Francisco João Santos da Paixão, o Cabeleira, tinha 43 anos e 31 furtos de imagens sacras confessados quando decidiu se entregar. Baiano, era considerado pela polícia um dos maiores ladrões de arte sacra do país. Seu depoimento foi publicado pela revista Manchete em julho de 1983, em uma matéria assinada por Hermann Nass (edição1628).
Convertido ao protestantismo, passou a colaborar com as autoridades na localização das peças que havia roubado de igrejas do Nordeste e do Rio de Janeiro. Vinte e uma imagens já haviam sido recuperadas, avaliadas em cem milhões de cruzeiros, o equivalente a 2.875 salários mínimos da época, ou cerca de R$ 4,7 milhões em valores de 2026. Doze foram encontradas em São Paulo, nove no Rio. Faltavam dez.
De Feira de Santana para o país
A trajetória criminal começou cedo. Segundo seu relato, o primeiro furto foi aos 12 anos; depois veio uma joalheria, assaltada com um grupo de meninos. Todos foram presos, e ele passou anos no Juizado de Menores. Aos 17, migrou para o arrombamento de armazéns. Um assalto à mão armada lhe rendeu seis anos, a vítima era um fazendeiro influente.
Solto novamente, ganhou fama de ladrão em Feira de Santana. Pela contagem da própria reportagem, foram entre 100 e 200 entradas na delegacia da cidade, até acabar preso a pão e água em uma cela isolada.
O pacto e a fuga
Foi nesse ponto, diz ele, que vendeu a alma ao diabo, prometendo em troca da liberdade “três gotas de sangue toda sexta-feira”. A execução do plano, porém, foi bem terrena: pediu dinheiro às visitas, encomendou uma serra a um processado e recebeu a ferramenta escondida dentro de um pacote de macarrão, entregue ao próprio sentinela. Nos dias seguintes serrou as grades e disfarçou os cortes com sabão, enquanto os outros presos faziam batucada para abafar o barulho do metal. Escapou pelo telhado.
A liberdade durou pouco. Recapturado em Capim Grosso, onde tinha uma noiva que ignorava seu passado, entregou-se após negociar garantias com um tenente e voltou preso para Feira de Santana.
A primeira conversão
Depois de nova fuga e de uma temporada roubando em Minas Gerais, Cabeleira voltou a Feira de Santana decidido a mudar de vida. Procurou o Instituto Bíblico Batista, conversou com o pastor responsável e contou toda a sua história de ladrão. Foi aceito e passou a morar na própria instituição. Antes, porém, apresentou-se à delegacia, diante dos mesmos policiais que o haviam perseguido, e foi liberado.
Seguiram-se dez anos dando testemunho em igrejas do interior. Ele mesmo creditou à sua história a conversão de outras pessoas. O ciclo se rompeu por um episódio pessoal: um casamento frustrado o levou a abandonar a religião e, sem dinheiro, a roubar dos próprios fiéis.
O ramo das imagens
Em São Paulo, desempregado, aceitou dirigir uma kombi que transportava antiguidades. Só depois percebeu que carregava santos roubados para um receptador. Um comparsa o convidou para furtar imagens no interior fluminense; ele topou, foi enganado na divisão do dinheiro e acabou preso. Solto em quatro meses, passou a agir sozinho.
De volta à Bahia, invadiu a Igreja Nossa Senhora dos Humildes, distrito de Feira de Santana. Na matéria da revista Manchete ele descreve o interior como “tudo de ouro e prata” e admite ter pedido a Deus que o perdoasse enquanto roubava. Surpreendido por uma mulher que abriu a porta, saiu com uma única coroa de ouro. A população cercou a igreja e ele quase foi linchado; a polícia o retirou dali e o prendeu em flagrante.
Um novo parceiro, Jorge Mendes de Almeida, o acompanhou no roubo de doze peças na Bahia, revendidas em São Paulo. Os dois foram presos.
O arrependimento
O relato da prisão é o ponto de virada da narrativa. Cabeleira afirma ter sofrido choques e pau de arara sem entregar os companheiros. Foi ali, diz, que o arrependimento chegou: ajoelhou-se e pediu perdão a Deus, jurando nunca mais roubar caso fosse solto.
Solto, passou a colaborar com a polícia. De Feira de Santana foi conduzido a Salvador e entregue ao delegado Valdir Gomes Barbosa, de quem diz ter recebido bom tratamento antes de detalhar os roubos às igrejas.
Restava-lhe uma promessa e um pedido. A promessa: recuperar o que chamou de “um caminhão de imagens” roubadas. O pedido, dirigido aos padres das igrejas que assaltou: “Se Deus me perdoou, eles também podem me perdoar.” E encerrou o depoimento afirmando não saber o que viria pela frente, mas que sua consciência estava limpa.

