Antes das avenidas, dos prédios e do intenso movimento que fez de Feira de Santana um dos maiores centros comerciais do Nordeste, havia uma pequena capela. E antes mesmo da capela, havia uma devoção.

No dia 26 de julho, a Igreja Católica celebra Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo. Embora sua história seja conhecida principalmente pela tradição cristã, e não pelos Evangelhos canônicos, sua importância atravessou séculos e chegou ao sertão baiano de forma tão marcante que acabou dando nome a uma cidade inteira.

Pouca gente percebe, mas Feira de Santana não recebeu esse nome por acaso. A cidade nasceu como Sant’Ana dos Olhos d’Água, expressão que unia a devoção religiosa às inúmeras nascentes existentes na região.

Foi ali que começou uma das histórias mais importantes do município.

Em 1732, o casal português Domingos Barbosa de Araújo e Ana Brandão doou uma área conhecida como Alto da Boa Vista para a construção de uma capela dedicada aos seus santos de devoção: São Domingos e Senhora Sant’Ana. A partir daquele pequeno templo, erguido às margens da estrada por onde passavam as boiadas que ligavam o sertão ao Recôncavo Baiano, surgiu um ponto de encontro para viajantes, comerciantes e criadores de gado. 

A fé e o comércio caminharam lado a lado.

Enquanto os tropeiros descansavam os animais e negociavam mercadorias, também participavam das celebrações religiosas. Pouco a pouco, a tradicional feira de gado passou a ser conhecida como “Feira de Sant’Ana”. O nome permaneceu e acabou identificando todo o povoado que crescia ao redor da capela. 

Sant’Ana ocupa um lugar singular na tradição cristã.

Ela é venerada como mãe de Maria e avó de Jesus, tornando-se símbolo da educação, da transmissão da fé entre gerações e da proteção das famílias.

Por isso, tornou-se também padroeira das mães, das avós, das mulheres grávidas e dos educadores em diversas partes do mundo.

Curiosamente, essa ideia de acolhimento dialoga com a própria origem de Feira de Santana.

Antes de ser cidade, aquele lugar era conhecido justamente por receber quem passava pelas antigas estradas do sertão. O pouso dos tropeiros acabou se transformando em ponto permanente de comércio, convivência e desenvolvimento.

A Catedral guarda a certidão de nascimento da cidade

Em 1833, quando o povoado foi elevado à categoria de vila, a primeira sessão da Câmara Municipal e a eleição dos primeiros vereadores aconteceram dentro da igreja. Antes mesmo de existir uma sede para os poderes públicos, era ali que a vida da cidade acontecia. 

Mais tarde, a antiga matriz passou por sucessivas ampliações. Em 1962, com a criação da Diocese de Feira de Santana, tornou-se Catedral. Em 2002, quando foi criada a Arquidiocese, recebeu o título de Catedral Metropolitana de Sant’Ana. 

Existe uma curiosidade que ajuda a entender a importância de Sant’Ana para Feira de Santana.

Em muitas cidades brasileiras, a igreja foi construída depois que o povoado já existia.

Em Feira aconteceu praticamente o contrário.

A doação do terreno para a capela ocorreu antes da formação do núcleo urbano. O templo tornou-se referência para viajantes, organizou o espaço onde aconteciam as feiras e acabou atraindo moradores permanentes. Em outras palavras, a devoção à santa ajudou a definir onde a cidade nasceria. 

Mais que um feriado

Todos os anos, o dia 26 de julho reúne milhares de fiéis na Catedral Metropolitana para novenas, missas e procissões.

Mas a data vai além do calendário religioso.

Ela lembra que uma cidade conhecida por sua vocação comercial, pela força do empreendedorismo e pela capacidade de acolher gente de todas as regiões teve sua origem em um gesto de fé realizado há quase três séculos.

Feira de Santana cresceu, tornou-se metrópole regional e mudou inúmeras vezes de paisagem.

O que permaneceu foi aquilo que começou antes mesmo da cidade existir: a devoção à Senhora Sant’Ana.

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