Na última quarta-feira (29), a Câmara Municipal de Feira de Santana aprovou uma moção de congratulação pelos 100 anos do Abrigo Predileto, um dos pontos mais tradicionais da cidade, localizado na Praça da Bandeira. A homenagem reacendeu uma dúvida histórica sobre a origem do espaço e a data correta de sua construção.

A base da controvérsia está em um edital publicado no jornal Folha do Norte, que trata do aforamento de uma área de terra na Praça da Bandeira para a construção de um abrigo. O documento menciona uma área de 78 metros quadrados destinada à edificação e foi assinado durante a gestão do então prefeito Francisco Barbosa Caribé.

A questão central gira em torno da data do edital. Há quem leia o ano como 1917, o que sustentaria a ideia de um centenário. No entanto, a análise do contexto histórico indica outra direção. Francisco Barbosa Caribé foi prefeito em um período ligado ao Estado Novo e à transição para a redemocratização, sendo apontado por registros históricos como o último gestor nomeado antes das eleições de 1947.

Esse dado torna incompatível a hipótese de que o documento seja de 1917. Naquele período, o Brasil ainda vivia a Primeira República, com outra estrutura política e administrativa. A presença de Caribé no edital funciona, portanto, como um marcador temporal confiável, situando o documento em um momento posterior, já na década de 1940.

A confusão pode ser explicada por falhas na leitura da data original, algo comum em documentos antigos, especialmente quando digitalizados ou reproduzidos com baixa nitidez. A semelhança gráfica entre os números pode facilmente levar à interpretação equivocada.

A importância dos abrigos para o desenvolvimento de Feira 


Mais do que simples construções, os abrigos funcionavam como pontos de encontro e acolhimento. Serviam de apoio a viajantes e trabalhadores, oferecendo café, lanches e refeições rápidas, enquanto reuniam passageiros à espera de transporte. Em uma Feira de Santana em plena expansão, esses espaços cumpriam a função de integrar pessoas vindas de diferentes localidades, em um tempo em que o fluxo urbano ainda se organizava em torno das feiras livres e das rotas comerciais.

Além do Predileto e do Marajó, que resistiram ao tempo, existiram também o abrigo do Nordestino, na Praça Dom Pedro II, e o Santana, na Praça João Pedreira, ambos demolidos ao longo do processo de modernização da cidade. Os quatro tinham em comum uma arquitetura simples, geralmente com formato retangular e bordas curvas, sem um estilo definido, mas facilmente reconhecíveis na paisagem urbana.

A origem exata desses abrigos não é totalmente clara, mas há indícios de relação com o transporte ferroviário e com estruturas semelhantes existentes em outras cidades, como Salvador, onde equipamentos com funções parecidas serviam de ponto de encontro para passageiros de bondes e outros meios de deslocamento.


Em Feira de Santana, especialmente até a década de 1970, quando o centro abrigava a maior feira livre do país, esses espaços eram verdadeiros pontos de convergência. O Abrigo Predileto, em particular, tornou-se um símbolo dessa vivência coletiva, reunindo feirantes, agricultores, comerciantes e visitantes sob o sol forte, oferecendo sombra, água gelada e uma pausa no ritmo intenso da cidade.

É também nesse contexto que se consolida sua dimensão afetiva. Mais do que um abrigo, o Predileto se transformou em referência gastronômica, marcado pelo tradicional sorvete com doce de leite, que atravessa gerações e permanece como memória viva de quem passou por ali.

Sugestão de link para leitura de assuntos relacionados: O DOCE DE LEITE COM SORVETE DO ABRIGO PREDILETO

Mais do que um impasse cronológico, o episódio revela como a memória da cidade é construída também a partir de registros que precisam ser revisitados e contextualizados. O Abrigo Predileto segue sendo um símbolo afetivo e gastronômico de Feira de Santana, independentemente da data exata de sua origem.

Centenário ou não, o Abrigo segue fazendo jus ao nome. É mesmo o predileto de quem chega e prova suas delícias.

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