Houve uma época em que Feira de Santana era dividida entre azuis e verdes, Transul e Autonida, as duas principais empresas de ônibus que faziam o transporte coletivo da cidade. Íamos para a escola ou para o trabalho conduzidos por uma dessas linhagens, como se estivéssemos ostentando estandartes que marcavam de qual região da cidade éramos, já que cada empresa tinha linhas que operava exclusivamente. Havia residualmente um ou outro ônibus de empresas como Aymoré, Safira, O. Lacerda, mas Transul e Autonida eram as dominantes naqueles anos 90.
A passagem podia ser paga com um vale-transporte, que nada mais era que um pedaço de papel curto, semelhante a um selo. Os vales eram vendidos informalmente nos pontos de ônibus, cinco ou dez centavos abaixo do valor da passagem paga em espécie. Ó o vale!, anunciavam os vendedores fazendo a locução que era cotidiana nos pontos. Esses comerciantes compravam de trabalhadores que recebiam os vales do mês dos patrões ou de pessoas como eu, que às vezes ia andando para casa e vendia os vales que meus pais me davam, com o objetivo de guardar algumas moedas.
Eu fazia parte da tribo Transul, por morar na região do Tomba e Eucaliptos, e via com estranhamento o universo da Autonida e das pessoas que moravam para o norte da Feira, onde havia muitas linhas daquela empresa. Imaginava que se me perdesse numa parte da cidade em que só houvesse ônibus da Autonida, preferiria encontrar o caminho andando em vez de adiantar o lado com os verdes.
A lealdade aumentou quando trabalhei no bar de Seu Zé, no Ponto Central, onde funcionava a garagem da Transul. Ali conheci Barriga, Filé, Anadissor, Ivan, Márcia e outros motoristas e cobradores que vestiam azul. Todos gente boníssima que ia para o bar comemorar o recebimento do ordenado com cerveja, máquina caça-níquel, sambão e carne assada, que eu tinha a função de cortar e pesar. As cobradoras usavam folhas imensas onde colavam os vales-transporte recebidos para prestar contas, algo semelhante a álbuns de figurinha. Revezavam entre a cola de um vale e um gole no copo de cerveja.
O que não havia de diferença entre os verdes e azuis era a demora e a qualidade dos ônibus, quase todos barulhentos, quase todos com cheiro de óleo, quase todos lotados, cheios de calor no verão e abafados na chuva. Um dia, fizeram um desfile com uma frota nova, uma cor que ia deixar os azuis e verdes para trás, revolucionando o transporte público de Feira de Santana: chegaram os cinzas, da RS Silva. Muitos de nós traímos os movimentos, em busca da modernidade e conforto que traziam: pelo que me consta, foram os primeiros ônibus com poltronas acolchoadas na cidade. A parada era pedida com botões, não puxando aquela corda de estender roupa. Ontem como hoje, quando ainda se ouvem as mesmas reclamações sobre o transporte, a cor não importa muito para o povo. Um pouquinho de descanso depois de um dia exaustivo de trabalho, sim.

