Eudes faz a melhor versão de Mensagem de Amor, a música de Herbert Vianna que fez sucesso na voz de Léo Jaime. Nunca tinha prestado muita atenção à letra, até que em um dia de alinhamento astral e inspiração imprevisível o fundador do Jeca Total calou o bar com acordes num tempo original, silêncios bem colocados e a voz agridoce cantando que do muito que li, do pouco que sei, nada me resta. Era já madrugada, não havia tanta gente assim, mas todo mundo sentiu.
A não ser a vontade de te encontrar.
Perdi o grafite que utilizo para sublinhar trechos importantes de algum livro que leio. No sul eles chamam grafite de lapiseira, aqui a gente chama de lapiseira o que eles chamam de apontador. Na escola eu achava o grafite uma invenção magnífica: não era preciso ter o trabalho de fazer a ponta do lápis, que a professora obrigava que fosse na lixeira do canto da sala, me fazendo levantar e virar evidência. Quando consegui comprar um grafite usava o zero sete, e mesmo assim vivia quebrando a ponta por falta de jeito na escrita.
O tal grafite perdido é zero cinco, mais preciso, elegante no riscar. Por enquanto uso um lápis grosseiro que encontrei no fundo de uma gaveta. Perder as coisas é a natureza da vida, mas a gente não se acostuma. Minha vó Marina, que guardava no sutiã cinco reais do seu aposento para me presentear uma vez no mês, perdi sem me conformar. Saudade do pé de manga no quintal de casa, do qual conhecia todas as ramificações e presumia como cada galho novo iria servir para sustentar meu corpo pontiagudo. O tanque cheio de peixes. Ser campeão da Copa do Mundo como em 94. Acreditar no futuro que poderia ter sido.
Vagando entre os astros, nada me move nem me faz parar.
A frase que quero sublinhar é de uma crônica de Antônio Maria: lamentando, em silêncio, a morte da minha capacidade de deslumbramento. Lembrei da vendedora de café que não monta mais barraca na praça Fróes da Motta, onde eu sempre passava aos sábados. Ela não tinha o tique de balanço ansioso nas pernas e olhava atentamente para algum lugar que não tinha horizonte. Nenhum cliente parecia ser especial para ela, mas a todos dizia Deus abençoe. Num desses sábados a barraca não estava mais lá, ninguém sabe por quê. Desde então, não encontrei café parecido na rua.

