O menino que começou a trabalhar aos 14 anos como flanelinha e lavador de carros em Feira de Santana recebeu, nesta semana, o diploma de PhD em Engenharia de Transportes e Urbanismo pela Monash University, em Melbourne, na Austrália. Mas, para o pesquisador Allan Ribeiro Pimenta, o valor daquele momento não estava apenas no título acadêmico conquistado em uma das universidades mais respeitadas do mundo. Estava, sobretudo, no caminho percorrido até ali.
Ao compartilhar sua trajetória nas redes sociais, Allan transformou a cerimônia de conclusão do doutorado em um relato sobre desigualdade, educação pública, mobilidade urbana e políticas sociais. Um texto que começa na periferia de Feira de Santana, atravessa ônibus lotados, políticas de cotas, intercâmbio internacional e chega à defesa de uma ideia central: a educação inclusiva transforma destinos.
“Esse diploma aqui tem sim muito valor, mas ele se torna muito mais valioso quando eu olho para trás e reflito sobre a minha história”, afirmou.
Allan conta que cresceu em uma família humilde em Feira de Santana. Filho de Dona Ildes e Seu Jorge, ele lembra da mãe tentando complementar a renda da casa vendendo salgados, pizzas e bolos, enquanto o pai, que trabalhava como segurança, enfrentava problemas de saúde até precisar se aposentar por invalidez.
“Assim como a grande maioria dos jovens negros no Brasil, eu tive uma infância muito humilde”, escreveu.
Foi ainda adolescente que começou a fazer pequenos trabalhos para ajudar financeiramente em casa e conseguir se manter. Naquele momento, segundo ele, a universidade parecia uma realidade distante.
“Educação não parecia um caminho viável. Não porque eu não queria estudar, mas porque não parecia realista competir com quem teve boa escola, nunca precisou trabalhar, nunca enfrentou ônibus lotados.”
A mudança de rota começou a acontecer a partir de dois acontecimentos que ele considera decisivos. O primeiro foi a política de cotas implantada durante o segundo governo Lula. Allan afirma que foi ali que passou a enxergar a universidade pública como uma possibilidade concreta para jovens da sua realidade social.
“O segundo momento foi com o meu professor Marcos, de matemática do Colégio Modelo. Ele conseguiu me mostrar a matemática de forma simples. E, mais importante, conseguiu me fazer acreditar que era possível sim entrar na universidade.”
Há 16 anos, Allan ingressou na Universidade Estadual de Feira de Santana, a UEFS. A experiência universitária, no entanto, esteve longe de ser simples. Em um dos trechos mais marcantes do relato, ele descreve a rotina de deslocamentos diários pela cidade.
“Teve período que eu pegava até oito ônibus por dia para conciliar aula e estágio. Eu estudava e trabalhava dentro de ônibus lotados, muitas vezes em pé.”
Foi exatamente dessa experiência cotidiana, tão comum a milhares de estudantes feirenses, que nasceu o interesse dele pelo urbanismo e pelos sistemas de transporte.
“Foi exatamente essa realidade do transporte público precário em Feira de Santana que despertou em mim o interesse por transportes e urbanismo.”
Allan decidiu então dedicar a própria vida acadêmica a compreender melhor como cidades e sistemas de mobilidade funcionam e como poderiam se tornar mais inclusivos socialmente.
Durante a graduação, conseguiu participar do programa Ciências sem Fronteiras. A experiência abriu as portas para uma trajetória internacional. Depois da formação em Engenharia Civil, fez mestrado em Abu Dhabi e, posteriormente, o doutorado na Austrália, ambos com bolsas integrais financiadas pelos governos dos países onde estudou.
Apesar da dimensão acadêmica da conquista, o discurso de Allan não se limita a uma narrativa individual de superação. Grande parte do discurso é dedicada a discutir desigualdade histórica no Brasil e a importância das políticas públicas.
Ele afirma que sua trajetória seria praticamente impossível algumas décadas atrás e relaciona diretamente sua ascensão social à educação pública e às políticas de inclusão.
Para explicar a desigualdade racial brasileira, Allan utiliza uma metáfora que atravessou o discurso e chamou atenção nas redes sociais. Ele compara a sociedade a uma corrida de revezamento iniciada em 1500.
“Um grupo começou a corrida em 1500. Enquanto isso, outros grupos nem podiam correr.”
Segundo ele, durante quase quatro séculos, os grupos impedidos de participar da disputa social também eram obrigados a sustentar economicamente aqueles que já estavam à frente.
“Durante 388 anos, o bastão foi sendo passado de geração em geração no grupo que podia correr. Esse bastão tem vários nomes: herança, acesso ao poder, redes de relacionamento, propriedade da terra.”
Allan segue afirmando que, mesmo após a abolição da escravidão, quem passou a “correr” depois começou séculos atrás, sem acesso às mesmas condições estruturais.
“Sem políticas públicas, esse grupo ainda continua atrás. E quando essas regras começam a existir, como as cotas, que mudaram a minha vida, finalmente começamos a corrigir parte dessa diferença.”
O pesquisador também faz questão de afirmar que políticas de inclusão não anulam esforço individual, mas criam condições mínimas para que o mérito possa, de fato, existir.
“Eu espero que a minha história e a minha formação sirvam como exemplo não só de que esforço e mérito importam, mas também de que políticas públicas são fundamentais.”
Ao final do discurso, Allan agradece aos pais, à esposa Bruna, aos professores, colegas e instituições por onde passou. Cita Feira de Santana diversas vezes e reafirma o desejo de retornar ao Brasil.
“Hoje, eu continuo aqui como pesquisador na Monash, mas, em breve, estarei de volta ao Brasil para retribuir ao meu país tudo o que ele me proporcionou.”
A trajetória de Allan dialoga com uma urgência de Feira de Santana. Ela nasce justamente de uma das maiores feridas da cidade: a dificuldade histórica de pensar o espaço urbano a partir de quem vive seus problemas diariamente. Feira ainda é carente de técnica, planejamento e, sobretudo, de serviços públicos pensados por pessoas que conhecem de perto a realidade das ruas, dos ônibus lotados, dos longos deslocamentos e das desigualdades que atravessam a sua história e desenvolvimento.


