Uma amiga brasileira que morava no Chile certa vez me disse que se sentia latina, portadora de uma espécie de pertencimento comum à maioria dos povos das américas do Sul e Central. Cavei em mim algum sinal dessa latinidade, mas com certa timidez confessei não sentir muita conexão com argentinos, chilenos, equatorianos ou franco-guianenses, por exemplo. Não duvido que esse alheamento tenha raízes coloniais, como dizem bons estudiosos de cultura e História, ou que isso aconteça porque não compartilho experiências com pessoas dessas nacionalidades, mas o que está dado, sem fazer cálculos racionais e discursos politizados, é que todos esses povos me são muito estrangeiros e distantes.

Reconheço que minha perspectiva não é confiável, porque também não sou lá esse brasileiro todo. Me entendo bem com um taxista carioca ou uma garçonete gaúcha, podemos concordar e compartilhar visões sobre futebol e culinária. Mas aquele sotaque, as entradas e saídas do discurso, as desconfianças que existem daqui pra lá e de lá pra cá me deixam desconfortável e antinacional. É como se algo me dissesse: ela precisa conhecer Feira pra entender bem o que estou dizendo.

Talvez por isso qualquer ideia de pátria me soa estranha e artificial, mesmo reconhecendo a elegância e o fator integrador que é a Língua Portuguesa – Caetano diz que não temos pátria, temos mátria, adaptando a máxima de Fernando Pessoa, “minha pátria é minha língua”. Não sou de torcer por outro país na Copa do Mundo e acho estranhíssimos esses tempos de intervenções estrangeiras na América Latina, mas tudo isso está longe dos afetos envolvidos quando o assunto é Feira de Santana.

Para começar, rejeito quando perto de mim alguém de Salvador ou de outras cidades fala mal de Feira: isso é coisa que apenas nós entre nós podemos fazer. Também questiono certas generalizações que colocam o feirense como um baiano padrão. Essa expressão da música de Kanalha que virou bordão publicitário, “o baiano tem o molho” me soa estranha por aqui, pois faz referência a uma autoconfiança sensual própria do soteropolitano. Do mesmo modo, a partir da caricatura de influenciadores e humoristas de Salvador, virou ponto turístico uma suposta mania dos baianos de xingarem com frequência durante conversas do cotidiano, algo pouco comum nos interiores da Bahia, Feira de Santana incluída.

De maneira geral me sinto Brasileiro quando saio do Brasil, baiano quando saio da Bahia. Feirense me sinto em qualquer lugar. A Bahia e o Brasil são dimensões das quais lembro quando me faltam, de Feira não preciso me lembrar porque ela se apresenta no cotidiano, numa barraca montada num lugar inusitado, na atmosfera rural que aqui se mistura com o urbano de modo único, na criatividade das ofertas anunciadas na rua, nas diversas expressões artísticas populares que acontecem todo dia, em cada mentira ouvida no bar de Nequinha. Feira é Feira. Como diz aquela moça do Big Brother que esteve no Feiraguay: Feira é o Brasil do Brasil.

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