A história de Zuleika Fernandes atravessa abandono familiar, violência em uma relação afetiva, o desaparecimento da filha ainda bebê, anos de procura e uma internação psiquiátrica marcada, segundo relato da família, por sessões de eletrochoque. Quase 40 anos depois, ela reencontrou a menina que nunca deixou de acreditar que estava viva.
No início da década de 1970, uma jovem que havia chegado a Feira de Santana depois de ser expulsa de casa pelo próprio pai teve a filha ainda bebê levada de seus braços. Durante os anos seguintes, procurou pela criança, tentou convencer familiares e pessoas próximas de que a menina existia e, depois de um episódio de forte descontrole emocional, acabou internada no Hospital Especializado Lopes Rodrigues. Segundo a filha, durante o período de internação foi submetida a eletrochoques e perdeu cabelos e parte dos dentes.
A jovem era Zuleika Fernandes. A criança era Fabiana.
Mais de cinco décadas depois, a história é reconstruída pela própria Fabiana, que cresceu sem saber quem era sua mãe biológica. Aos 15 ou 16 anos, chegou a ver Zuleika pela primeira vez, sem que nenhuma das duas soubesse que eram mãe e filha. O encontro consciente entre as duas só aconteceria muitos anos depois.
A trajetória reúne diferentes formas de violência que marcaram a vida de uma mesma mulher. Neste Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres, o Feirenses conta a história de Zuleika a partir das memórias preservadas por sua filha.
Ainda muito jovem, Zuleika teve um primeiro relacionamento em outro estado, marcado pela violência. Segundo Fabiana, o companheiro agredia a mãe. Zuleika deixou a relação e retornou à Bahia com o filho, fugindo do homem.
Em Ipirá, sua terra natal, porém, enfrentou uma nova ruptura. De acordo com Fabiana, o pai de Zuleika ficou com a criança e expulsou a filha de casa.
Sem uma estrutura familiar próxima, ela veio para Feira de Santana. Cerca de três anos depois de sua chegada, Zuleika começou a se relacionar com o homem que se tornaria o pai biológico de Fabiana.
Foi em Feira de Santana que os dois iniciaram o relacionamento. Zuleika acreditava que ele era solteiro e que os dois estavam noivos.
Durante o relacionamento, Zuleika engravidou, no final de 1974.
Quando contou ao companheiro que estava grávida, descobriu que ele era casado.
Seu noivo não queria que a gestação prosseguisse. Zuleika, entretanto, decidiu ter a criança. Para ela, não fazia sentido interromper uma gravidez que imaginava poder ser acompanhada pela antecipação do casamento.
Não aconteceu.
O relacionamento terminou e em junho de 1975, na Casa de Saúde Santana, nasceu Fabiana.
A gravidez não era desconhecida pela família. As duas irmãs que já viviam em Feira sabiam da gestação e, depois do nascimento, a irmã caçula de Zuleika ajudava nos cuidados com a bebê.
Fabiana ainda era bebê quando um homem apareceu na casa onde Zuleika vivia.
De acordo com a história contada pela mãe, ele disse conhecer o pai da criança e estava lá a pedido dele, para saber se estava tudo bem com ela e com a menina. Zuleika permitiu que segurasse a filha.
Em determinado momento, a chupeta da bebê caiu no chão. O homem pediu que Zuleika fosse lavá-la e quando ela virou de costas, ele entrou no carro e desapareceu com a criança.
Zuleika saiu à procura da filha, pediu ajuda aos vizinhos e procurou o homem com quem havia mantido o relacionamento, que nada fez.
Não houve, naquele momento, uma investigação policial ou registro formal do rapto. Seus recursos eram mínimos.
A busca ocorreu por outros meios. Uma mulher sempre encontra força em outra mulher.
Ao lado de uma amiga, ela passou a utilizar o catálogo telefônico para localizar endereços e procurar pistas sobre a menina.
Durante aproximadamente cinco anos, as duas percorreram diferentes pontos da cidade. A amiga conduzia uma bicicleta e Zuleika seguia no quadro, indo de endereço em endereço.
Sem conseguir localizar a filha, cansada e sem qualquer esperança, Zuleika interrompeu as buscas, fez uma oração e pediu a Deus que protegesse a menina, acreditando que ela poderia estar sendo criada por outra família.
A palavra de Zuleika passa a ser desacreditada

Zuleika decidiu procurar a esposa do homem com quem havia se relacionado e contar sobre o relacionamento, a gravidez e o desaparecimento da criança.
A mulher não acreditou.
A discussão terminou com Zuleika quebrando objetos na residência.
Após o episódio, o ex-companheiro entrou em contato com o Hospital Especializado Lopes Rodrigues e relatou que havia uma mulher em surto no local.
Zuleika foi internada na instituição psiquiátrica.
Segundo a história preservada por Fabiana, a versão de Zuleika sobre o desaparecimento da filha passou a ser desacreditada em meio ao intenso sofrimento emocional vivido por ela.
As circunstâncias dessa internação são relatadas por Fabiana a partir da história que ouviu da mãe. Zuleika contou ter sido submetida a tantas sessões de eletrochoque, na tentativa de fazê-la parar de repetir a história da filha perdida, que perdeu muitos dentes. Era medicada constantemente e, desesperadamente, tentava não esquecer o rosto da filha.
Até que outra mulher surgiu para ampará-la.
Uma psiquiatra que atuava na instituição decidiu ouvir com mais atenção a história contada pela paciente.
A médica considerou que aquele relato poderia não ser um delírio, interrompeu os choques e passou a conduzir o tratamento de outra forma.
Posteriormente, responsabilizou-se pela alta de Zuleika e a empregou como secretária do seu consultório.
Quinze anos depois, a filha estava diante dela

