Antes de ser um dos bairros mais populosos, movimentados e comerciais de Feira de Santana, o Tomba era quase outra cidade. Havia estradas de terra, sítios, chácaras, vegetação alta, poucas casas e uma iluminação que, para dizer o mínimo, não ajudava quem precisava atravessar a região depois que o sol se punha.
Foi nesse cenário, entre a cidade que crescia e o mato que ainda dominava a paisagem, que começou a circular a notícia: um bicho misterioso estava aparecendo no Tomba.
Não era cachorro. Ou talvez fosse. Não era onça. Mas também poderia ser.
Tinha gente que dizia que ele era enorme, coberto de pelos e com os olhos brilhando no escuro. Outros não conseguiam descrever coisa alguma. Tinham visto apenas uma sombra, ouvido um barulho ou percebido alguma coisa correndo no mato.
A única certeza era o terror que já havia se espalhado Feira adentro.
Nascia, assim, uma das mais conhecidas lendas rurais, que logo se tornaria também urbanas de Feira de Santana: o Bicho do Tomba.
Segundo as histórias transmitidas entre gerações, a criatura aparecia principalmente à noite e perseguia moradores que atravessavam os caminhos mais isolados. Também eram atribuídos ao bicho ataques contra animais criados nas propriedades da região. Algo como o “chupa-cabra” daquele tempo.
O Bicho do Tomba podia ter quatro patas ou andar quase como uma pessoa. Podia lembrar um cachorro enorme, um felino, um monstro peludo ou apenas uma coisa indefinida que passava rapidamente pela escuridão.
Cada relato acrescentava um detalhe. O bicho aumentava de tamanho, ganhava novos hábitos e ficava mais perigoso cada vez que a história mudava de boca.
Em Feira, e em qualquer lugar, como se sabe, uma notícia bem contada anda depressa. Uma assombração, então, chega primeiro.
O escritor Cristovam Aguiar registrou lembranças do período em que a história circulava pela cidade. Naquele tempo, o Tomba era uma região distante do centro, cercada por pequenas propriedades rurais e trechos pouco ocupados. Os relatos falavam de perseguições, ataques e de uma criatura que nunca era encontrada quando alguém resolvia procurá-la.
O bicho era valente na conversa, mas discreto diante das testemunhas.
O cenário perfeito para uma assombração
Quem conhece apenas o Tomba de hoje talvez tenha dificuldade de imaginar a paisagem que ajudou a criar a lenda.
Onde atualmente existem avenidas, lojas, supermercados, casas, a famosa caixa d’água e um intenso movimento de pessoas e veículos, havia vegetação fechada, caminhos escuros e grandes áreas desocupadas.
À noite, qualquer ruído ganhava outra proporção. Um cachorro remexendo o mato, um animal silvestre atravessando a estrada, galhos balançando com o vento ou olhos refletindo a luz podiam se transformar em sinal de perigo.
Bastava alguém correr assustado para a história ganhar confirmação.
E, se a pessoa voltasse para casa sem conseguir explicar o que viu, melhor ainda. Mistério explicado perde a graça. O Bicho do Tomba precisava justamente continuar sem forma.
A criatura também ajudava a manter crianças dentro de casa e adultos longe dos caminhos considerados perigosos. Era uma ameaça imaginária, mas os riscos das estradas desertas, da pouca iluminação e do isolamento eram bem reais.
Nem toda assombração precisa existir para cumprir sua função.
Da conversa no bairro para a feira livre
A fama do Bicho do Tomba não ficou restrita à região onde ele supostamente aparecia. A criatura chegou à antiga feira livre, o grande centro de circulação de mercadorias, notícias, histórias e exageros de Feira de Santana.
Ali, os acontecimentos da cidade viravam conversa, verso, rima e literatura de cordel. Crimes, milagres, traições, fenômenos da natureza e criaturas misteriosas eram anunciados pelos vendedores em meio ao movimento da feira.
Cristovam Aguiar recorda ter visto um homem oferecendo um folheto sobre “o bicho que estava aparecendo no Tomba”. Como ninguém sabia ao certo qual era sua aparência, a imagem da capa havia sido criada pela imaginação do autor.
O cordel deu ao Bicho do Tomba aquilo que a realidade nunca conseguiu oferecer: um rosto.
A criatura também foi mencionada pelo cordelista Antônio Alves da Silva em “Um Lobisomem Ataca em Feira de Santana”.
“Tudo que acontece sai
No jornal de Zé Coió
Teve até Bicho do Tomba
Que sangrava no ‘gogó’
Escrito por seu “Tilofe”
Poeta que come bofe
Lá no Beco do Mocó”
O Bicho do Tomba saiu do mato, atravessou o bairro e conquistou a cidade. Virou notícia popular, personagem de cordel e assunto para quem gostava de assustar os outros ou garantir que não tinha medo de nada.
Geralmente, quem dizia não ter medo evitava passar pelo Tomba à noite.
O bicho foi parar na Rodoviária
A lenda ganhou um registro definitivo em um dos mais importantes patrimônios artísticos de Feira de Santana.
O Bicho do Tomba aparece nos painéis produzidos pelo artista Lênio Braga, com a colaboração do ceramista Udo Knoff, para a Rodoviária da cidade, na década de 1960.
A obra reúne personagens, costumes, trabalhadores, animais, cenas da antiga feira livre e histórias que faziam parte da vida e da imaginação dos feirenses. A presença da criatura no painel mostra que, já naquele período, ela havia deixado de ser apenas um boato de bairro.
O Bicho do Tomba já era patrimônio da conversa feirense.
Registrado nas artes visuais, o personagem passou a ocupar o mesmo espaço simbólico de vaqueiros, comerciantes, cordelistas e tipos populares que ajudaram a construir a identidade da cidade.
A obra confirma também que a lenda é mais antiga do que algumas versões recentes sugerem. Na década de 1960, o misterioso animal já era conhecido o suficiente para ser retratado em um painel sobre a cultura popular de Feira de Santana.
O Bicho do Tomba não fala apenas sobre medo. Ele também conta a história do crescimento de Feira de Santana.
A lenda nasceu em uma região que marcava a fronteira entre o campo e a cidade.
Com o tempo, o bairro cresceu. O mato foi substituído por casas, ruas, avenidas e estabelecimentos comerciais. A região se tornou uma das mais importantes e movimentadas da cidade.
O cenário da lenda desapareceu quase completamente. A lenda, não.
Não existe uma versão definitiva sobre o Bicho do Tomba. E esse, eu acredito, que seja o segredo de sua longevidade.
Cada morador antigo conta de um jeito. Cada família acrescenta uma lembrança. Alguns riem, outros garantem que a história era séria. Há quem diga que tudo não passava de invenção. Há também quem descreva o encontro com tanta convicção que até o mais desconfiado evoca Shakespeare e a velha máxima de que “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.”
O Bicho do Tomba atravessou décadas sem deixar pegadas comprovadas, sem revelar sua espécie e sem permitir que a cidade chegasse a uma conclusão.
Talvez tenha sido um animal desconhecido. Talvez tenha sido uma sucessão de sustos, sombras e histórias aumentadas pela imaginação popular ou sequer houve qualquer cosia que pudesse justificar o boato.
O que se pode afirmar é que ele existe! Como parte da identidade de Feira de Santana.
O bicho pode ter perdido o território, mas não perdeu a fama.

