O que dizer sobre uma cidade cujo centro comercial proporciona uma fachada dessas?
A “Piriguete Premium” fica na Rua Marechal Deodoro, o coração do centro da cidade. Para mim, o paraíso! Tem de tudo aqui. A começar por uma feira livre entre as lojas fixas e a calçada. Utensílios domésticos, móveis, roupa de cama, mesa e banho, quinquilharias diversas, sapato, roupa e piriguete. Entrei e perguntei:
— Vende piriguete aqui?
A vendedora, extrovertida, respondeu:
— Aqui piriguete compra e tem umas que vendem.
Saí com uma blusinha de R$ 40 que “não piriguetes” vestiriam também, um registro fotográfico, uma gargalhada e essa história pra contar.
Feira de Santana tem muito dessas coisas. A cidade acorda cedo, trabalha duro, negocia alto, disputa preço no grito e faz a gente, mesmo na rua, se sentir em casa. No meio da correria, ainda sobra espaço para a piada pronta, para o nome engraçado na fachada, para a conversa atravessada de humor e para essa irreverência tão típica de quem aprendeu a sobreviver vendendo.
O centro de Feira não é silencioso, organizado ou pasteurizado. Ele pulsa. Tem cheiro de milho assado, som de carro de propaganda, buzina, gente apertada desviando de sombrinha, mercadoria ocupando calçada, vendedor chamando cliente e histórias acontecendo ao mesmo tempo em cada esquina. É uma cidade que comercializa até o improviso.
A seriedade de quem tira dali o sustento da família inteira convive com uma gaiatice quase obrigatória. Na rua, trabalhar nunca impediu ninguém de rir. Pelo contrário. O humor parece ser ferramenta de sobrevivência tão importante quanto a calculadora e a maquininha de cartão.
Na Marechal Deodoro, entre um anúncio de promoção e outro, a cidade se revela sem filtro. Popular, debochada, intensa, contraditória e viva. Uma cidade onde até a placa de uma loja vira crônica urbana.

