A política quase nunca aparece quando Dona Carmelita começa a contar a própria história.
Antes da vereadora, antes da liderança indígena e antes do reconhecimento nacional, ela lembra da menina que corria pela Aldeia Velha, território do povo Tuxá, às margens do Rio São Francisco. Era uma criança curiosa, fascinada pelos estudos e pela professora que despertou nela o desejo de aprender.
Na década de 1930, estudar era um privilégio para poucos indígenas. Ainda assim, Carmelita insistiu. Tornou-se a primeira menina Tuxá alfabetizada e a concluir o ensino primário. O conhecimento que conquistou jamais ficou restrito à própria vida. Logo passou a ensinar outras crianças e adultos da comunidade, iniciando um movimento silencioso que ajudaria a mudar a realidade do seu povo.
Décadas depois, ao recordar essa fase, ela não fala em pioneirismo. Fala apenas da alegria que sentia ao aprender.
Essa simplicidade acompanha toda a sua trajetória.
Foi justamente pelo trabalho desenvolvido na educação e, principalmente, na saúde, que Carmelita conquistou o respeito da comunidade. Como parteira e enfermeira do antigo Serviço de Proteção aos Índios, acompanhava gestantes, realizava partos e visitava famílias diariamente. Conhecia cada casa, cada criança e cada necessidade da aldeia.
Quando Rodelas realizou suas primeiras eleições municipais, em 1962, ela sequer pensava em disputar um cargo político.
A candidatura nasceu da confiança que a comunidade depositava nela. O chefe do posto indígena acreditava que Carmelita poderia representar o povo, mas quem realmente decidiu sua entrada na política foram os próprios moradores. Muitas mulheres deixaram claro que votariam apenas se ela fosse candidata.
A campanha praticamente não existiu.
Seu trabalho já havia sido feito muito antes, no cuidado diário com a população.
Assim, quase sem pedir votos, Carmelita foi eleita vereadora, tornando-se reconhecida como a primeira mulher indígena eleita para uma Câmara Municipal no Brasil.
Naquele início da década de 1960, as mulheres ainda ocupavam pouquíssimos espaços na política brasileira. Dentro da Câmara de Rodelas, ela era a única mulher entre vereadores homens.
Foi escolhida primeira-secretária da Casa, participou das sessões, apresentou propostas e ajudou a conduzir os trabalhos legislativos. Recorda aquele período como uma experiência desafiadora, um ambiente dominado por homens onde precisou conquistar espaço sem perder a serenidade.
Mas, curiosamente, nunca desenvolveu paixão pela política.
Exerceu apenas um mandato e decidiu não disputar outro. Sua vocação sempre esteve em outro lugar.
Enquanto o mandato terminou, o trabalho como parteira continuou.
Ao acompanhar os partos, percebeu que muitas crianças morriam não por doenças incuráveis, mas pela falta de informação. O problema estava, muitas vezes, nos cuidados inadequados com o cordão umbilical, que provocavam infecções graves nos recém-nascidos. O que o povo chamava de “mal dos sete dias”, dona Carmelita identificou como tétano umbilical. Higienizar o umbigo dos bebês resolveria a questão.
Ela passou a ensinar as mães. Explicava como higienizar corretamente o umbigo dos bebês, orientava sobre os riscos da contaminação e acompanhava cada família de perto.
A mudança foi percebida pela própria comunidade.
Segundo Dona Carmelita, depois que esse trabalho de orientação começou, as mortes de recém-nascidos deixaram de acontecer.
Mais tarde, quando os primeiros médicos chegaram à região, a população já confiava tanto em seu conhecimento que fazia questão de confirmar com ela se os tratamentos prescritos estavam corretos.
A autoridade que conquistou nunca veio do cargo político.
Veio da credibilidade construída ao longo de anos dedicados ao cuidado com as pessoas.
Aos 98 anos, Dona Carmelita fala da importância dos estudos para as novas gerações. Com orgulho, lembra que outras mulheres indígenas seguiram o caminho da educação e conseguiram concluir a formação escolar. Não foram muitas, diz ela, mas suficientes para mostrar que aquele primeiro passo havia valido a pena.
Hoje, Dona Carmelita mora em Feira de Santana. Mudou-se para cuidar da saúde e sabe que talvez não volte a viver na aldeia.
Ainda assim, basta falar do povo Tuxá para seus olhos se iluminarem.
Ela sente falta das conversas, das pinturas corporais, das danças, dos cantos e da convivência diária com a comunidade onde nasceu. Não é só a paisagem que lhe desperta saudade. É o seu povo.
Em tempos em que a representatividade indígena finalmente ganha espaço no debate nacional, a história de Dona Carmelita lembra que esse caminho começou muito antes.
Começou quando uma menina da Aldeia Velha decidiu estudar. Continuou quando uma parteira passou a ensinar mães a salvar seus filhos.
E ganhou novos capítulos quando uma mulher indígena entrou sozinha em uma Câmara formada apenas por homens, não para fazer carreira política, mas para continuar fazendo aquilo que sempre guiou sua vida: cuidar de gente.
Sua história atravessa gerações e permanece como um dos mais importantes símbolos da participação dos povos indígenas na construção da democracia brasileira.

