Nas três primeiras décadas do século XX, Feira de Santana abrigou um conjunto de grêmios literários e lítero-dramáticos que estiveram entre as principais formas de sociabilidade cultural da cidade. Reunidos em torno de recitais de poesia, saraus, conferências e encenações teatrais, esses grupos eram compostos majoritariamente por membros das elites locais — médicos, advogados, farmacêuticos, dentistas, engenheiros, professores e estudantes. Segundo a historiadora Aline Aguiar Cerqueira dos Santos, na dissertação Diversões e civilidade na “Princesa do Sertão” (1919–1946), defendida no Mestrado em História da UEFS em 2012, essas agremiações exerciam uma função pedagógica, com a pretensão de difundir entre a população valores de moralidade, civismo, cidadania, progresso e “civilidade” idealizados pelas classes dirigentes.

O memorialista Alberto Alves Boaventura registrou que, “antigamente, existiam, na minha terra, grupos literários e dramáticos, que formavam as mentalidades dos jovens para uma vida futura”, citando entre eles o Grêmio Dramático Salles Barbosa, o Grêmio Lítero-Dramático Rio Branco e o Taborda. Essas instituições integravam ainda uma ampla rede de eventos beneficentes ao lado das filarmônicas, dos clubes carnavalescos, dos times de futebol e do Cine-Teatro Santana.

Grêmio Lítero-Dramático Rio Branco

O Grêmio Rio Branco foi um dos principais centros da vida literária feirense do período. A data de fundação não é conhecida com precisão; pela análise das fontes, Aline Aguiar estima que tenha ocorrido por volta da década de 1910. A dissertação localiza sua sede na Rua Conselheiro Franco, na região da Rua Direita, onde se concentravam as agremiações culturais da cidade, o memorialista Eurico Alves Boaventura situa o grêmio “na curva da Rua Direita”.

Integravam a agremiação nomes ligados ao que os jornais chamavam de “seleto scol da sociedade feirense”: Dr. Juventino Pitombo, Dr. Gastão Clóvis de Souza Guimarães, Marinésio Mello, Álvaro dos Santos Rubem, Miguel Domingos de Araújo, João Pereira de Aguiar, Dr. Genésio da Silva e Waldemar Campos, entre outros. Juventino Pitombo, cirurgião-dentista, era o tesoureiro em 1919 e, na década seguinte, assinava crônicas no jornal Folha do Norte, na coluna “Estrela Cadente”, sob o codinome “Juju Santamarense”. Gastão Guimarães, médico nascido em Belmonte e radicado em Feira de Santana desde 1914, presidia o grêmio e atuava também na Escola Normal, no Ginásio Santanópolis e na Filarmônica Vitória.

Conforme a dissertação, os integrantes reuniam-se ao menos duas vezes por semana, geralmente às quintas-feiras e aos sábados, em encontros que incluíam recitais de poesia, a chamada “hora literária”, palestras, concursos de poesia e, ocasionalmente, encenações teatrais. Os temas giravam em torno da moralidade, do civismo, da cidadania e do progresso, além de datas comemorativas como a Proclamação da República, a Independência e o Dois de Julho. Ao menos uma vez por mês, a palavra era franqueada a mulheres. Entre as conferencistas e os temas identificados no Folha do Norte estão: Rangelina Andrade (“De como se constituiu a nacionalidade brasileira”), Rosalva Leite Fiuza (“Amor da Pátria e a mulher”), o engenheiro Britto Araújo (“A influência da mulher na sociedade feirense”), Rosalina Pitombo (“A Educação dos Filhos”), Edith Mendes, nome de solteira da feminista Edith Gama e Abreu (“A mulher”), Guilardo Cohim (“Os gregos”) e Mario Ramos (“Sugestões para Agricultura”).

