Não é difícil encontrar, Brasil afora, alguém cantando Feira de Santana. A cidade, que há décadas transforma vivência em música, ecoa em diferentes vozes, palcos e multidões.
A música do feirense Carlos Pita, “Cometa Mambembe”, por exemplo, atravessa gerações sendo cantada em coro principalmente nos carnavais e nos festejos juninos dos rincões deste país.

Do “tabuleiro” da Feira, já saiu repertório que também cabe o desejo simples e poderoso de que “haja amor” e haja música boa do feirense Luiz Caldas na boca do povo.
Há ainda versos que viraram quase identidade coletiva. Todo mundo sabe que não dá pra enganar quem é de Feira de Santana. Russo Passapusso faz questão de repetir a frase que ganhou o país quando foi trilha de novela das oito e segue sendo cantada por multidões nos shows do BaianaSystem, numa espécie de reconhecimento imediato entre quem carrega essa origem.
A voz de Rachel Reis alcança o país e projeta a cidade em novos circuitos da música brasileira. Duquesa, outra artista feirense, chamou a atenção do rapper americano Snoop Dogg e ganhou destaque ao se tornar uma das apresentações mais aclamadas do Tiny Desk Brasil. São trajetórias que confirmam o alcance de uma produção que não cabe apenas nos limites da cidade.

E há histórias que parecem improváveis, mas são absolutamente feirenses. “Ai Se Eu Te Pego”, sucesso mundial na voz de Michel Teló, com números bilionários de visualizações, nasceu da canetada de Antonio Dyggs, compositor devoto de Nossa Senhora dos Direitos Autorais, que lembra sempre que a música ainda lhe rende bons frutos. Vale dizer que muito antes de dominar o mundo, o refrão já era dançado no Kabanas e em outros bares locais.
Diante de tantas referências, ainda fica a sensação de que algo importante pode estar sendo esquecido. São muitos nomes, muitas composições, muitas histórias que ajudaram a construir essa identidade musical.

E foi nesse contexto que o Festival Feira Canta Feira ocupou o Teatro do Centro de Convenções, no dia 18 de abril, reunindo artistas e público em torno de uma mesma ideia: reconhecer, celebrar e reafirmar a música feita na cidade. Mais de 500 pessoas estiveram presentes, em um evento gratuito que, desde o nome, já anunciava seu propósito. Ninguém foi por acaso. Quem esteve ali sabia exatamente o que iria encontrar.
Idealizado pelo produtor cultural Caíque Marques, diretor da Urupi Comunicação e Cultura e pela jornalista Beatriz Ferreira, com direção musical de Marcus Rossini, o festival surgiu também em um momento específico. Sem a realização da Micareta neste ano, o mês de abril ficou marcado por uma ausência simbólica de grandes encontros musicais. O projeto não se propôs a ocupar esse espaço, mas acabou oferecendo uma nova possibilidade de vivência coletiva da música.
No palco, a proposta foi construída como um diálogo entre gerações. Dionorina, com mais de quatro décadas de carreira, dividiu a cena com nomes como Matheus Amorim, representante de uma nova geração. Camila Pereira, Paula Sanffer e Maryzélia completaram o encontro, cada um trazendo sua trajetória e seu vínculo com a Princesa Altaneira.
A curadoria também apostou em deslocamentos. Os artistas interpretaram canções que não fazem parte de seus repertórios habituais, criando momentos inéditos. Matheus Amorim cantou Luiz Caldas. Camila Pereira revisitou canções de outros compositores, como “Balada” de Cássio Sampaio e “Ensolarada” de Rachel Reis. Dionorina trouxe de volta músicas que estavam há décadas fora de seus shows, como “Jamaica FM”.

Mais do que reverência, as homenagens reafirmaram a permanência das obras no imaginário coletivo da cidade. Em um dos momentos mais simbólicos da noite, Paula Sanffer e Dionorina dividiram o palco para cantar Jorge de Angélica, em uma apresentação que trouxe para dentro do teatro toda a representatividade da Rua Nova, importante berço da música, do reggae e da resistência negra em Feira de Santana, cantando versos que falam da cidade real, com suas cores e contradições. Foram momentos em que a música funcionou também como denúncia e afirmação, lembrando que a arte produzida na cidade carrega, além de beleza, um olhar crítico sobre o mundo.

Maryzélia, a Menina Mary, que por muito tempo caminhou acompanhada dos “coisinhos”, como carinhosamente chamava seus músicos, e de um público fiel que seguia seu samba e sua simpatia por onde se apresentasse, voltou ao palco de Feira de Santana carregando essa mesma energia. A menina do Feira IV tem ganhado o Rio de Janeiro e dividido cena com grandes nomes da música brasileira, mas fez questão de retornar às origens. No festival, cantou Roberto Kuelho, outro compositor de músicas que estão na boca do brasileiro, como a “Brincadiera da Tomada”. Um gesto de memória e reconhecimento. E, como não poderia ser diferente, mesmo dentro do teatro, Maryzélia transformou a plateia em roda e colocou todo mundo para sambar.
O Festival foi realizado com patrocínio do Governo da Bahia e contou com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e do Teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana e do deputado estadual Ângelo Almeida. Para Ângelo, o projeto representa a realização do sonho de proporcionar esse encontro entre gerações da música feirense. Um desejo que ganhou forma a partir do encontro de pessoas que vibram na mesma intensidade e que conseguiram construir, juntas, um conceito de arte. A expectativa agora é que novas inspirações surjam a partir dessa experiência e que essa ideia se fortaleça como um movimento contínuo na cidade.

O Feira Canta Feira evidenciou que existe público, interesse e reconhecimento para a produção local. Mais do que isso, mostrou que há um desejo coletivo de se ver representado, de se ouvir e de se reconhecer na própria história.
Feira de Santana continua cantando. E, pelo que se viu no teatro naquela noite, também continua aprendendo a se escutar.

