Uma autorização de supressão vegetal concedida pela Prefeitura de Feira de Santana para uma área de 4,4 hectares no bairro SIM tem gerado questionamentos sobre a política ambiental do município. A área, equivalente a cerca de seis campos de futebol ou 45 mil metros quadrados de vegetação nativa, será desmatada para a construção de edifícios. Como compensação ambiental, a empresa responsável deverá doar apenas 70 mudas de árvores.
A informação foi revelada pelo jornalista Glauco Wanderley, em reportagem publicada no portal Conexão Notícias, com base em portaria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente publicada no Diário Oficial de 13 de maio de 2026, assinada pela secretária Jaciara Moreira da Costa.
Embora o número exato de árvores existentes na área não tenha sido oficialmente divulgado, estimativas técnicas indicam que um terreno com essa dimensão e cobertura vegetal nativa pode abrigar entre 8 mil e 14 mil árvores, considerando diferentes portes e densidades florestais. Isso torna a compensação prevista proporcionalmente pequena.
Na prática, as 70 mudas representam menos de 1% do número mínimo estimado de árvores que podem existir na área. A comparação chama atenção porque uma muda recém-plantada está longe de oferecer os mesmos serviços ambientais de uma árvore adulta, como sombreamento, regulação térmica, retenção de umidade, proteção do solo e captura de carbono.
A autorização foi concedida à empresa Gran Artêmia Empreendimentos Imobiliários SPE Ltda, registrada em janeiro de 2025. Apesar de recente, a empresa possui ligação com um grupo empresarial já conhecido em Feira de Santana. Segundo registros públicos, seus sócios também integram a estrutura societária da L. Marquezzo, tradicional incorporadora da cidade.
O caso também reacende o debate sobre o avanço da urbanização no SIM, um dos bairros que mais crescem em Feira de Santana nas últimas décadas. A expansão imobiliária tem transformado rapidamente áreas antes ocupadas por vegetação nativa, intensificando preocupações sobre ilhas de calor, drenagem urbana e qualidade ambiental.
A discussão ganha ainda mais peso diante das metas de arborização da própria prefeitura. Em entrevista ao jornalista Valdomiro Silva, o engenheiro ambiental João Falcão, diretor municipal de Áreas Verdes, afirmou que o município pretende plantar 5 mil mudas ao longo do atual mandato.
O contraste entre esse esforço e a autorização de supressão chama atenção: em uma única intervenção, pode-se eliminar uma quantidade de árvores adultas superior à meta anual de recomposição vegetal da cidade.
Outro ponto que levanta questionamentos é a compatibilidade da compensação com a legislação ambiental. A Lei Federal nº 11.428/2006, que trata da proteção da vegetação nativa da Mata Atlântica, estabelece, em seu artigo 17, que a compensação ambiental deve ocorrer em área equivalente à extensão da área desmatada, especialmente quando há supressão em estágio mais avançado de regeneração.
Especialistas da área ambiental apontam que compensações baseadas apenas em doação de mudas tendem a ser insuficientes quando não vêm acompanhadas de garantias de plantio, manutenção e monitoramento de sobrevivência das espécies.
Em uma cidade historicamente marcada pelo déficit de arborização e pelas altas temperaturas urbanas, o episódio levanta uma questão central: qual o custo ambiental do chamado progresso?
Mais do que discutir a legalidade formal da autorização, o caso abre espaço para um debate urgente sobre o modelo de crescimento urbano de Feira de Santana e sobre quanto da vegetação nativa ainda será sacrificada em nome da expansão imobiliária.