Um recorte do periódico Bahia Illustrada de 1919 documenta uma dessas reuniões. Sob o título “Conferencias literarias na Feira de Sant’Anna”, o periódico noticia que a última conferência fora proferida pelo jovem médico Genésio da Silva, cujo tema foi “Nótulas em torno do phenomeno da curiosidade“, diante de “uma numerosa e escolhida assistencia, composta do escol feirense”. A nota informa que tomaram parte na “hora literária”, após a conferência, os jovens Edgard Ferreira, Samuel Pitombo, Carlos Muritiba, Pericles Souza e Jerson Silva, e registra que fora convidado a palestrar no grêmio o deputado estadual Alberto Rabello, descrito como contista e historiógrafo. A lista de presentes publicada pelo periódico inclui Gastão Guimarães, Juventino Pitombo, Marinésio Mello, Álvaro Rubem e Miguel Araújo — os mesmos nomes que Aline Aguiar identifica como integrantes do grêmio, o que reforça a documentação reunida na dissertação.

Em 1922, o grêmio passou por um período de crise. Em crônica publicada no Folha do Norte em 11 de março daquele ano, Juventino Pitombo registrou o fechamento temporário das atividades, descrevendo-o como uma retirada para reorganização e citando a frase de Latino Coelho segundo a qual “nenhum povo culto pode viver sem literatura”.

Grupo Taborda (Grêmio Dramático Taborda)

O Taborda foi um grupo dramático amador composto por integrantes da elite feirense. Segundo a pesquisadora Maria Izabel da Silva Sampaio, citada na dissertação, foi o grupo de maior duração na cidade, atuando de 1906 a 1934. Teve como fundador Ulisses Silva, a quem depois se associaram Domingos Araújo, Ismael Bastos e Tude Oliveira. Suas reuniões, ensaios e apresentações ocorriam no Cine-Teatro Santana.

Entre seus participantes a dissertação relaciona Braulio Miranda, Antônio Azevedo, Arnold Silva, Avelino Martins, Joaquim Simões de Amorim, José Suzarte, Aurélio de Vasconcelos, Salustiano Farias Júnior, Aristófanes Silva, Eduardo Franco, Gilberto Costa, Manoel da Costa Ferreira, Martiniano Carneiro e Miguel Araújo, este na função de diretor. Manoel da Costa Ferreira, conhecido como Maneca, foi coletor estadual e um dos fundadores da Micareta de Feira, além de pintor, desenhista e escultor. Martiniano Carneiro era proprietário do jornal Folha da Feira, e os irmãos Dálvaro e Arnold Silva, do Folha do Norte, vínculos que, segundo a autora, garantiam ao grupo ampla divulgação. A partir de uma foto de 1912 publicada no Folha do Norte, a dissertação observa que a participação feminina era inicialmente inexistente: os papéis femininos eram interpretados pelo ator Eduardo Franco, o “Edy”. A única mulher registrada no grupo, Isabel Costa, atuou na década de 1930.

O periódico Bahia Ilustrada, que menciona o Grêmio Rio Branco em sua publicação

Entre as peças mapeadas estão os dramas Esposa e Mãe (1932), de J. Vieira; Helena (1934); As provas dos crimes (1936); Gilberto, O Marinheiro, de Antônio Jacinto da Silva Guimarães Júnior; e a comédia Nhô Manduca (1932). O grupo recebia em geral críticas elogiosas na imprensa, como na coluna “Chronica Theatral” do Folha do Norte, assinada pelo crítico “Martinho”. A hipótese sobre a origem do nome, homenagem ao ator português Taborda, que estivera na Bahia no fim do século XIX, é apresentada pela autora como especulação, sem confirmação documental.

Grêmio Dramático Salles Barbosa

O Salles Barbosa foi um grupo dramático amador que, segundo a dissertação, surgiu após a introdução do cinematógrafo no Cine-Teatro Santana e teve sua fase de maior atuação na década de 1930. O memorialista Alberto Boaventura registra que o grupo rivalizava com o Taborda. Sua formação incluiu Elziário Santana, Osvaldo Santos, Antônio Ribeiro Mascarenhas, Florisberto Moreira da Silva, Rute Fernandes, Olga Soledade e Euclides Mascarenhas. Elziário Santana foi um dos arrendatários do Cine-Teatro Santana no fim da década de 1930 e irmão de Hermógenes Santana, dono da Casa das Louças.

