A TIC Bahia e a MobiPlan Consultoria iniciaram uma pesquisa para conhecer os hábitos de deslocamento dos moradores das cidades que poderão ser atendidas pela futura ferrovia entre Feira de Santana e Salvador. O levantamento é voltado a pessoas com 18 anos ou mais residentes nos municípios situados ao longo do traçado estudado e pretende aprofundar os dados sobre a possível demanda pelo novo sistema de transporte.

O projeto, considerado uma das mais ousadas propostas recentes de mobilidade e logística da Bahia, prevê uma ferrovia de aproximadamente 98 quilômetros para o transporte de passageiros e cargas. O trajeto começaria em Águas Claras, em Salvador, e seguiria por municípios da Região Metropolitana e do Recôncavo até chegar a Feira de Santana.

A proposta foi apresentada pela TIC Bahia ao Ministério dos Transportes em junho de 2025 e, no mês seguinte, detalhada durante reunião com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia. A estimativa divulgada naquele período era de um investimento de R$ 6,8 bilhões.

O projeto prevê trens de passageiros com velocidade de até 160 quilômetros por hora e a redução da viagem expressa entre Salvador e Feira de Santana para cerca de 35 minutos. Atualmente, o deslocamento rodoviário entre as duas cidades deveria ser de cerca de uma hora, mas, com as atuais condições da BR-324, dificilmente a viagem dura menos de três horas.

De acordo com os estudos apresentados pela TIC Bahia, o sistema poderia receber cerca de 23 milhões de embarques por ano, além de transportar cargas em composições com velocidade de até 120 quilômetros por hora. As projeções, no entanto, são da própria empresa e dependem da conclusão dos estudos técnicos, da autorização dos órgãos competentes, da captação dos investimentos e da implantação efetiva da ferrovia.

Pesquisa de origem e destino

A nova pesquisa busca identificar de onde as pessoas saem, para onde se deslocam, quais meios de transporte utilizam, quanto tempo gastam nas viagens e em quais condições considerariam utilizar o trem.

Esse tipo de levantamento, conhecido como pesquisa de origem e destino, é utilizado no planejamento de sistemas de mobilidade para estimar a demanda, identificar os principais fluxos de passageiros e avaliar a viabilidade operacional de novas linhas.

Podem participar moradores de Feira de Santana, Salvador, Conceição do Jacuípe, Amélia Rodrigues, São Sebastião do Passé, Candeias, Santo Amaro e Simões Filho. O questionário é respondido pela internet, leva aproximadamente 15 minutos e integra uma etapa de aprofundamento dos estudos já reunidos pela TIC Bahia.

Ao final, os participantes podem concorrer a um dos quatro vale-presentes no valor de R$ 200.

A pesquisa é realizada em parceria com a MobiPlan Consultoria, dirigida pelo engenheiro e pesquisador feirense Allan Ribeiro Pimenta, PhD em Planejamento de Transportes e Urbano pela Monash University, na Austrália.

Conhecimento feirense aplicado ao projeto

Natural de Feira de Santana, Allan Pimenta construiu uma trajetória acadêmica diretamente relacionada aos desafios da mobilidade. Antes de ingressar na universidade, trabalhou como lavador de carros e flanelinha para ajudar na renda familiar.

Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Estadual de Feira de Santana, ele relatou que chegou a utilizar até oito ônibus por dia para conciliar estudo e trabalho. A experiência com os longos deslocamentos despertou o interesse pelo planejamento dos transportes e pelas desigualdades presentes na organização das cidades.

Após a graduação, Allan concluiu um mestrado em Infraestrutura Crítica Sustentável em Abu Dhabi e, posteriormente, o doutorado na Monash University, em Melbourne. Sua pesquisa acadêmica abordou escolhas de estacionamento e localização residencial diante da possível expansão dos veículos autônomos privados.

Agora, por meio da MobiPlan, o pesquisador participa dos estudos da ferrovia que poderá ligar sua cidade natal à capital baiana.

A entrada de Allan no projeto acrescenta uma experiência internacional voltada ao planejamento urbano, à análise de demanda e à aplicação de novas tecnologias no setor de transportes. Para a TIC Bahia, os dados coletados serão importantes para compreender o comportamento dos potenciais passageiros e aprimorar a modelagem do empreendimento.

Projeto ainda depende de autorizações

Apesar do avanço dos estudos e das articulações institucionais, a ferrovia Feira-Salvador ainda não saiu do papel.

Em maio de 2025, a Agência Nacional de Transportes Terrestres publicou o extrato do requerimento apresentado pela TIC Bahia para a obtenção de uma outorga destinada à construção e à exploração da estrada de ferro pelo prazo de 99 anos.

A publicação permitiu o prosseguimento da análise, mas não deve ser confundida com a autorização definitiva para o início das obras. Em agosto de 2025, a ANTT informou que o pedido ainda passava pela análise de mérito da documentação, incluindo a avaliação da capacidade jurídica, técnica e financeira da empresa e da adequação do projeto às normas ferroviárias.

Depois da análise técnica da agência, a proposta ainda precisa ser avaliada pelo Ministério dos Transportes quanto à sua compatibilidade com as políticas públicas do setor.

Além das autorizações, o empreendimento depende da consolidação dos estudos de viabilidade, do licenciamento ambiental, da definição do traçado, das desapropriações necessárias e da obtenção dos recursos para financiar a implantação.

Traçado prevê integração entre cidades

Nas apresentações públicas realizadas em 2025, o projeto previa estações de passageiros em Águas Claras, Simões Filho, Candeias, São Sebastião do Passé, Santo Amaro, Conceição do Jacuípe e Feira de Santana.

Na Princesa do Sertão, foram apresentadas duas possíveis estações. Uma seria instalada na região da Avenida Nóide Cerqueira e do Parque de Exposições. A outra seria uma estação rodoferroviária próxima ao atual terminal rodoviário e à área do Hospital Lopes Rodrigues.

Em Águas Claras, a previsão é integrar o trem ao metrô, ao VLT e à rodoviária de Salvador. O projeto também contempla pátios de cargas e conexão logística com os portos da Baía de Todos-os-Santos.

Segundo os responsáveis pela proposta, o sistema poderá contribuir para reduzir a pressão sobre a BR-324, ampliar as alternativas de transporte e fortalecer a ligação entre Feira de Santana, a Região Metropolitana de Salvador e o Recôncavo.

Esses impactos, entretanto, ainda são projeções. A pesquisa atualmente em andamento ajudará a responder uma das questões centrais para o futuro do empreendimento: quantas pessoas utilizariam a ferrovia e em quais condições essa operação seria viável.

Como participar

O formulário está disponível no endereço divulgado pela MobiPlan e pela TIC Bahia:

Clique aqui e acesse a pesquisa!

O tempo estimado para responder ao questionário é de 15 minutos. Dúvidas, sugestões e comentários podem ser encaminhados ao pesquisador Allan Pimenta pelo e-mail arpimenta@mobiplanbr.com.

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