Poucas personagens da história popular de Feira de Santana atravessaram o tempo com tanta força quanto Helena do Bode. Entre fatos documentados e narrativas da tradição oral, sua trajetória revela muito sobre a cidade, sobre a presença das religiões de matriz africana no sertão baiano e sobre os preconceitos enfrentados por seus praticantes ao longo do século XX.
Nascida em Salvador, no bairro do Rio Vermelho, como Maria Helena de Andrade, Helena chegou à Feira de Santana em meados do século passado e construiu na Rua Nova um dos terreiros mais conhecidos da região. Ialorixá respeitada, tornou-se referência religiosa para centenas de pessoas que buscavam aconselhamento espiritual, cura e acolhimento em sua casa. Seus festejos, especialmente os dedicados a Omolu, atraíam visitantes de diversas cidades da Bahia e até de outros estados.

Mas foi um companheiro inseparável que acabaria eternizando seu nome na memória popular: um bode preto chamado Balu. O animal a acompanhava pelas ruas da cidade, nos mercados, nas feiras e em seus deslocamentos cotidianos. Com o passar do tempo, Maria Helena passou a ser conhecida simplesmente como “Helena do Bode”, apelido que ultrapassou a figura da religiosa e se transformou em patrimônio da cultura popular feirense. Em Feira de Santana, uma cidade em rápida expansão econômica e urbana, os terreiros ocupavam um espaço contraditório: eram procurados por pessoas de diferentes classes sociais, mas também vistos com desconfiança por setores conservadores da sociedade.
Nesse contexto, Helena tornou-se uma figura de resistência. Sua liderança religiosa ajudou a consolidar a presença do candomblé na cidade, contribuindo para a preservação de práticas culturais e ancestrais herdadas dos povos africanos e afro-brasileiros. Ao mesmo tempo, sua personalidade forte, seu jeito expansivo e a presença constante do bode alimentaram histórias que misturavam admiração, humor e preconceito.
A repercussão de sua figura foi tão grande que Helena passou a aparecer em reportagens, fotografias e obras da cultura popular. Uma das imagens mais conhecidas foi registrada pelo fotógrafo Antônio Magalhães. Sua história também inspirou o cordel Vida e Morte de Helena do Bode, a Gorda Macumbeira Baiana, publicado pelo poeta Franklin Maxado na década de 1980, ajudando a perpetuar sua memória entre gerações de feirenses. Em versos atribuídos ao cordel, Franklin ajuda a compor a imagem mítica de Helena:
“No Rio Vermelho nasceu
Helena, de corpo avantajado
Desde moça já mexia
Com o santo incorporado…”
Outro trecho retrata a relação afetuosa entre Helena e Balu:
“Arranjou o bode novo
Que era de mãe enjeitado
Acostumou-o a dormir
Na sua cama deitado…”

Nossa reportagem não conseguiu localizar nenhuma fonte que confirmasse o nome oficial do terreiro de Helena do Bode. Registros encontrados em jornais, crônicas e relatos de memória mencionam apenas “o terreiro de Helena”, sem indicar sua denominação ritual. A casa já não existe mais, o que revela uma lacuna importante na preservação da memória afro-religiosa da cidade.
Décadas após sua morte, Helena segue cercada por histórias que transitam entre memória e lenda. Nossa apuração reuniu relatos orais que ajudam a dimensionar a força de sua presença no imaginário popular. Algumas histórias a descrevem como uma mulher de grande poder espiritual, procurada por pessoas em busca de proteção ou ajuda para resolver conflitos pessoais. Outras narrativas mostram como sua figura atravessou gerações como personagem quase mítica. Moradores da Rua Nova relatam que, por muitos anos, crianças ouviam frases como “Helena do Bode vai lhe pegar” quando se comportavam mal. Também circulam lendas envolvendo supostos feitiços e maldições, como a famosa história de que a cabeça de seu bode teria sido enterrada no Estádio Joia da Princesa, o que explicaria uma suposta fase de azar do Fluminense de Feira. Não há, obviamente, registros documentais que confirmem esses episódios, mas as narrativas permanecem vivas na tradição oral feirense.
Mais do que uma personagem folclórica, Helena do Bode representa um capítulo importante da história cultural de Feira de Santana. Sua trajetória revela a força das mulheres negras e das lideranças religiosas de matriz africana na construção da identidade da cidade. Ao lado de figuras populares como Lucas da Feira, Noratinho da Pamonha e outras personagens marcantes do imaginário local, ela permanece viva na memória coletiva, lembrada não apenas pelo bode que lhe deu fama, mas pelo papel que desempenhou na preservação da religiosidade, da cultura e da ancestralidade afro-brasileira no sertão baiano.

