A história da Matinha dos Pretos, distrito rural de Feira de Santana marcado pela resistência negra e pela força de suas tradições culturais, ganhará os palcos em julho com o espetáculo “Matinha em Cena”, idealizado pelo ator e diretor José Guedes. A montagem será apresentada no Teatro do Colégio Estadual Quilombola da Matinha e reúne jovens e adultos da própria comunidade como atores da encenação.
O espetáculo nasce a partir de uma pesquisa sobre as origens quilombolas da Matinha e percorre diferentes momentos da formação da comunidade, desde a fuga de pessoas escravizadas em busca de liberdade até as manifestações culturais e políticas que ajudaram a consolidar a identidade do distrito ao longo das décadas.
Segundo José Guedes, autor e diretor do espetáculo, o projeto foi construído de forma coletiva, ouvindo moradores e valorizando a memória oral da comunidade.
“Quando eu cheguei, fiquei sabendo das manifestações, das coisas que eles faziam. Utilizei o método de Brecht de teatro para poder conhecer a comunidade”, contou o diretor, em referência ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht, criador de uma linguagem teatral que aproxima o teatro da realidade social e estimula a reflexão crítica do público e dos atores sobre o contexto vivido. Antes da criação do texto, Guedes realizou entrevistas com moradores da Matinha, entre elas a de Dona das Neves, descrita por ele como uma guardiã da memória local.
A montagem começou com oficinas teatrais abertas à comunidade e, após um processo de formação do elenco, consolidou um grupo composto por homens, mulheres e crianças da Matinha. A proposta, segundo o diretor, vai além da estreia do espetáculo: a ideia é contribuir para a criação de um grupo de teatro permanente no distrito.
A narrativa do espetáculo foi construída em blocos. O primeiro ato retrata a fuga de pessoas negras escravizadas das fazendas da região até a chegada à “mata rala”, território onde poderiam viver livres, longe “dos grilhões e açoites”, como descreve Guedes. A encenação também aborda as formas de sobrevivência dos primeiros moradores, a relação com a natureza e a construção coletiva da comunidade.
Outro eixo importante da peça é a religiosidade. O espetáculo percorre o sincretismo religioso presente na formação da Matinha até a criação da paróquia quilombola do distrito. A primeira do mundo.. Em seguida, a montagem avança para temas sociais e políticos, retratando momentos importantes da organização popular da comunidade.
Entre os episódios lembrados estão a atuação de médicos voluntários que denunciaram a situação de desnutrição vivida pela população e o surgimento de formas coletivas de organização, como associações comunitárias e cooperativas solidárias. A peça também revisita a mobilização política que contribuiu para a transformação da Matinha em distrito de Feira de Santana.
Na reta final, “Matinha em Cena” presta homenagem às expressões culturais que marcaram gerações na comunidade, como os reisados, as rodas de samba e personagens importantes da cultura local, entre eles Colerinho, Dona Chica, Guda Moreno e a Quixabeira da Matinha.
José Guedes conta que o desejo de desenvolver um trabalho artístico na Matinha é antigo, desde quando conheceu a comunidade, ainda no fim dos anos 1980, período em que a Quixabeira da Matinha começou a ganhar projeção cultural em Feira de Santana.
“Quando ouvi falar da Matinha dos Pretos, aquilo me chamou atenção. Sempre tive vontade de desenvolver um trabalho lá. E agora chegou essa oportunidade”, disse.
O projeto foi viabilizado através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com recursos federais e apoio da Prefeitura de Feira de Santana, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer.
A estreia de “Matinha em Cena” está prevista para julho, no Teatro do Colégio Estadual Quilombola da Matinha.

