Exposição gratuita reúne 80 fotografias de Pierre Fatumbi Verger e traz de volta à cidade registros de um tempo em que vaqueiros, boiadas e a grande feira livre ainda definiam boa parte da paisagem feirense. Mais de 70 anos depois, as imagens encontram uma Feira transformada, na praça que se tornou símbolo da fotografia popular.
Fotografias produzidas há mais de meio século voltaram às ruas de Feira de Santana. Desde a última quinta-feira (27), a Praça Bernardino Bahia, conhecida como Praça do Lambe-Lambe, recebe a Caravana Verger, exposição itinerante da Fundação Pierre Verger que reúne 80 imagens do fotógrafo francês e vai percorrer 18 cidades brasileiras. Em Feira, a visitação é gratuita e segue até 6 de setembro.
A proposta da Caravana é aproximar a obra das pessoas. As fotografias, produzidas principalmente entre as décadas de 1940 e 1960, deixam museus e galerias para ocupar espaços públicos e dialogar com as memórias dos territórios por onde passam. Personagens, festas, ofícios, manifestações culturais e modos de vida aparecem nas imagens acompanhados por conteúdos audiovisuais, recursos interativos e ações educativas.
É nesse espírito que a exposição adota a ideia de que “o artista deve ir aonde o povo está”, verso de “Nos Bailes da Vida”, composição de Milton Nascimento e Fernando Brant. Em Feira, poucas localizações poderiam representar tão bem essa proposta quanto uma praça no coração do centro comercial, atravessada diariamente por trabalhadores, vendedores, estudantes e pessoas que simplesmente seguem o fluxo da cidade.
Há ainda um fato que dá outro significado à passagem da Caravana por aqui: Feira de Santana também esteve diante da câmera de Pierre Verger.
Pierre Edouard Léopold Verger nasceu em Paris, em 1902. Aos 30 anos, depois de aprender fotografia, passou a viajar e percorreu os cinco continentes registrando principalmente o cotidiano e as culturas populares. Chegou a Salvador em 1946, encantou-se com a Bahia e escolheu a cidade para viver. Sua trajetória acabaria ultrapassando a fotografia. Verger tornou-se pesquisador das culturas afro-baiana e diaspóricas, dedicando atenção especial ao candomblé e às relações entre o Brasil e a África Ocidental. Na África, em 1953, recebeu o nome Fatumbi, associado ao seu caminho religioso e intelectual ligado ao Ifá.

A Bahia, porém, para Verger, não se restringia a Salvador. O fotógrafo percorreu diferentes cidades e chegou também à Feira de Santana. Débora, monitora da exposição, chama atenção para esse deslocamento permanente.
“O Pierre Verger foi incansável nesses trânsitos. Ele percorreu a Ásia, Oceania, África e aportou em Salvador e fez dela sua casa. Só que, antes disso, ele passou por várias cidades brasileiras. Inclusive, Feira de Santana. Temos aqui duas imagens que são bem representativas da cultura popular feirense.”
Entre os conjuntos exibidos está o painel “Vaqueiros”, identificado pela exposição como composto por fotografias feitas em Feira de Santana, e Umbuzeiro, na Paraíba. A distinção é importante porque nem todas as imagens daquele painel foram produzidas aqui. Há registros documentados de Verger fotografando vaqueiros na feira de gado feirense nos anos 1950, enquanto parte da série sobre o tema, incluindo closes da indumentária do vaqueiro, foi produzida em Umbuzeiro.

Mas basta olhar para o vaqueiro para compreender por que aquelas imagens dizem tanto sobre a Feira que Verger encontrou.
Na década de 1950, Feira de Santana vivia a transição entre uma cidade profundamente vinculada ao mundo rural e um centro urbano em acelerado processo de crescimento. O comércio de gado não era um elemento periférico de sua economia. Era parte da própria história que havia dado origem ao município. Um estudo histórico sobre a feira feirense registra que, em 1950, a feira de gado da cidade era considerada a segunda maior do Brasil, com a comercialização de mais de 100 mil cabeças por ano. Vaqueiros, boiadeiros, criadores, comerciantes, agricultores e animais faziam parte do movimento regular da cidade.
Um registro publicado pela Revista Brasileira de Geografia, do IBGE, em 1952 ajuda a imaginar essa paisagem. A feira de gado começava nas manhãs de segunda-feira e, depois das negociações, transformava-se também em espaço de convivência e festa. Havia violeiros, cantadores, grupos conversando e vaqueiros demonstrando habilidade quando uma rês era solta. Era um ambiente em que negócio, trabalho e cultura popular se misturavam.

