O vinil está em alta. Mais de três décadas depois do que parecia ser o decreto do seu fim, ele voltou com tudo. Quem diria?
Mas como explicar o fenômeno em tempos em que a música está a um clique dos nossos ouvidos? Os streamings, essas plataformas maravilhosas, não nos deixam passar aperto. Dezenas, centenas, milhares de músicas sem parar. Algoritmo inteligente. Se falta faixa escolhida por você, ele sugere outras e, na maioria das vezes, acerta.


Esta jornalista que vos escreve é uma colecionadora de discos de vinil e iniciou este texto sem uma resposta concreta para o porquê desta paixão a esta altura da vida tecnológica.

Feira de Discos de Vinil em Feira de Santana. Foto: Divulgação

Eu curti pouco os bolachões em seus tempos áureos. Na minha infância, cheguei a virar o lado dos discos na vitrola, mas eles foram perdendo espaço para os CDs. Eu amava abrir as capas acrílicas, tirar o encarte, ouvir as faixas lendo cada letra, olhando as fichas técnicas como se entendesse o que diabos poderia ser uma técnica.


Os CDs e as fitas K7 foram minhas melhores companhias por muito tempo. Nas fitas, eu ouvia coletâneas, não playlists. Ainda americanizávamos pouco as coisas. Sinto saudade disso também. Elas eram feitas com muito empenho. Gravadas ao longo de semanas inteiras, conforme a programação do rádio, em meio à orações para que no meio da música, não entrasse uma vinheta com o nome da emissora ou a hora certa. No tempo dele, não no meu.


Mas aí a vida acelerou. Vieram os pendrives, os aparelhos de MP3 e, finalmente, a era dos streamings. Tudo se tornou mais prático e, como eu disse, isso é ótimo! Mas, acredito que modernidade passou a sentir saudade do modus analógico de ouvir música. Como crianças mimadas, enjoadas da facilidade das coisas, o gosto popular voltou a apreciar os antigos LPs. Eles têm dominado o mundo e, segundo relatório anual da Recording Industry Association of America, o formato ultrapassou 1 bilhão de dólares em vendas pela primeira vez desde 1983.

Feira de Discos de Vinil em Feira de Santana. Foto: Divulgação

E cá estou eu nesta estatística. Na pandemia, sentindo falta de tempo de qualidade e, nas madrugadas em claro, na tentativa de espantar os demônios que nos matavam de medo todos os dias, comprei uma vitrola. Não possuia nenhum disco, mas lembrei que, na casa do meu falecido avô, havia uma estante cheia deles, sob a tutela de um tio e das traças. Reivindiquei minha herança em vida e levei cerca de 300 discos para casa. Lavei um por um para tirar o mofo. Comprei novos plásticos para embalar e devo ter ouvido quase todos eles. Hiperfocada, me cadastrei em clubes de vinil, passei a frequentar feirinhas e sebos e foi nesse contexto que descobri que, em Feira, isso também é tendência. Tem gente vivendo disso.


À frente desse movimento está Ivan Coelho. Colecionador desde 2015, ele transformou a curiosidade inicial em um estilo de vida. O foco é a música brasileira, especialmente a MPB e o rap, mas o que sustenta mesmo a jornada é a experiência de ouvir música de forma analógica e o valor histórico que o vinil carrega.


Foi a partir dessa vivência que ele percebeu uma ausência em Feira de Santana. Faltava um espaço de encontro. Um lugar onde colecionadores, vendedores, curiosos e apaixonados pudessem se reunir não apenas para comprar e vender, mas para trocar histórias.

Feira de Discos de Vinil em Feira de Santana. Foto: Divulgação

“Sou colecionador e percebi que muita gente em Feira sentia falta de um espaço para esse encontro. juntamente com o apoio de lojistas e de outros vendedores de discos, criamos um evento onde colecionadores, vendedores, curiosos e entusiastas pudessem trocar discos, histórias e manter a cultura do vinil viva”. Conta.


O que começou de forma tímida ganhou corpo. Hoje, o evento chega à sua 9ª edição, e vai ser realizado no próximo dia 09 de maio, a partir das 13h, no Contêiner Mall.
A feira se consolidou como referência na Bahia. A feira reúne expositores de vários estados, DJs, sebos e um público cada vez mais diverso. Gente que cresceu com o vinil e gente que está descobrindo agora.


É comum ver jovens comprando o primeiro LP mesmo sem ter um toca-discos. Famílias inteiras circulam pelo espaço como quem busca mais do que um produto. Buscam uma experiência. Porque a feira não é só comércio. Tem discotecagem em vinil, bate-papo sobre música, exposição de capas icônicas e espaço para trocas. O disco, ali, é quase um pretexto.
A iniciativa também movimenta a economia criativa local, fortalece os sebos e coloca Feira de Santana no mapa dos eventos dedicados à música analógica no Nordeste. É resistência cultural, mas também é reinvenção.

Feira de Discos de Vinil em Feira de Santana. Foto: Divulgação

Talvez o retorno do vinil tenha menos a ver com o passado e mais com a falta que o tempo tem nos feito.


E se existir uma espécie de inveja silenciosa da agulha da vitrola? Do percorrer do disco no ritmo exato em que a música foi pensada?
Ela atravessa cada faixa respeitando o caminho, como se soubesse que a experiência está justamente no percurso.

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