O afastamento das moradias da região central e as dificuldades de deslocamento precisam ser considerados na discussão sobre a queda do movimento no comércio de Feira de Santana. Essa é a avaliação do engenheiro feirense Allan Pimenta, que publicou nas redes sociais uma análise sobre como a organização da cidade influencia a escolha dos consumidores entre comprar nas lojas físicas ou pela internet.

Engenheiro civil formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Allan é doutor e pesquisador vinculado à Monash University, na Austrália, e diretor da Mobiplan Consultoria. A universidade destaca sua atuação em pesquisas sobre as relações entre transporte, uso do solo e estacionamento.

Na análise, ele questiona explicações que atribuem o esvaziamento do centro exclusivamente ao avanço do comércio on-line, aos juros ou ao endividamento das famílias. Seu argumento é que fatores nacionais, isoladamente, não esclarecem o que acontece no comércio local.

Para o pesquisador, é necessário investigar as condições de acesso às lojas e compreender por que os consumidores estão escolhendo outras formas de comprar.

“É verdade que o comércio on-line vem crescendo muito, mas, antes de dizer que o centro está vazio por causa dele, precisamos entender por que as pessoas estão escolhendo comprar pela internet”, afirma.

Allan observa que as compras on-line oferecem conveniência e preços muitas vezes mais competitivos, mas também apresentam desvantagens, como a impossibilidade de experimentar determinados produtos e a espera pela entrega. Na sua avaliação, o tempo, o custo e a facilidade de chegar ao comércio físico pesam nessa decisão.

Moradias mais distantes, acesso mais difícil

O engenheiro relaciona o problema ao que descreve como um processo de expansão urbana desordenada em Feira de Santana, com aumento das distâncias entre residências, comércio e serviços.

Segundo os números apresentados por ele no vídeo, entre 2010 e 2022, a população do município cresceu aproximadamente 11%, enquanto o centro e os bairros do entorno perderam 41% dos moradores. Para Allan, essa mudança ajuda a compreender a redução da presença cotidiana de consumidores na região central.

+11%crescimento aproximado da população de Feira de Santana
−41%moradores no centro e nos bairros do entorno

Período de 2010 a 2022, segundo dados apresentados por Allan Pimenta.

Seu diagnóstico aponta que a combinação entre menos residências próximas ao centro e um transporte público precário aumenta a dependência de carros e motocicletas. Com mais pessoas se deslocando na mesma direção nos horários de pico, o trânsito fica congestionado e o acesso às lojas exige mais tempo e dinheiro.

O pesquisador destaca ainda a configuração predominantemente radial da estrutura viária de Feira, com as principais avenidas conectadas ao centro. Por isso, considera a área estratégica para os deslocamentos entre diferentes regiões do município.

“Em uma cidade radial, o centro é como o coração. Se ele para de bombear, todo o corpo sofre”

Allan Pimenta, engenheiro e pesquisador

Comércio e habitação no mesmo espaço

Entre as propostas apresentadas, Allan defende incentivar a construção de moradias na região central e melhorar o transporte público. Ele ressalta que essas medidas podem ocorrer junto à ampliação da oferta de comércio e serviços nos bairros periféricos.

Uma das alternativas seria estimular edifícios de uso misto, com lojas no térreo e residências nos andares superiores. A proposta, explica, permitiria aproximar moradores dos estabelecimentos e manter a região movimentada também fora do horário comercial.

Ao responder ao argumento de que faltam terrenos disponíveis, o engenheiro questiona a substituição de prédios por estacionamentos e defende que a transformação desses espaços também seja pensada para ampliar a presença de moradores.

Na análise, ele cita instrumentos do Estatuto da Cidade, como a outorga onerosa e as operações urbanas, como possibilidades a serem consideradas no planejamento e no financiamento de melhorias no transporte público e na infraestrutura cicloviária.

“Mobilidade urbana não pode se resumir a asfalto nem a achismo, mas ser pensada de forma séria, com base na ciência e considerando toda a complexidade da cidade”, conclui.

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