Num tempo em que portais de notícia, podcasts e redes sociais nem sonhavam em existir, Feira de Santana já tinha um jornal dedicado à literatura, à crônica, à poesia e aos costumes da cidade. Em 1921, circulava por aqui o semanário A Flor, publicação que se apresentava como “jornal noticioso, independente e literário” e que hoje ajuda a revelar uma Feira muito mais cultural e intelectual do que costuma aparecer nas narrativas tradicionais sobre a cidade.
As páginas preservadas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional mostram uma Feira de Sant’Anna que escrevia poemas, comentava cinema, publicava reflexões sentimentais, acompanhava aniversários, valorizava seus colaboradores e transformava o cotidiano em texto.
A edição número 16, de 7 de agosto de 1921, traz logo no cabeçalho a informação de que a redação funcionava na Praça João Pedreira, nº 22. O jornal pertencia a Ferreira & Ferreira e circulava semanalmente. Em meio às colunas estreitas e à tipografia típica da época, aparecem textos que hoje ajudam a compreender o ambiente cultural feirense do início do século XX.
Uma das crônicas mais curiosas da edição é “Eles e Elas”, assinada por Aloísio Resende. O autor escreve sobre o fascínio provocado pelo cinema e pelas estrelas internacionais da época, citando nomes de atrizes e artistas estrangeiros conhecidos pelo público daquele período. O texto menciona o Cinema Sant’Anna e descreve o entusiasmo dos frequentadores diante da novidade cinematográfica.
O registro é importante porque desmonta a ideia de uma Feira isolada culturalmente. A cidade acompanhava tendências internacionais, consumia cinema e discutia comportamento através da imprensa. Havia uma vida urbana pulsando nas páginas do jornal.
Mas A Flor ia além da crônica cultural. O jornal era profundamente literário. Na mesma edição aparecem poemas e prosas como “Lágrimas Supremas”, “Reminiscências”, “A Partida” e “Postal Feminino”, textos marcados pelo sentimentalismo, pela saudade e pelo romantismo ainda muito presente na escrita da época.
As páginas revelam uma imprensa que não tinha pressa. Os textos são longos, contemplativos e carregados de emoção. A dor amorosa, a memória, a despedida e a idealização feminina aparecem como temas recorrentes. Era uma escrita feita para ser saboreada lentamente, num tempo em que o jornal também era espaço de literatura.
Outro aspecto interessante é perceber como A Flor funcionava como ponto de encontro intelectual da cidade. O periódico publicava homenagens, notas sobre colaboradores e registros da vida social feirense. Uma nota dedicada a Werdeval Pitanga, por exemplo, celebra o colaborador como “brilhante escritor de Periperi”, mostrando que havia uma rede de escritores, leitores e articulistas conectados ao jornal.
Também chama atenção a convivência entre literatura e publicidade. Entre poemas e crônicas, aparecem anúncios comerciais de bebidas, armazéns e serviços locais. O jornal misturava arte, informação e sobrevivência financeira, algo que continua extremamente atual mais de cem anos depois.
Segundo registros do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, A Flor circulou entre 1921 e 1933. Parte desse acervo foi posteriormente reunida na publicação Memórias: A Flor, organizada por Carlos Mello e Carlos Brito, num esforço de preservação da memória cultural feirense.
Mais do que uma curiosidade histórica, A Flor ajuda a reposicionar a própria imagem de Feira de Santana. Antes mesmo da consolidação da cidade como potência comercial e entroncamento rodoviário, já existia aqui uma produção intelectual ativa, sensível e conectada às transformações culturais do mundo.

