Um dos principais nomes da cultura popular baiana participou nesta quarta-feira (26) da programação da 19ª FLIFS. Com quase seis décadas de trajetória entre o repente, o cordel, o samba e a música, Bule Bule falou sobre sua relação afetiva com Feira de Santana e levou ao festival uma obra que aproxima a poesia popular das narrativas dos orixás.

A voz, a memória e a capacidade de transformar uma conversa em verso fizeram de Mestre Bule Bule uma das presenças marcantes do segundo dia do 19º Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (FLIFS), nesta quarta-feira (26), no Centro de Convenções. O repentista, cordelista, compositor, sambador e poeta participou da programação da Praça do Cordel Dadinho e Caboquinho, onde apresentou “Poesia Cantada” às 15h.

Antônio Ribeiro da Conceição, o Bule Bule, nasceu em Antônio Cardoso e construiu uma trajetória de quase seis décadas dedicada às expressões da cultura popular. Reconhecido pelo Governo da Bahia como um dos principais nomes do repente no estado, acumula mais de cem títulos publicados, oito discos e dois DVDs, além de uma história que atravessa diferentes gerações de artistas e admiradores da poesia oral nordestina.

A presença em Feira de Santana, no entanto, carrega um significado particular para o mestre. Sua relação com o evento antecede o próprio FLIFS e remonta ao período em que a programação ainda era realizada como Feira do Livro. Ao falar ao Feirenses sobre mais um retorno à cidade, Bule Bule rapidamente fez aquilo que melhor sabe: transformou sentimento em poesia.

“Meu peito está com um baticum danado. O doutor disse que isto é meu coração. Acho que não, ele está me enganando. Eu estou pensando que isto é saudade ou paixão.”

A resposta veio logo depois: “É saudade e paixão por Feira de Santana e pela cultura popular”.

Antes dos versos, Bule Bule havia explicado que voltar à cidade durante o festival lhe provocava uma satisfação ainda maior por encontrar, dentro de uma mesma programação, duas linguagens que atravessam sua própria trajetória: a literatura e o improviso.

Para ele, a presença do Festival de Violeiros dentro da FLIFS estabelece justamente essa ponte. De um lado está aquilo que é escrito. Do outro, a palavra criada diante do público, no instante em que é pronunciada.

A 48ª edição do Festival de Violeiros de Feira de Santana integra a programação da FLIFS e acontece nesta quinta-feira (27), às 20h, no Teatro Carlos Pitta, reunindo duplas da Bahia, Pernambuco e Maranhão.

É nesse trânsito entre a palavra guardada no papel e a palavra inventada na hora que Bule Bule construiu boa parte de sua história.

Um mestre da palavra popular

Bule Bule começou a cantar ainda criança e fez da cultura sertaneja matéria-prima de uma carreira que atravessou o repente, a cantoria, a literatura de cordel, o samba rural, a composição e a poesia. Natural de Antônio Cardoso, no território onde o Recôncavo encontra o sertão baiano, levou essas referências para diferentes partes do país. Ao longo da trajetória, dividiu palcos com nomes como Gilberto Gil, Beth Carvalho, Tom Zé, Capinam e Gabriel O Pensador.

O reconhecimento institucional acompanhou essa caminhada. Em 2008, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo Ministério da Cultura. Em 2017, tornou-se o primeiro artista a receber a Medalha do Mérito Cultural da Câmara Municipal de Salvador.

Mas reduzir seu legado às homenagens seria perder aquilo que sustenta sua obra.

Bule Bule pertence a uma tradição em que conhecimento, história, humor, crítica social e memória coletiva não dependem apenas do livro para sobreviver. Passam de boca em boca, do cantador para a plateia, da viola para a feira, do verso decorado para aquele criado no mesmo instante em que é cantado.

Sua presença no FLIFS expõe também essa dimensão da literatura brasileira: aquela que existiu muito antes de ocupar livrarias, universidades e grandes festivais.

Quando os orixás entraram no cordel

Essa mesma capacidade de colocar a cultura popular em diálogo com questões mais profundas aparece em “Orixás em Cordel”, obra que Bule Bule apresenta em nova edição revista e ampliada.

O livro reúne dois universos fundamentais para a formação cultural brasileira: a literatura de cordel e as narrativas dos orixás. A primeira edição foi lançada em abril de 2018, no Teatro Castro Alves, em Salvador, e deu origem também a um projeto de contação de histórias realizado em terreiros de Candomblé da Região Metropolitana de Salvador e do Recôncavo. 

A escolha não foi casual.

Bule Bule identificava uma ausência na própria tradição à qual dedicou a vida. Embora a religiosidade afro-brasileira aparecesse em antigos cordéis, muitas dessas representações estavam marcadas pela caricatura, pela ridicularização e pelo preconceito. Em Orixás em Cordel, o mestre decidiu percorrer outro caminho: contar essas histórias com respeito e reconhecer a centralidade da ancestralidade africana na formação cultural brasileira.

A obra tem gravuras de Klévisson Viana, prefácio do cantor e compositor Mateus Aleluia e participação editorial do pesquisador Marco Haurélio. Na edição original, o projeto aproximou ainda mais o livro dos espaços religiosos que inspiravam suas narrativas, com leituras, rodas de conversa e samba de roda realizados dentro de terreiros.

O alcance da publicação ultrapassou o circuito da literatura popular. Em 2020, Orixás em Cordel tornou-se objeto de uma pesquisa acadêmica da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). O estudo analisou justamente como Bule Bule reúne duas tradições historicamente marginalizadas, o cordel nordestino e as narrativas dos orixás, para confrontar estereótipos e valorizar o Candomblé como parte da identidade cultural brasileira. 

Em 2026, a obra chegou também a uma das principais portas de entrada para a universidade pública baiana. Um trecho de Orixás em Cordel, retirado da narrativa “Xangô se torna rei de Oió”, foi utilizado em uma questão do Vestibular UNEB 2026.

Há uma força simbólica nisso. A palavra de um homem formado na tradição oral de Antônio Cardoso, interior da Bahia, que começou sua trajetória entre cantorias, sambas e repentes, hoje também ocupa pesquisas universitárias e provas de vestibular sem deixar de pertencer à feira, à roda e ao improviso.

“Saudade e paixão”

Na FLIFS, Bule Bule retorna a esse lugar de origem da palavra popular: o encontro.

É onde o poeta escreve, mas também canta. Onde o livro permanece, mas o repente só existe naquele instante. La, literatura e oralidade deixam de disputar espaço para mostrar que fazem parte de uma mesma história.

Por isso, ao tentar explicar o que sentia voltando mais uma vez a Feira de Santana, o mestre não precisou de uma definição.

Fez um verso. E concluiu que o coração aparentemente descompassado tinha outro diagnóstico: saudade e paixão por Feira de Santana e pela cultura popular.

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