As apresentações ocorriam no Cine-Teatro Santana, divulgadas pelo Folha da Feira, e o grupo também se apresentou em cidades vizinhas como Cachoeira e São Gonçalo dos Campos. Entre as peças identificadas estão os dramas A Vindicta (1932), de Constantino Nascimento; A Filha do Marinheiro (1932), de J. Vieira Pinto; Um erro judiciário (1932), de Baptista Diniz; Cego de Amor (1933), de Carlos Cavaco; Arthur, O Jogador (1933), de L. Cordeiro Godinho; Gotas de Amargura (1934), de José Romano; e Dragão dos Mares (1938); além das comédias A Costureira (1932), A espada do General (1932) e Os dois surdos (1933). A dissertação registra que a crítica, embora positiva, tratava o grupo como “esforçado”, em distinção ao prestígio consolidado do Taborda. As apresentações frequentemente revertiam em benefício de instituições da cidade, como a Filarmônica Euterpe Feirense, a Filarmônica 25 de Março e a Festa de Santana.

Clube Coreográfico 2 de Julho

A documentação sobre o Clube Coreográfico 2 de Julho é, segundo a autora, esparsa. Sua sede ficava na Rua Conselheiro Franco, e suas atividades assemelhavam-se às do Grêmio Rio Branco: palestras, recitais de poesia, espetáculos teatrais e apresentações musicais, realizados na própria sede ou no Cine-Teatro Santana. Uma nota do Folha do Norte de 21 de outubro de 1922 descreve uma “festa de arte” do clube no Teatro Santana, com execução ao piano da senhorinha Georgina Lima, conferência do Dr. Gastão Clóvis de Souza Guimarães e leitura do Dr. Eduardo Dias.

Grupos pioneiros: Grêmio Dramático Familiar, União Caixeiral e Arthur Azevedo

A partir do levantamento de Maria Izabel da Silva Sampaio, a dissertação registra grupos dramáticos amadores anteriores que atuaram no palco do Cine-Teatro Santana: o Grêmio Dramático Familiar (1892 a 1900), a União Caixeiral (1900) e o grupo Arthur Azevedo (1912). Segundo a autora, o Grêmio Dramático Familiar e a União Caixeiral deixaram de atuar quando o teatro passou a funcionar também como cinema, processo que fez declinar o trabalho dos amadores locais diante da concorrência das exibições de filmes.

As referências da dissertação

A reconstituição dessas agremiações apoia-se, na dissertação de Aline Aguiar, em três tipos de fontes. As fontes primárias são sobretudo os jornais locais Folha do Norte e Folha da Feira, além de atas da Sociedade Filarmônica 25 de Março, conservadas no CEDOC/UEFS. A literatura memorialística reúne Alberto Alves Boaventura (Estórias e Fatos – Troar de Ilusões, 1980; Cronifatos, 1983), Eurico Alves Boaventura (A paisagem e o homem: memórias de Feira de Santana, UEFS Editora, 2006) e Antônio de Lajedinho (A Feira na década de 30, 2004). A bibliografia acadêmica inclui a monografia de especialização de Maria Izabel da Silva Sampaio, Dimensão Social do Teatro em Feira de Santana (1892–1912) (UEFS, 2000), principal referência sobre os grupos dramáticos; o Dicionário Personativo, Histórico e Geográfico da Feira de Santana, de Oscar Damião de Almeida (1998); os estudos de Henrique Sena dos Santos sobre o futebol; a obra de Aninha Franco, O Teatro na Bahia através da imprensa; e o estudo do brasilianista Rollie E. Poppino sobre Feira de Santana. A dissertação foi orientada pelo professor Dr. Rinaldo Cesar Nascimento Leite.

Clique para ter acesso à dissertação da pesquisadora Aline Aguiar.

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