Em setembro de 1951, cinco jovens invadiram o Cemitério da Piedade, abriram sepulturas e retiraram crânios humanos. O episódio chocou Feira de Santana, mobilizou polícia, Justiça e Igreja e ganhou o noticiário nacional.
Na madrugada de um sábado de setembro de 1951, uma farra iniciada entre jovens de Feira de Santana tomou um rumo que entraria para a história policial da cidade. Depois de beberem bastante, cinco rapazes seguiram para o Cemitério da Piedade. Ali, violaram sepulturas, quebraram lápides, abriram caixões e retiraram crânios de pessoas enterradas no local.
A história poderia facilmente ter sobrevivido apenas como uma das tantas narrativas macabras transmitidas de geração em geração em Feira. Mas há registros na imprensa. Menos de um mês depois, o episódio ganhou repercussão nacional nas páginas de O Cruzeiro, uma das revistas de maior circulação do Brasil naquele período.
A reportagem, intitulada “Profanadores de Túmulos”, foi publicada em 13 de outubro de 1951, escrita pelo jornalista Odorico Tavares e fotografada por Gervásio Batista. O registro da matéria consta no catálogo oficial do acervo da revista mantido pela Fundação Joaquim Nabuco. A publicação ocupou as páginas 96 a 98 e 122 daquela edição.
A farra no cemitério
De acordo com o relato publicado por O Cruzeiro, era 15 de setembro de 1951 quando os cinco jovens se reuniram para a diversão do fim de semana.
As versões sobre o que os levou ao cemitério variavam já naquela época. Uma dizia que os rapazes se intitulavam “existencialistas” e associavam a expressão à ideia de fazer tudo o que desejassem, sem se preocupar com convenções. Outra sustentava que, já embriagados, resolveram fazer uma homenagem a um amigo morto e foram beber junto ao túmulo dele.
O que a reportagem apresentou como fato foi muito mais grave.
Os jovens entraram no Cemitério da Piedade sem serem percebidos. Cerca de 15 sepulturas foram violadas. Lápides foram quebradas, caixões abertos e ossadas ficaram expostas.
Garrafas e copos encontrados junto às sepulturas indicariam que parte da bebedeira ocorreu dentro do próprio cemitério. Na saída, os rapazes levaram cinco crânios humanos.
Quatro deles teriam sido posteriormente abandonados, embrulhados em um pano, em um jardim público.
O quinto seguiu com o grupo.
Da Piedade ao Cassino Irajá
Com o crânio, os jovens foram para o Cassino Irajá, uma conhecida casa noturna de Feira de Santana, de propriedade Oscar Marques, conhecido como Oscar Tabaréu.
O estabelecimento ficava na Praça dos Remédios e integrava a vida noturna da cidade naquele período. Pesquisas acadêmicas sobre a Feira das décadas de 1940 e 1950 citam o Irajá entre os cassinos frequentados nos espaços mais movimentados da região.
Foi ali que a história atingiu seu ponto mais macabro.
Segundo a reportagem de O Cruzeiro, reproduzida pelo Blog Demais a partir da publicação de 1951, o crânio foi lavado com vinho e aguardente e transformado em recipiente para a bebida. Os jovens teriam bebido utilizando a caveira como uma taça e os orifícios dos olhos teriam sido usados para apoiar cigarros.
A cena provocou reações entre as pessoas que estavam no local. O relato publicado na época registra tanto protestos quanto pessoas que teriam acompanhado a ação.
Naquela madrugada, porém, o que acontecia dentro do cassino ainda não dava a dimensão do escândalo que tomaria conta da cidade poucas horas depois.
A manhã seguinte
Ao amanhecer, quatro crânios foram encontrados no jardim público e a notícia começou a circular por Feira de Santana.
No Cemitério da Piedade, a dimensão da depredação ficou evidente.
A Santa Casa de Misericórdia, responsável pelo cemitério, levou o caso ao conhecimento da polícia. O então delegado, tenente Heitor de Sena Gomes, foi ao local e encontrou lápides partidas, pedras tumulares derrubadas e ossadas expostas.
