Foram quase vinte anos para que o Centro de Convenções de Feira de Santana fosse inaugurado, após idas e vindas burocráticas, políticas e administrativas. Em dezembro de 2024, nasceu pós-maturo com a cara de que seguiria um caminho pouco popular, segundo os gestos de uma elite que é capaz de vestir gravata-borboleta para passear no shopping. As conversas eram de que o empresariado, essa entidade difusa que tem presunção de legitimidade nas decisões da cidade, assumiria o Centro e estava tudo certo. Desconfiei.
Bem que o equipamento, como é chamado hoje em dia qualquer prédio que o poder público inaugura, tem mesmo cara de almofadinha: vidros espelhados como um edifício corporativo, iluminação hospitalar, cores entre o cinza e o cinza. Ambiente perfeito para a promoção de congressos cheios de estrangeirismos, summits, conventions, top of minds, business. Ou shows carregados de entretenimento e pobres de significado cultural para a cidade. Outra hipótese era que o espaço fosse simplesmente inútil, subaproveitado, incapaz de se harmonizar com quaisquer necessidades locais. Pois queimei minha língua.
Neste julho de 2026 em que escrevo, por exemplo, o Centro vai promover sambas, mostra de cinema, oficina de dança afro, evento de cultura gamer, show humorístico e apresentações musicais no Teatro, que recebe o nome de Carlos Pitta. Por ali já foram ovacionados artistas como Asa Filho e Neném do Acordeon. Encheram o Teatro o concurso Miss Afro e a peça feirense Akoko Lati Wa Ni – Tempo de Ser, que posteriormente ganhou o Prêmio Shell. Carol Pereyr, Flashback, Quixabeira da Matinha, Unidos pelo Samba, Sued Nunes, Jorge Vercillo, Luciano Mello, Trilogia do Reggae.
A lista é extensa do que acontece e já aconteceu em menos de dois anos no Centro de Convenções, que se consolidou como o principal espaço cultural de Feira de Santana, certamente do interior da Bahia. Não tenho recordação de mobilização parecida num espaço cultural na cidade, com ênfase no “cultural”, e especial prioridade à cena artística local.
Merece reconhecimento a equipe do Centro, especialmente a diretora de Espaços Culturais da Bahia, a feirense Larissa Santana, responsável por mobilizar o Centro de Convenções, sob a liderança do secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro. Além de cuidar da burocracia que envolve a gestão desse tipo de espaço, não é raro ver Larissa sambando ou chorando emocionada nas primeiras fileiras de uma apresentação artística que acontece lá, sempre acompanhada dos produtores João França e Aline Araújo, que viviam profundamente a cena cultural da cidade muito antes de integrar a equipe do Centro de Convenções.
Além do empenho administrativo do Governo do Estado, talvez seja essa a razão pela qual o Centro de Convenções, tão monótono em sua arquitetura, tenha ganhado alma e importância simbólica na cidade: ter gente que vive e sente a cultura de Feira de Santana com disposição para inovar sem concessões. Felizmente, eu estava errado. Vida longa ao Centro de Convenções popular e artístico.

