanto algumas pessoas se acomodaram ou desistiram, George escolheu lutar.

O historiador também lembra que como funcionário da Prefeitura, George tinha conhecimento sobre terrenos públicos e que isso contribuiu para sua atuação nas ocupações.

O advogado Roque Aras, também entrevistado no no documentário, apresenta outra dimensão da liderança de George. Segundo Aras, George demonstrava preocupação permanente com as condições das populações mais pobres, não agia em benefício próprio e deveria ser lembrado como alguém que lutava por um segmento social historicamente excluído.

Antes do bairro, havia um homem

Os registros disponíveis sobre a vida pessoal de George ainda são fragmentados, mas as entrevistas realizadas por Cristiane Melo também preservaram memórias mais íntimas de George.

Sua viúva, Norma Sueli, contou que conheceu George durante a militância estudantil, quando ele participava das movimentações da Casa do Estudante. Os dois namoraram, casaram e tiveram duas filhas. Norma o descreve como um marido presente, apesar da rotina intensa nas mobilizações. Desprendido, ela contou que seu marido possuía pouquíssimas mudas de roupa, já que costumava doar o que vestia para quem encampava a luta com ele.

Sua atuação se desenvolveu em uma Feira de Santana que passava por profundas transformações urbanas. A expansão da cidade não significava, para todos, acesso ao território urbanizado. Enquanto novos bairros, conjuntos e loteamentos surgiam, trabalhadores de baixa renda continuavam enfrentando dificuldades para encontrar moradia.
Foi a partir deste cenário que George construiu sua liderança e essa força começava a apontar para outro caminho: A política.

George pretendia disputar uma vaga na Câmara Municipal nas eleições de 1988. A movimentação indicava que uma liderança construída entre famílias sem-teto poderia chegar formalmente à política de Feira de Santana.

5 de maio de 1988

Pouco mais de cinco meses depois da ocupação do Campo de Aviação, George Américo foi assassinado a tiros, em 5 de maio de 1988.
No dia seguinte, o Feira Hoje estampou em sua capa a morte daquele que o próprio jornal chamava de “rei das invasões”.
George morreu justamente quando começava a se preparar para disputar as eleições municipais daquele ano.
As entrevistas realizadas por Cristiane Melo para o documentário de 2008 também recuperam as dúvidas e versões que passaram a cercar a morte de George.
Norma Sueli relatou que o marido se sentia ameaçado nos últimos dias de vida. Segundo ela, George chegou a procurar os sogros para pedir que eles cuidassem de sua esposa e filhas, porque não sabia o que poderia acontecer com ele.

O jornalista Wilson Mário recorda que depois da morte, surgiram versões que tentavam associar George ao tráfico de drogas. Ele ressalva, entretanto, que essas acusações nunca foram comprovadas. George nunca foi preso por tráfico de drogas nem como usuário, e a polícia não apresentou comprovação dessas acusações.

Wilson considera que a própria imprensa da época não cobrou suficientemente das autoridades uma resposta sobre o assassinato e avalia que a polícia permaneceu sem explicar adequadamente o crime à sociedade feirense.

Até hoje, não se sabe quem mandou matar George Américo. 

O homem virou bairro

George não viu o lugar pelo qual lutou se tornar o que é hoje.

Em 1989, a Lei Municipal nº 1.170 oficializou a denominação Conjunto Habitacional George Américo, numa homenagem que partiu da comunidade e chegou à Câmara de Vereadores.

O nome do homem passou a ser o nome do território.

Os barracos improvisados deram lugar a casas. Vieram ruas, escolas, postos de saúde, transporte, comércio, igrejas, praças, equipamentos públicos e novas gerações que nasceram no George Américo sem ter vivido a madrugada de novembro de 1987.
O que nasceu como uma ocupação se tornou uma comunidade definitivamente incorporada à cidade.

Em 2022, mais de três décadas depois daqueles acontecimentos, o tema voltou a ser registrado no trabalho audiovisual “Conjunto George Américo: a luta pela moradia”, produzido por Jorge Paulo Nascimento de Espírito Santo na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. O documentário partiu das memórias de moradores que testemunharam a ocupação do Campo de Aviação.

Essa permanência da memória ajuda a entender a dimensão do legado.

George ficou conhecido como lugar e foi sendo esquecido como pessoa.

Para gerações de feirenses, George Américo é primeiro um bairro. Poucos param para perguntar quem foi o homem que existiu antes da placa, antes da linha de ônibus, antes do endereço.

A resposta leva a uma das maiores mobilizações populares pelo direito à moradia da história recente de Feira de Santana. A um jovem ligado ao movimento estudantil e aos sem-teto. A milhares de pessoas atravessando a madrugada em direção a um terreno vazio porque queriam um pedaço de chão onde construir suas casas. Às disputas de uma cidade que crescia e precisava decidir quem poderia participar desse crescimento e leva também a uma história interrompida pela violência.

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