O tempo parece escapar pelos dedos. Corre, atropela, impõe urgência. A sensação é de que nunca há tempo suficiente. Mas o tempo é um só, inteiro, contínuo. Ninguém mexe nele. Somos nós que corremos, que nos perdemos na pressa e, nesse movimento, deixamos de ser. É dessa inquietação que nasce “Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser”, da Cia Única de Teatro, de Feira de Santana, um espetáculo que transforma o palco em um território de reflexão, ancestralidade e urgência, e lotou o teatro do Centro de Convenções de Feira de Santana na última terça, 21, numa apresentação gratuita.

A montagem se inicia sob a presença de Iroko, o orixá do tempo no Candomblé, senhor da árvore sagrada que conecta mundos, guardião da memória e da continuidade. É ele quem provoca a pergunta central da obra. Ter tempo para ser não é dado, é conquista. Em cena, a inquietação ecoa direta: você é ou está?

A história acompanha Dofona, Dofonitinho e Famo, três jovens yawôs e estudantes de teatro que, às vésperas da montagem de sua peça de formatura, recorrem ao terreiro onde pertencem. Ali, junto à yalorixá, pedem que Iroko lhes revele como sobreviver ao tempo atravessado pelo racismo estrutural, como desviar das violências que interrompem trajetórias e, sobretudo, como envelhecer sendo quem são. 

Mas o espetáculo não fala de um tempo abstrato. Ele convoca o tempo como presença viva. 

Espetáculo Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser
Espetáculo Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser. Foto: Gabriel Lima

Na tradição iorubá e nas leituras afro-brasileiras, Iroko é mais do que guardião, é princípio. Representado pela gameleira branca, árvore sagrada que liga céu e terra, carrega em si a ideia de origem, de raiz profunda que sustenta o visível e o invisível. Há narrativas que situam Iroko no próprio início da criação, como a primeira árvore plantada no mundo, um eixo entre o Orun e o Aiê. O céu e a terra, por onde os orixás teriam descido à Terra. Como um tipo de cordão entre os mundos, seu tronco simboliza essa travessia e reforça seu lugar como fundamento da existência. Por ser ancestral às demais árvores sagradas, também é compreendido como guardião dos espíritos que nelas habitam, sustentando a memória e a continuidade.

Há, no campo simbólico, uma compreensão profunda: tudo o que é vital nasce do tempo. O tempo que pari, que faz emergir, que sustenta e que também exige. O tempo como força criadora.

Nos terreiros, a bandeira branca de Tempo se mantém hasteada, dançando conforme a direção do vento, sinalizando que ali o tempo respira, observa, sustenta. Não é um tempo de relógio, é um tempo de fundamento.

Espetáculo Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser
Espetáculo Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser. Foto: Gabriel Lima

É nesse ponto que o espetáculo se expande. Se o tempo é aquilo que gera, então ter tempo para ser é reivindicar o direito de existir plenamente. Para corpos negros, essa não é uma abstração filosófica, é uma disputa concreta. É atravessar um país onde o racismo estrutura quem pode viver, envelhecer e ocupar espaços.

Com dramaturgia de Onisajé, trilha sonora de Jarbas Bittencourt e assistência de direção e diretoria de movimento de Fabíola Nansurê, a peça articula teatro, música e dança em uma linguagem que se ancora no teatro preto de matriz afro-brasileira. O iorubá ecoa em cena como memória viva, como resistência, como afirmação.

As atuações são atravessadas por verdade. Há uma entrega que não se limita à técnica. Os atores conduzem o público por uma experiência sensorial e política, onde cada gesto carrega história e cada palavra reverbera ancestralidade. São três jovens, negros e feirenses; Júlia Lorrana, Aninha Pinheiro e Júnior Dias.

Espetáculo Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser. Foto: Gabriel Lima

E há também o que acontece fora do palco. Em março passado, o espetáculo foi reconhecido na 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro, realizada no Teatro Paulo Autran, recebendo o prêmio de Destaque Nacional. O reconhecimento evidencia a potência criativa que emerge do interior e tensiona o eixo tradicional da cultura brasileira. A propósito, o público conheceu “Sheldon”, apelido carinhoso que o elenco deu ao troféu em forma de concha.

“Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser” aponta para uma demanda histórica que vai além da cena. É preciso empretecer o teatro. Seguir o caminho da reparação, da reconfiguração de quem conta as histórias e de quais histórias são contadas. No fim, a provocação permanece. Tempo é rei. E é mesmo um dos deuses mais lindos, como já cantaram Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mas, diante do que se vê no palco, fica evidente que o tempo também é disputa.

Como ter tempo para ser, em um mundo em que tudo é para ontem e onde se corre o tempo todo para ter?

O espetáculo transforma essa disputa em arte viva. Saí do teatro inquieta. Com vontade de ser, não apenas de estar.
Mais uma vez, a arte cumpriu o seu papel.

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