O proprietário do estabelecimento para onde os jovens seguiram durante a madrugada teria procurado a polícia, devolvido o quinto crânio e indicado os responsáveis pela profanação. Quando começaram as buscas, entretanto, os suspeitos já haviam deixado a cidade. A indignação tomou Feira.
A dimensão alcançada pelo episódio pode ser compreendida pelo espaço que recebeu nos jornais e pela intervenção de diferentes instituições. Polícia, Justiça e Igreja Católica passaram a tratar do caso.
Prisão preventiva e reação da Igreja
Concluídas as primeiras diligências do inquérito, a polícia solicitou a prisão preventiva dos cinco jovens.
O pedido foi aceito pelo juiz Cândido Colombo de Cerqueira. Na decisão reproduzida pela reportagem de O Cruzeiro, o magistrado argumentava que a prisão também serviria para preservar a ordem pública diante da revolta provocada pelo episódio e do risco de represálias contra os acusados.
A Igreja Católica também reagiu.
Segundo a reportagem, a Cúria Arquidiocesana da Bahia comunicou ao vigário-geral de Feira de Santana a aplicação das punições previstas pelo Direito Canônico para a profanação de cadáveres e sepulturas.
A repercussão ajuda a dimensionar o impacto do acontecimento em uma Feira de Santana ainda fortemente marcada pela influência religiosa e por valores sociais bastante conservadores.
Quem estava nos túmulos violados
O registro publicado por O Cruzeiro também preservou os nomes de pessoas cujas sepulturas foram atingidas naquela noite.
Segundo a reportagem, cinco túmulos tiveram restos mortais retirados: Nolenita Gofinho, Aníbel Azevedo, João Jônatas Muniz Moscoso, Honorato José dos Santos e Pedro Carneiro.
Outros dez foram danificados, mas sem retirada de restos mortais: Ortência Santos, David Saback, Jesuíno da Silva Lima, Miguel Ribeiro de Oliveira, Bernardino Barreiro, Álvaro da Silva Lima, Ladislau Alves Cordeiro, Manuel Antas Parcero, Honorato Alves Caribé e Vicência de Lima e Silva.
A publicação desses nomes transforma aquilo que poderia ser contado apenas como uma história grotesca em algo mais concreto. Por trás das caveiras carregadas pelas ruas e dos túmulos quebrados estavam pessoas sepultadas ali e famílias que viram seus mortos terem o descanso violado.
Um crime que entrou para a memória de Feira
O episódio atravessou as décadas.
A própria Folha do Norte, jornal que acompanhou boa parte da história da cidade desde sua fundação, retomou o caso ao contar sua trajetória centenária. Em sua edição especial de 2019, lembrou que havia publicado extensas reportagens sobre os jovens de classe média que invadiram o Piedade e levaram caveiras para o Cassino Irajá.
A história chegou também à literatura. Ao recontar aspectos da trajetória cultural de Feira de Santana, a Câmara Municipal registra que o escritor e cineasta Olney São Paulo abordou, em um de seus contos, o episódio dos jovens que profanaram túmulos do Cemitério da Piedade e beberam vinho em crânios humanos.
Ainda hoje existem lacunas importantes sobre aquela noite. Os registros consultados até aqui não permitiram ao Feirenses confirmar, por exemplo, o desfecho judicial do processo contra os cinco acusados.
Também aparecem em relatos posteriores afirmações de que o caso teria sido noticiado pela BBC, em Londres. O Feirenses não encontrou até o momento um registro primário da emissora britânica que confirme essa informação e, por isso, não a trata como fato.
Setenta e cinco anos depois, a história ainda parece inacreditável até para os padrões de uma cidade que já produziu algumas boas lendas urbanas. Mas, dessa vez, não era assombração, exagero de boca em boca nem invenção de mesa de bar. A farra aconteceu, os túmulos foram abertos, as caveiras saíram do cemitério e uma delas ainda terminou a noite no cassino. Em matéria de exagerar na diversão, portanto, parece que a Feira de 1951 decidiu estabelecer um parâmetro que seria melhor ninguém tentar superar.