Os anos passaram.
Quando Fabiana tinha cerca de 15 ou 16 anos, Zuleika estava na casa de uma professora de Química da adolescente, quando viu a jovem.
As duas estiveram diante uma da outra pela primeira vez.
Nenhuma, porém, sabia que eram mãe e filha.
Fabiana havia sido criada por uma família que não sabia que a criança poderia ter sido retirada da mãe sem consentimento. A informação recebida pelos pais adotivos era de que se tratava de uma bebê cuja família biológica não tinha condições de criá-la.
Ela cresceu sem conhecer essa parte da própria história.
A descoberta de que era adotada aconteceu durante a adolescência.
Em uma aula de Biologia sobre hereditariedade e tipos sanguíneos, Fabiana percebeu que sua tipagem não parecia compatível com as informações que conhecia sobre os pais.
Questionou a família.
Foi então informada de que havia sido adotada.
Ainda assim, não sabia quem eram seus parentes biológicos.
Anos depois, diante de uma condição hematológica apresentada por Fabiana, uma tia passou a buscar informações sobre a família de origem da sobrinha.
Foi durante essa procura que encontrou, no centro de Feira de Santana, um homem que poderia ter alguma relação com sua história.
Era o primeiro filho de Zuleika.
O menino que havia permanecido com o avô no interior havia crescido e também se mudado para Feira de Santana.
Ele conhecia a história da mãe e acreditava que a irmã havia existido.
As perguntas feitas pela tia de Fabiana despertaram sua desconfiança. Ele decidiu segui-la e descobriu onde a jovem morava.
Ao chegar à residência, afirmou que queria ver a irmã.
Fabiana ouviu a movimentação e apareceu.
O homem disse acreditar que ela era a criança que Zuleika procurara durante tantos anos.
A partir daquele encontro, Fabiana soube da existência da mãe biológica.
O reencontro

Em outubro de 2011, Fabiana finalmente conheceu Zuleika sabendo que aquela mulher era sua mãe.
Havia, no entanto, algo extraordinário naquele encontro.
As duas já tinham estado frente a frente muitos anos antes, quando Fabiana tinha cerca de 15 ou 16 anos, na casa da sua professora de Química.
Naquela ocasião, nenhuma delas sabia quem era a mulher diante de si.
Décadas depois do desaparecimento, mãe e filha finalmente se encontraram sabendo quem eram uma para a outra.
Fabiana ouviu da mãe a história da gravidez, do desaparecimento, das buscas pelas ruas de Feira de Santana e do período de internação.
A descoberta da família biológica não significou rompimento com a família que a criou.
Fabiana conseguiu conviver com as duas mães durante aproximadamente dez anos.
Hoje, nenhuma delas está viva. Zuleika morreu em 2021.
Fabiana conta que guarda a felicidade de ter conseguido conhecer a mãe biológica, conviver com ela e compreender a dimensão da história que carregava.
Também guarda orgulho da forma como Zuleika conseguiu reconstruir a vida depois de tantas experiências de violência.
Uma história atravessada por diferentes formas de violência
A trajetória de Zuleika não permite reduzir a violência contra a mulher à agressão física praticada dentro de uma relação conjugal.
Antes mesmo de chegar a Feira de Santana, ela viveu um relacionamento em que era agredida pelo companheiro. Fugiu da relação com o filho e retornou à Bahia. Em seguida, enfrentou a expulsão da casa do próprio pai, que permaneceu com a criança.
Depois, viveu uma relação com um homem que ocultou ser casado. Zuleika descobriu a existência do casamento quando contou a ele que estava grávida e enfrentou a rejeição daquela gestação.
Com o desaparecimento de sua filha, enfrentou anos de busca e sofrimento.
Quando tentou narrar o que havia acontecido, sua palavra foi colocada em dúvida.
E, num momento de intenso sofrimento e descontrole, foi internada em uma instituição psiquiátrica.
Para Fabiana, Zuleika foi vítima de diferentes formas de violência ao longo da vida, mas as que mais marcaram sua trajetória foram a violência psicológica e a violência patrimonial.
O caso também permite refletir sobre a forma como sofrimento psíquico, gênero e credibilidade se relacionaram historicamente.
Zuleika podia estar profundamente abalada. Afinal, segundo a história, havia perdido uma filha e passado anos procurando pela criança, que ao contrário do tentavam convencê-la, existia.
Essa distinção só apareceu em sua vida quando uma mulher decidiu escutá-la.
A história também mostra como diferentes vulnerabilidades podem se acumular na vida de uma mulher. Zuleika enfrentou relações violentas, a ruptura com o próprio núcleo familiar e um homem descrito como socialmente influente. Em vários momentos, sua versão dos acontecimentos teve menos peso do que a das pessoas ao redor.
Décadas depois, o reencontro com Fabiana deu a Zuleika algo que nenhuma discussão havia conseguido oferecer.
A confirmação de que sua filha estava viva.

