Antes de interpretar Feira, a cidade, é importante reconhecer a feira, fenômeno semicaótico com intenção comercial que se desdobra em múltiplas relações, linguagens e jogos. Não que tudo em Feira seja feira, pois estando globalizado o mundo, com distâncias encurtadas e distribuídas pela internet e pelas diversas mídias, sofremos influências diversas que distraem e reorientam as raízes culturais em qualquer cidade. Apesar disso, a feira segue como grande influência na forma de ser e existir da municipalidade feirense, nossa célula-tronco.
Para começar, a feira é consuetudinária. No Direito, essa palavra cheia de quinas faz referência às regras baseadas no costume, na prática, nos hábitos de determinado grupo social. Assim, uma feira é regida por um código de conduta próprio, fluido, compreendido e seguido por quem faz parte dela, sem necessidade de lei escrita, juiz ou burocracia. Não à toa por aqui a imposição de formalidade sempre ocorre como um susto e até injustiça cometida contra certos segmentos da cidade. Encaixotar ambulantes num pretenso shopping, enquadrar feiraguaios que vendem pirataria, exigir cadastros, documentos, tributos. Tudo soa como uma carteirada de quem não entende o cotidiano da feira, autorregulada pelos interesses de seus integrantes.
Nessa feira de regras próprias, muitos conflitos são resolvidos por justiçamento, sem mediações de instâncias governamentais. Ameaças, vinganças, violências encomendadas e práticas correlatas mantém a estabilidade das relações e dos mercados. Na feira sempre é sabido com quem não se deve mexer, quem é potencialmente cruel, implacável, quem reúne coragem, armas e forças para fazer prevalecer seus interesses.
Também há na feira certa capacidade de adaptação a cenários incômodos. Chuva, sol, seca, pragas, enchentes, doenças… a impermanência impõe desafios ao dia-a-dia do feirante. É nesse labirinto que surge o baratino, palavra que tem raízes semelhantes às de “barata”, inseto que se adapta aos ambientes mais hostis, e “barato”, aquilo que não é caro. Na feira é preciso saber identificar as laranjadas, evitar prejuízos, ser oportunista, não deixar passar as chances que se apresentam. O baratino é um tipo de improviso de quem transita na feira entre conveniências e perigos, mesmo que alheio à ética comum, em busca de sobrevivência ou ascensão social.
O tipo de comunicação praticado na feira também é notável. A algazarra zombeteira, o disse-me-disse debochado. O homem e a mulher da feira riem de si mesmos. Todo-mundo-conhece-todo-mundo. A feira é polifônica, nada comedida, não obedece a correntes intelectualizadas ou hierarquizadas de opinião. Xingamento, fofoca, fuxico. Saiu na rádio, mas todo mundo sabe a verdade. Escreveram no jornal, mas o que aconteceu mesmo não foi assim.
O povo da feira é trabalhador. Acorda cedo, pega peso, toma sol, chuva, aperto. Correria. É um povo de passagem, acostumado a deixar ir e a deixar vir, acostumado a ir e vir. Some alguém: morreu? Adoeceu? Enricou? Curiosidade protocolar, descuidada: ninguém tem lugar solene na feira.
A feira não é uma nação, para que nela se possa cultivar ufanismo ou orgulho cívico. A feira não é uma ideologia, para que nela haja doutrina de pensamento ou estética. A feira é meio de vida, adaptando-se, escorrendo ruidosamente para servir à sobrevivência dos seus, talvez com irreverência, talvez com brutalidade, se não com uma simbiose tragicômica que nos faz ser quem somos.
