O que nasce do território pode transformar linguagem, estética e mercado. É a partir dessa premissa que a feirense Heloísa Carli constrói uma trajetória que reposiciona a coquetelaria como expressão cultural, conectando memória, identidade e economia local. Nascida e criada em Feira de Santana, com raízes no povoado do Malhador, em Riachão do Jacuípe, ela apresenta ao público um conceito que vai além da técnica: a chamada coquetelaria de origem.
A criação carrega marcas profundas de sua história familiar e comunitária. Neta de Dona Pombinha, parteira reconhecida na região, Heloísa herda um repertório simbólico que atravessa cuidado, saber popular e relação com a terra. Essa base não aparece como ornamento, mas como estrutura do seu trabalho. Cada ingrediente, cada escolha estética, parte de um entendimento de território que é vivido antes de ser elaborado.

Antes de ocupar o balcão, sua atuação passou por experiências diretamente ligadas à organização social. No Movimento de Organização Comunitária (MOC), acompanhou cooperativas e cadeias produtivas, construindo uma visão atenta à origem dos insumos e às relações de trabalho envolvidas. Esse percurso se traduz hoje em uma prática que valoriza rastreabilidade, comércio justo e protagonismo de produtoras locais.
É nesse contexto que surge a coquetelaria de origem, conceito desenvolvido por Heloísa a partir da prática e da escuta. Ingredientes como umbu, licuri, rapadura, ervas e sementes deixam de ser apenas insumos e passam a operar como narrativas. Há um compromisso com o uso integral dos alimentos, com os ciclos da natureza e com os saberes tradicionais. O resultado são criações que não apenas apresentam sabores, mas contam histórias.
Sua assinatura estética, definida por ela como uma elegância visceral sertaneja, rompe com a ideia de sofisticação baseada em referências externas. O refinamento, nesse caso, está na profundidade das raízes. Ao invés de importar tendências, Heloísa investiga o que já existe no território e o ressignifica com técnica contemporânea.

Esse caminho ganhou reconhecimento recente. Em janeiro, foi destaque no Master Bartender, realizado no Purgatório Bar, em Salvador. Na final, apresentou um coquetel que sintetiza sua proposta: cachaça prata lavada no azeite de licuri, umbuzada, mel de rapadura e doce de licuri produzido por cooperativa baiana. A criação articula técnica avançada com economia solidária e identidade regional.

Atualmente, Heloísa também se projeta nacionalmente como semifinalista da Campari Bartender Competition 2026. Na competição, leva um drink que homenageia as ganhadeiras, mulheres historicamente responsáveis por sustentar famílias e movimentar a economia nas ruas e feiras. Mais uma vez, sua produção se apresenta como ponte entre passado e presente.
Ao trazer a coquetelaria de origem para o centro de Feira de Santana, Heloísa Carli não apenas inaugura um conceito. Ela consolida uma linguagem construída ao longo de anos, atravessada por território, memória e compromisso social. Sua criação reafirma que a inovação pode nascer do que é local, e que o futuro também pode ser servido em taça com sabor de raiz.

