A Feira amanheceu chuvosa no primeiro dia útil de campanha eleitoral, como um lamento pela quantidade de palavras que agora serão usadas desnecessariamente para inflamar votos. A campanha eleitoral é uma espécie de avesso da arte, que preza o cuidado na aplicação de cores, nomes e formas. Já os candidatos dedicam-se ao barulho, à verborragia, posando um entusiasmo que deve ser insuportável para eles mesmos. Quem aguenta tantos dias seguidos pulando, gargalhando, se apresentando, ouvindo pedidos e afagos puxa-sacos?

Nos pôsteres já colados pela cidade aparecem invariavelmente sorrindo, ocupando paredes, tapumes, postes, pilastras. A madrugada dessa época deve ser intensa para as equipes que têm a missão de fazer a poluição visual da cidade, disputando cada pedaço de muro nas ruas.

Entre os personagens interessantes das eleições está o candidato que sabe que não será eleito. Pode ser que assuma a tarefa de conseguir alguns votos que ajudem nas metas do partido ou se faça candidato para ficar mais conhecido e angariar bônus para outros pleitos. Ou está ali para testar, ver o que acontece, fazer da política um brinquedo de momento. Bora ver o que dá, se ganhar ganhou, se perder perdeu.

Meu deputado!, ouve o candidato inviável enquanto passa pelas barracas da feira. No bar de seu Beto os amigos de copo disputam quem será o chefe de gabinete. A polarização é grande, mobilizando apostas comovidas entre os que acreditam em mais de 50 votos e os que desdenham dizendo que nem a mãe vai ajudar. Mas o candidato caminha, visita os velhos amigos, entrega dois santinhos no baba, três na festa da igreja. Eu corro por fora, campanha sem dinheiro é assim, vamos ver o que vai dar. Conheço muita gente, mas sabe como é.

Quando o dia de campanha descomprometida acaba, ele deita na cama, fecha os olhos e se imagina discursando na tribuna, criticando ferinamente os buracos nas ruas da cidade, o preço da comida no mercado, a falta de vaga nos hospitais. Um assessor informa a ele de manhã cedo a agenda do dia. Um motorista o conduz para eventos e reuniões parlamentares.

Ele sabe que não será eleito, mas faz uma cócega boa imaginar que sim.

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