Pesquisa de mestrado transforma encontros entre artesãos em exposição coletiva que coloca a ancestralidade, a memória e os territórios da cidade no centro da criação artística
Afinal, qual é o lugar do artesanato em Feira de Santana? Esta pergunta deu origem à exposição Entrelaço. A resposta não veio em livros nem em laboratórios. Ela nasceu da escuta, da convivência e do encontro entre quatro artistas que descobriram que, antes mesmo de dividirem uma exposição, já compartilhavam histórias, afetos, espiritualidade e uma mesma forma de compreender o fazer artístico.
Inaugurada nesta sexta-feira (3), no espaço Jerimum, no Centro de Cultura Amélio Amorim, a mostra é resultado da pesquisa de mestrado “Raiz nas Mãos: Percursos de Corpos-Territórios Artesãos em Feira de Santana (BA)”, desenvolvida pelo artesão e pesquisador Matheus Chão de Palha no Programa de Pós-Graduação em Desenho, Cultura e Interatividade da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
O que começou como uma investigação sobre a realidade dos artesãos feirenses terminou transformando-se em uma obra coletiva que sintetiza o espírito da pesquisa: uma grande árvore construída por muitas mãos e carregada de significados.
“Quando comecei esse processo de pesquisa, me deu muita vontade de entender qual era a situação desses artesãos que estão em Feira. Também era um entendimento sobre qual era o meu lugar enquanto artesão nessa cidade”, explica Matheus.
Mais do que levantar informações sobre produção artesanal, o pesquisador buscou compreender como esses artistas constroem suas identidades, preservam conhecimentos ancestrais e ocupam os territórios da cidade.
“Queria acessar essas histórias, essas memórias e conhecer um pouco mais dessa classe artística, que tem uma especificidade muito ligada à tradição.”
Uma cidade construída por mãos artesãs
Durante a pesquisa, Matheus percebeu que o artesanato está presente na própria formação de Feira de Santana. Criado nas proximidades do Centro de Abastecimento, ele conta que sua relação com a feira livre foi determinante para a construção do projeto.
“Eu moro no Tanque da Nação, ao lado do Centro de Abastecimento. Fui criado nesse lugar, no sábado da feira, nas trocas. Então essa pesquisa nasce também desse lugar.”

Essa relação aparece ao longo de toda a exposição. O conceito de corpos-territórios artesãos, presente na pesquisa, entende que cada artista carrega consigo não apenas uma técnica, mas também a memória dos espaços onde viveu, das pessoas que ensinaram o ofício e das tradições que continuam atravessando gerações.
Onde termina o artesanato e começa a arte?
Foi durante os encontros promovidos pela pesquisa que surgiu uma das discussões mais importantes da exposição.
Os quatro artistas passaram meses debatendo uma pergunta recorrente no universo das artes visuais: existe diferença entre arte e artesanato?
Para Ruz, a resposta apareceu naturalmente.
“Descobrimos juntos que essa distinção, para nós, não existe. O artesanato atravessou e atravessa nossa vida até hoje. A diferença está apenas no lugar onde ele é aplicado. Nossa base sempre foi o artesanato.”
Ao longo das conversas, o grupo percebeu que havia algo ainda mais profundo unindo suas trajetórias.
“Tivemos momentos muito íntimos, de muito afeto e companheirismo. Percebemos que estávamos todos entrelaçados pelas nossas trajetórias, pelos exemplos que tivemos, pelos desejos e também pelas angústias.”

Foi justamente dessa percepção que nasceu o nome da exposição.
O Entrelaço não representa apenas uma colaboração artística. Ele simboliza o cruzamento de memórias, saberes, espiritualidades e experiências que antecedem os próprios artistas.
Como afirma o texto curatorial da mostra, “a semente não foi semeada sozinha”. Antes deles, muitas outras mãos já haviam iniciado esse movimento.
A árvore como símbolo da ancestralidade
No centro da exposição está uma grande árvore construída coletivamente pelos quatro artistas. Ela não fazia parte do projeto inicial. Segundo Matheus, a imagem surgiu quase naturalmente durante o desenvolvimento da pesquisa.
“O nome da pesquisa é ‘Raiz nas Mãos’. Quando trouxe a ideia da raiz, ela foi levando a gente para a árvore.”
A instalação faz referência a Iroko, orixá associado ao tempo, à ancestralidade e aos mistérios da vida, além de dialogar com Ossain, senhor das folhas na tradição afro-brasileira.
Cada artista ficou responsável por uma parte da obra.
Matheus criou os recortes em madeira que estruturam a árvore. Ruz produziu a máscara e a pintura. Dona Marta confeccionou as folhas. Jacson Oliveira desenvolveu o saiote utilizando palha da costa, miçangas e búzios.
“Cada um contribuiu com um pedacinho e conseguimos construir essa árvore coletiva”, resume Matheus.
Muito além da técnica
Para Jacson Oliveira, o processo de criação significou também um reencontro com sua própria ancestralidade.
“Partilhar desses momentos me fez acessar memórias ancestrais. Quando fomos conversando, tudo foi fluindo. Essa partilha de saberes fez com que a gente se entrelaçasse, tanto fisicamente quanto espiritualmente.”

Ao observar a obra pronta, ele afirma que o trabalho representa a continuidade dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
“Para mim, o Entrelaço resume reviver e reconfigurar a ancestralidade.”
Essa ideia também é compartilhada por Dona Marta. Convidada para integrar a pesquisa desde os primeiros encontros, ela descreve a participação como um reconhecimento de sua trajetória.
“Eu me senti muito honrada. Quando Matheus me chamou para fazer parte dessa pesquisa, eu, como artesã, fiquei muito honrada.”
Ao ver a exposição inaugurada, resume o sentimento em poucas palavras.
“É um êxtase. É dever cumprido. Entender que esse trabalho tocou os corações. Era isso que a gente queria.”
Uma árvore feita de gente
Embora reúna técnicas diversas, como madeira, tecidos, cabaças, palhas, miçangas e fibras naturais, a exposição não pretende apresentar apenas a variedade do artesanato produzido em Feira de Santana. Ela propõe um olhar para aquilo que antecede cada peça: os saberes transmitidos por pais, mães, avós, mestres e comunidades.

A frase escolhida para encerrar o texto da curadoria sintetiza esse espírito:
“Da diferença nasceu a unidade, da madeira brotou o afeto, e dessa arte feita de gente ergueu-se uma árvore viva, chamada Entrelaço.”
Visitação
A exposição Entrelaço permanece em cartaz até o início de agosto no Espaço Jerimum, localizado no Centro de Cultura Amélio Amorim.
A visitação é gratuita e acontece de segunda a sábado, das 8h às 17h. Segundo Matheus, o convite é para conhecer não apenas a exposição, mas também o novo espaço dedicado às artes.
“É só passar aqui, conhecer o Espaço Jerimum, que acabou de ser inaugurado, e conhecer o Entrelaço.”
Fotos: Hortência Santana









