Na histórica obra “Feira de Santana”, do pesquisador norte-americano Rollie Poppino, publicada em 1968, há uma referência interessante sobre os primeiros habitantes do que se tornaria a Princesa do Sertão: “A estrutura social básica do município de Feira de Santana desenvolveu-se durante o período colonial. Nessa época já se delineara a composição racial da população e muitas das instituições sociais estavam consolidadas. Quando os primeiros europeus se fixaram na gleba, que veio a ser o município de Feira de Santana, encontraram-na habitada por pelos índios das tribos Aimoré e Paiaiá”.

Poppino destaca que “os primeiros povoadores tiveram que encarar os perigos de uma guerra com os índios e de um ataque por bandos irregulares de negros”. O fato é que, de acordo com o autor, na região onde hoje é Feira de Santana o povo indígena era predominante até a chegada dos europeus e africanos, tendo alguns fugido motivados pelos confrontos com os invasores, outros morrido resistindo e ainda outros permanecido, compondo o caldo da miscigenação que caracteriza Feira de Santana (e o Brasil).

Buscando algumas referências, é possível constatar algum sentido no que afirma Rollie Poppino. Conheça um pouco mais sobre os Paiaiás (ou Payayá) e os Aimoré, possíveis povos primitivos da nossa terra:

Os Payayás

De acordo com o Portal Índios Online, administrado por militantes das causas indígenas no Brasil, os Payayá são povos dados como desaparecidos, exterminados. Entre os séculos XVI e XIX dominavam o território do vale do Rio Paraguaçu, bem como o território que compreende hoje a região onde estão os municípios de Morro do Chapéu, Jacobina, Saúde, Utinga e Tapiramutá. Também se encontra a presença inconteste desse povo na região de Alagoinhas, onde existe o povoado de nome São José dos Payayá. Em Serra Preta (a 65 quilômetros de Feira de Santana) há um monte chamado Payayá. No município de Saúde há uma fazenda com esta denominação, em Jacobina um cinema que, segundo seus construtores, é assim batizado em homenagem aos primitivos habitantes.

Na verdade os povos Payayá não desapareceram, misturaram-se. Devido a sua enorme resistência ao colonialismo, os Payayá foram perseguidos por fazendeiros, mineradores, bandeirantes e autoridades em geral. Essa resiliência dos Payayás é confirmada por vários pesquisadores, que descrevem a etnia como aquela “que consistiu em uma verdadeira ‘muralha humana’ durante os séculos XVII e XVIII, resistindo ao movimento de expansão e ocupação colonizadora das terras do interior da Capitania da Bahia”.

“Eram cultivadores do milho, da mandioca, do aipim, do feijão, da batata doce, do amendoim e da abóbora”.

Segundo o arqueólogo alemão Carlos Ott, que viveu boa parte de sua vida na Bahia, os Payayá devem ser classificados como caçadores-coletores tornados agricultores, fabricantes de ferramentas de pedra e cerâmica. Seriam também conhecedores da arte da construção usando ossos, madeiras, palhas trançadas de licuri e folhas de palma. Ott aponta vestígios de artefatos de sílex, nefrite e jadeite como lascas, machados, pontas de lanças e de flechas, além de cachimbos de madeira, urnas e cerâmicas decoradas. E afirma que os Payayá também eram cultivadores do milho, da mandioca, do aipim, do feijão, da batata doce, do amendoim e da abóbora, além de caçarem veados, porcos do mato, cascavéis, e coletarem umbu, mandacaru, xiquexique e mel de mandassaia.

Para Ott, os Payayá também acrescentavam o peixe à sua alimentação. Eles tinham o costume de invadir a região do Recôncavo para a pesca da tainha que, depois de salgada e triturada, gerava uma farinha de peixe (também chamada de farinha de guerra) que, quando misturada com a farinha de mandioca, tornava-se essencial para a sua subsistência no sertão, principalmente durante os períodos de secas prolongadas e de guerras, posto que esta farinha durava meses.

Os Aimorés

Casal de índios Botocudos (Aimoré)

Casal de índios Botocudos (Aimoré)

Os aimorés, ou índios botocudos, em sua maioria, usavam botoques labiais e auriculares. Eram numerosos na época da chegada do homem branco, distribuindo-se numa área que ia do Vale do Salitre, região onde hoje existe a cidade de Juazeiro, no norte da Bahia, até a área do Rio Doce, no sul de Minas Gerais.

Os botoques eram discos brancos, geralmente feitos com a madeira leve da barriguda secados ao fogo, de diâmetro variável, chegando a até 12 centímetros. Esses acessórios localizados nos lábios e orelhas, davam uma aparência assustadora aos índios, causando estranheza dos homens brancos.

Botocudos

Instrumentos e hábitos dos índios Botocudos

Em 1911, a Revista do Museu Paulista publicou um extenso relato das características dos Botocudos sobreviventes no Século XIX. Entre eles existia “a superstição de que as almas dos mortos, que não foram enterrados ou queimados, se transformam em animais ,particularmente em onças”. Segundo a publicação, os Botocudos tocavam a flauta taquara: “A extremidade inferior é aberta, e a superior, que corresponde ao internódio, tem uma pequena abertura central. No corpo da flauta notam-se duas aberturas quadrangulares, que ao tocar são tapadas com os dedos. Estas flautas eles sopram com o nariz, ao qual juntam a flauta, perto da abertura axial. Só as mulheres tocara flauta e a melodia é muito uniforme, repetindo-se sempre a mesma modulação”.

Há quem afirme que os Aimorés eram inimigos tradicionais dos tupis-guaranis, que gozavam de maior “prestígio” junto aos colonizadores, e por isso logo se tornaram inimigos potenciais do homem branco, representando um difícil obstáculo para o desbravamento do interior.


Naturalmente, muitas dúvidas no campo da investigação histórica podem surgir sobre os habitantes da “Feira de Santana primitiva”, mas já é válido refletir sobre as possibilidades de formação do nosso povo, tão múltiplo étnica e culturalmente.

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