A antiga Boate Jerimum, conhecida popularmente como a “abóbora” de Feira de Santana, volta ao centro da memória da cidade em meio às obras de requalificação do Complexo Carro de Boi, área integrada ao Centro de Cultura Amélio Amorim, na Avenida Presidente Dutra. Projetado pelo arquiteto Amélio Amorim na década de 1970, o espaço marcou a vida cultural e noturna feirense antes de passar décadas fechado e chegar a uma situação de deterioração estrutural. 

Centro de Cultura Amélio Amorim - Feira de Santana
Foto: Thuane Maria/GOVBA

Mais do que uma boate isolada, a Jerimum fazia parte de um projeto ambicioso. Empreendedor ousado, Amélio Amorim sonhava transformar Feira de Santana em um polo turístico e cultural a partir do Complexo Carro de Boi, empreendimento que incluiria hotel, restaurante, áreas de convivência e lazer. O projeto, considerado a grande obra de sua vida, nunca foi concluído. A morte precoce do arquiteto, aos 53 anos, em um acidente automobilístico em 15 de maio de 1982, interrompeu os planos antes da conclusão do complexo.

Ao lado da escritora e produtora cultural Irma Amorim, Amélio conseguiu ver parte do sonho ganhar vida. O Restaurante Carro de Boi e a Boate Jerimum se tornaram referência na vida social feirense e passaram a atrair a sociedade baiana em uma época em que Feira buscava consolidar sua cena cultural e turística. Nos dois prédios, o arquiteto misturou soluções modernas com materiais profundamente ligados ao sertão baiano.

Centro de Cultura Amélio Amorim - Feira de Santana
Foto: Thuane Maria/GOVBA

No Carro de Boi, utilizou madeira para revestir o chão e piaçava para cobrir tetos e passarelas. O espaço também entrou para a história cultural da cidade ao sediar a I Feira de Arte Total, realizada em parceria com o cordelista Franklin Maxado. Durante dez dias, o evento reuniu diversas manifestações artísticas de Feira de Santana e se tornou um marco para a produção cultural local.

Já na Jerimum, arquitetura e escultura praticamente se confundiam. Moldada em cimento em formato de abóbora, a boate ganhou uma pista de dança de vidro colorido e soluções experimentais para a época. Segundo registros da Tribuna Feirense, Amélio utilizou pela primeira vez a bucha natural, abundante na região de Feira, como isolante acústico. A construção virou um dos símbolos arquitetônicos mais curiosos e afetivos da cidade. 

Foto: Thuane Maria/GOVBA

Com o passar das décadas e o fechamento do espaço em meados dos anos 1990, a antiga boate permaneceu como uma espécie de ruína afetiva na paisagem urbana. Em março de 2025, após anos de abandono e comprometimento estrutural, a “abóbora” original foi demolida para dar lugar a uma reconstrução inspirada no desenho original de Amélio Amorim, adaptada às exigências atuais de segurança e acessibilidade. 

A recuperação integra as obras do Complexo Carro de Boi e do Centro de Cultura Amélio Amorim. A proposta anunciada pelo Governo da Bahia prevê um espaço multiuso com restaurante popular, arenas, fonte interativa, mini palco e a reconstrução da antiga Jerimum, preservando referências do projeto original. 

Centro de Cultura Amélio Amorim - Feira de Santana
Foto: Thuane Maria/GOVBA

Mais do que um prédio excêntrico, a Jerimum se tornou um símbolo de uma Feira de Santana que experimentava, ousava e buscava construir uma identidade cultural própria. Entre concreto, piaçava, madeira e vidro colorido, Amélio Amorim deixou na cidade uma obra que resistiu menos pelo cimento e mais pela memória coletiva dos feirenses.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X E-mail