Essa era a cidade que estava diante das lentes de Verger.
Uma Feira onde a separação entre campo e cidade ainda era muito menos definida do que hoje. A grande feira livre ocupava o centro, recebendo produtos e gente vindos da zona rural de Feira e de inúmeras outras cidades. A circulação de vaqueiros e tropeiros, que já estava na origem histórica do município, ainda permanecia materialmente visível nas ruas.
Essa paisagem começaria a ser modificada pouco depois dos registros de Verger. Entre 1959 e 1962, a feira de gado foi transferida para uma região mais afastada do centro, na Queimadinha. Anos mais tarde foi transferida para o Centro de Abastecimento.
A Feira fotografada por Verger, portanto, não existe mais da mesma maneira. Felizmente, elas estão eternizadas nas fotografias.
O lugar escolhido para a exposição produz uma das conexões mais interessantes da Caravana em Feira de Santana.
Mais de 70 anos depois de Verger registrar vaqueiros numa cidade ainda profundamente atravessada pela pecuária e pela grande feira, aquelas imagens chegam à Praça Bernardino Bahia. A praça também mudou. O centro ao redor cresceu, verticalizou-se, ganhou trânsito intenso, novas construções e outras formas de comércio. Mas o local preserva um vínculo histórico particular com a fotografia.
Foi ali que se consolidou o trabalho dos fotógrafos lambe-lambe, profissionais que durante décadas fotografaram gerações de feirenses. José Viana da Silva Neto, conhecido como Zé da Foto. Ex vaqueiro apontado como pioneiro da atividade no local, relata ter começado a trabalhar na praça ainda na década de 1950. Naquele período, segundo ele, a própria feira livre ocupava a região e levava até ali um grande movimento de pessoas vindas também da zona rural. As fotografias 3×4, utilizadas principalmente para documentos, estavam entre os serviços mais procurados.

A coincidência temporal é poderosa. Enquanto Pierre Verger percorria Feira de Santana registrando vaqueiros e cenas de uma cultura popular ligada às ruas, a cidade começava a consolidar, praticamente na mesma década, uma tradição própria de fotógrafos populares na Praça em que hoje, recebe a exposição.
De um lado, o francês que percorreu o mundo fotografando gente comum. Do outro, homens que fizeram da praça seu estúdio e registraram milhares de rostos anônimos de Feira de Santana.
Agora essas histórias se encontram no mesmo lugar.
Em 2026, o cenário diante das fotografias é outro. O vaqueiro que aparece na imagem de sete décadas atrás divide o campo visual com prédios, lojas, ambulantes, carros, celulares e o movimento de uma metrópole regional e poucos fotógrafos que esperam, muitas vezes, em vão, transeuntes pedirem um clique. Pessoas passam diante daquele passado sem precisar entrar em um museu. Algumas seguem apressadas. Outras param.
Foi o que aconteceu com Estafano, estudante moçambicano que vive em Feira de Santana e encontrou a Caravana enquanto visitava a praça. Ele estava diante das fotografias e também produzia um vídeo para incentivar outras pessoas a conhecerem a exposição.
“Eu fiquei espantado com a realidade, da antiguidade que se vivia no Brasil. Eu me apaixonei por isso. Tava fazendo vídeo pra chamar todo mundo pra vir conhecer.”

O que mais o impressionou foi a espontaneidade das cenas registradas por Verger.
“Tudo é natural aqui. São fotos naturais, tiradas da rua. Eu me apaixonei tanto por essas obras aqui, por isso eu disse: vou fazer vídeo pra publicar, pras pessoas virem conhecer essa maravilhosa arte do povo.”
As encruzilhadas de Feira
A presença de um africano diante da obra também produz, espontaneamente, outra conexão com a trajetória de Verger. Durante décadas, o fotógrafo atravessou o Atlântico pesquisando aproximações, permanências e transformações culturais entre a Bahia e a África. O enorme acervo que deixou, hoje preservado pela Fundação Pierre Verger, reúne mais de 62 mil negativos produzidos em cinco continentes, com concentração especialmente importante no Brasil e no continente onde nasceu Estafano.
A Fundação foi criada pelo próprio Verger em 1988 com o objetivo de preservar e divulgar sua obra e manter viva a pesquisa sobre as relações entre a Bahia e a África.
A Caravana faz esse patrimônio voltar a circular.
Em Feira de Santana, sua passagem produz algo que vai além de uma exposição fotográfica. Diante daqueles vaqueiros, a cidade pode observar não apenas o trabalho de Pierre Verger, mas uma versão de si mesma.
A Feira das boiadas, dos vaqueiros e da grande feira livre deu lugar à cidade que conhecemos hoje. Com o comércio que ainda invade o centro. Com a cultura rural ainda presente e com o vaqueiro sendo personagem da identidade local. A Praça Bernardino Bahia continua sendo chamada pelos feirenses de Praça do Lambe-Lambe. E a fotografia ainda cumpre o papel que cumpria quando Verger apontou sua Rolleiflex para aquelas pessoas: impedir que um instante desapareça completamente.
Entre a Feira que Pierre Verger fotografou e a Feira que hoje para para observar suas imagens, muita coisa desapareceu, muita coisa se transformou e alguma coisa resistiu. A fotografia é uma delas.
A Caravana Verger permanece na Praça Bernardino Bahia, a Praça do Lambe-Lambe, no centro de Feira de Santana, até 6 de setembro, com visitação gratuita. A abertura da passagem pela cidade ocorreu em 27 de agosto, com apresentação do Mestre Zé das Congas.
Além da exposição, a Caravana Verger promoverá uma programação de oficinas em Feira de Santana, com atividades de cordel, serigrafia, produção de instrumentos sonoros com materiais recicláveis e fotografia. Entre os temas abordados estão as feiras livres e o autorretrato, com utilização de desenho e colagens.
As atividades serão conduzidas por arte-educadores locais e realizadas em parceria com escolas municipais e estaduais. Toda a programação será gratuita.
A acessibilidade também integra o projeto. As 80 fotografias são acompanhadas de conteúdos audiovisuais e contam com audiodescrição. As oficinas terão ainda a participação de intérpretes de Libras.

