Mudanças aprovadas pela Câmara atingiram o Jardim Sucupira; pesquisas relacionam substituições à intolerância religiosa e ao apagamento da memória afro-brasileira


Ruas que homenageavam orixás no Jardim Sucupira, em Feira de Santana, tiveram seus nomes substituídos por referências cristãs e nomes de pessoas por meio de leis municipais. Entre os casos estão a Rua Oxumaré, que passou a se chamar Rosa de Sarom, e a Rua Xangô, transformada em São Lucas. As alterações ocorreram em diferentes mandatos e provocaram questionamentos sobre a preservação da memória afro-brasileira na cidade.

O assunto foi lembrado por uma leitora em um comentário na publicação do Feirenses sobre o boato eleitoral de que o município passaria a se chamar “Feira de Jesus”, em 1996. No caso das ruas, porém, as mudanças efetivamente aconteceram e foram objeto de reportagens e pesquisas acadêmicas.

Em artigo publicado no Blog da Feira, o jornalista André Pomponet registra que a Lei 1.726/1993 alterou o nome da Rua Oxumaré para Rosa de Sarom. A substituição de Xangô por São Lucas ocorreu por meio da Lei 2.010/1998. O levantamento também aponta mudanças anteriores: em 1992, Omolu tornou-se Monte das Oliveiras e Ogum de Ronda passou a se chamar Carlos Fadigas.

Rua Rosa de Sarom, antiga Rua Oxumaré, no Jardim Sucupira. Imagem: Google Street View

Um bairro formado por histórias negras

Antes de perguntar por que esses nomes foram retirados, é preciso perguntar por que os orixás foram escolhidos para nomear aquelas ruas. A resposta está ligada à formação social e cultural dos bairros da região, especialmente das áreas de Baraúnas e do Jardim Sucupira, marcadas pela presença de famílias negras, por tradições de matriz africana e por formas comunitárias de ocupação e organização do território.

Nomear ruas com referências a Oxumaré, Xangô, Omolu e Ogum não era apenas uma escolha religiosa. Era também uma forma de reconhecer a cultura das pessoas que viviam naquele lugar e ajudaram a construí-lo. Os nomes registravam, no espaço público, uma memória que muitas vezes foi silenciada em documentos oficiais, nos relatos sobre a cidade e nas políticas de urbanização.

Por isso, a substituição desses nomes não pode ser tratada apenas como uma mudança administrativa ou como uma decisão sobre placas e endereços. Quando uma referência afro-brasileira é retirada e substituída por um nome cristão, é necessário questionar quais valores são considerados legítimos para representar um bairro e quais memórias são vistas como inadequadas ou indesejáveis.

A religião na escolha dos nomes

Localizado próximo ao bairro Baraúnas, o Jardim Sucupira foi estudado pelas pesquisadoras Natália Oliveira Nascimento e Rita de Cássia Ribeiro de Queiroz. Em artigo publicado na Revista de Estudos de Cultura, em 2018, elas investigaram a influência religiosa nas mudanças de Oxumaré e Xangô para referências cristãs.

Segundo o estudo, um morador organizou um abaixo-assinado com aproximadamente 70 assinaturas para mudar o nome da Rua Oxumaré. Ouvido pelas pesquisadoras, ele negou que a iniciativa fosse motivada por intolerância e afirmou que pretendia homenagear sua religião cristã. As autoras também relatam ter consultado a justificativa de um projeto de lei que invocava a fé religiosa para substituir um nome de origem africana por outro bíblico.

A justificativa individual, no entanto, não elimina o efeito coletivo da mudança. Em uma cidade cuja população negra teve papel central na formação dos bairros, das relações de trabalho e da vida cultural, a Câmara Municipal deveria considerar o significado histórico dos nomes antes de autorizar sua retirada. A pergunta que permanece é: como o Legislativo aceita apagar referências ligadas à história de quem formou aquele lugar?

Na interpretação das pesquisadoras, as substituições expressam intolerância religiosa e uma tentativa de neutralizar referências afro-brasileiras no espaço público. Em outro artigo, intitulado “São todos nomes de demônios!”, elas registram que um grupo de moradores associava os nomes ligados às religiões de matriz africana a expressões como “nomes de demônio” e “pesados”. As autoras relacionam essa estigmatização à rejeição dos nomes originais.

Esse processo revela uma hierarquia religiosa e racial na construção da memória urbana. Nomes cristãos aparecem como aceitáveis, familiares ou respeitáveis, enquanto nomes de orixás são tratados como ameaçadores, estranhos ou demoníacos. A troca das placas, nesse contexto, reforça o apagamento de uma presença negra que já estava inscrita no território.

Questionamento chegou ao Ministério Público

A discussão já havia ganhado repercussão em 2008. Uma reportagem publicada pelo Correio em 8 de outubro daquele ano informou que a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia havia identificado oito projetos de lei aprovados para alterar nomes de ruas. O presidente da entidade, Leonel Monteiro, denunciou as mudanças como intolerância religiosa e levou o caso ao Ministério Público Estadual.

Na ocasião, o promotor Cristiano Chaves informou ao jornal que não buscaria judicialmente a restauração dos nomes antigos, considerando os impactos de novas alterações para os moradores. Segundo a reportagem, o Ministério Público recomendou aos poderes Executivo e Legislativo que não aprovassem novos projetos para modificar nomes de ruas relacionados à cultura ou à religiosidade africana.

A recomendação também levanta uma questão sobre o papel da Câmara. O Legislativo não deveria apenas registrar demandas de grupos organizados ou reproduzir a maioria religiosa de determinado momento. Ao decidir os nomes das ruas, os vereadores participam da construção da memória oficial da cidade. Por isso, precisam avaliar se uma mudança corrige uma necessidade pública ou se apenas substitui uma história negra por uma referência considerada mais aceitável por setores cristãos.

Os registros mostram que a disputa ultrapassou a identificação dos endereços. Envolveu o reconhecimento das referências religiosas e culturais que compõem a história de Feira de Santana e a responsabilidade do poder público diante do racismo religioso. As placas que homenageavam os orixás não eram um detalhe: eram marcas da presença negra no território. Retirá-las sem enfrentar esse significado contribui para apagar a história de quem formou aqueles bairros.

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