Os dedos hábeis de uma criança debulhando amendoins cozidos me lembram dos rituais de São João. A fogueira é o centro das atenções antes de acesa, com o debate sobre como acendê-la. Jornal com óleo de cozinha. Querosene. Gravetos. Cuidado com madeira molhada. Tronco de aroeira faz fumaça. Madeira verde não queima e cheira. Álcool, diesel. Troncos robustos embaixo, médios em cima, agudos por dentro apontando para as estrelas.

Antigamente as fogueiras ficavam montadas e prontas no comecinho da noite. Arrudiávamos o quarteirão comparando. A de Seu Roque está maior que a do ano passado. Dona Nice colocou só tábua de caixote, vai acender e dormir. Morreu Baguinho, só tinha fogueira na casa de Sandra por causa dele, que ficava a noite toda de cócoras assistindo às cores do fogo.

Acesas eram alimentadas pelo que havia de inservível: um móvel com a perna quebrada, jornais com histórias mortas, palhas e sabugos de milho assados ali na brasa. Na madrugada os vizinhos que ficavam acordados furtavam troncos de outras casas, fundindo fogueiras clandestinamente.

Chuvinhas, bombas, traques, foguetinhos e cobrinhas eram artífices das cores, risos e riscos que nós, pequenos, inventávamos como quem brinca de Deus fazendo luz. As pontas dos dedos queimadas faziam parte da tradição, tanto quanto fundos musicais de Trio Nordestino, Luiz Gonzaga e Flávio José tocando difusamente nas casas. São João e Natal eram as festas do ano em que comprávamos roupa, então andávamos orgulhosos por estarmos arrumados, talvez vistos pelas meninas da rua.

Em cada casa havia o melhor licor do São João.

Os mais próximos se visitavam sem precisar de convite, para quentar uma fogueira, diziam, e sempre levavam um pedaço de bolo de puba ou um pouco de canjica pra casa. Amendoim e milho não precisava, era obrigação em todos os lares juninos. Tem um licor aqui pra você provar, de jenipapo, comprei em Cachoeira. Agora esse é bom. Em cada casa havia o melhor licor do São João.

A noite acabava com a neblina se confundindo com a fumaça, que dava cheiro às roupas novas e ardor nos olhos na hora de dormir. De manhã, corríamos para ver se a fogueira estava toda queimada, se havia no meio das cinzas alguma brasa que acendesse o traque que restou. Como quem ganha um abraço, tomávamos café preto acompanhando a sobra do amendoim, debulhado com os dedos sapecados de cobrinha.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X E-mail