Em 1970, Feira de Santana parou para assistir a um casamento. Não foi uma cerimônia qualquer: foi uma boda concebida como manifesto tropicalista, que misturou vaqueiros encourados, escolas de samba, blocos de carnaval, terreiros de candomblé, hippies, estudantes e até um carro de boi num cortejo que atravessou a cidade. O episódio foi registrado por uma reportagem da revista O Cruzeiro, então uma das maiores publicações jornalísticas do país, assinada pelo jornalista Edney Silvestre.
Hoje, Silvestre é um nome conhecido do jornalismo e da literatura brasileira: foi correspondente internacional da Rede Globo nos Estados Unidos, onde cobriu os ataques de 11 de setembro de 2001, e venceu o Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2010 com Se eu fechar os olhos agora. Décadas antes, porém, foi dele o registro de uma das festas de rua mais inusitadas já vistas em Feira de Santana.
Uma cidade de dois carnavais

À época, Feira de Santana tinha dois ciclos de folia. Havia o Carnaval propriamente dito, em fevereiro, vivido sobretudo nos clubes — a reportagem observa que tinha “animação razoável”, apesar de o comércio não fechar nem na Terça-Feira Gorda. E havia a Micareta, realizada após a Quaresma, essa sim brincada nas ruas, com desfiles de blocos e carros alegóricos, quando, segundo o texto de O Cruzeiro, ninguém trabalhava. O casamento aconteceu cerca de um mês depois da Micareta daquele ano e funcionou, na prática, como um terceiro carnaval improvisado.
A data da Abolição e a morte que adiou tudo
A cerimônia deveria ter ocorrido em 13 de maio, escolha carregada de simbolismo. A reportagem registra o peso múltiplo da data: o aniversário da assinatura da Abolição da Escravatura, lida como “uma vitória negra no Brasil”; uma data mística para o candomblé pela carga do número 13; e também marco do calendário católico, pela aparição de Nossa Senhora de Fátima.
O casamento, no entanto, não aconteceu no dia 13. Às vésperas da cerimônia, a atriz Margarida Ribeiro, que seria guarda de honra da boda, morreu num acidente automobilístico, comovendo a classe artística da cidade. Em sua homenagem, hoje, um dos teatros de Feira de Santana leva o seu nome. Com a perda, a celebração foi transferida para o sábado seguinte, 23 de maio.
O projeto: mexer com os preconceitos da cidade
A noiva era a atriz e modelo Maria Helena Nascimento Santos, então com 20 anos; o noivo, o jornalista e cordelista Franklin Machado, de 27. A intenção declarada do casal e de seus amigos era transformar a união num ato simbólico de afirmação. Como descreve a reportagem:
A própria estética da boda traduzia essa proposta: os trajes dos noivos foram inspirados em Oxóssi, a noiva levaria antúrios no lugar do buquê europeu de flores brancas e dispensaria véu e sapatos.
Um cortejo como nenhum outro

O que mais impressiona, ao reler a reportagem, é a composição do cortejo nupcial que saiu da antiga praça da Feira do Gado rumo ao coreto da praça Matriz, 1.200 metros adiante. Edney Silvestre descreve a procissão:
A reportagem registra ainda a bateria da Escola de Samba Ali Babá, os blocos carnavalescos “Os Psicodélicos” e “Os Nacionais”, e a multidão que se apinhava no percurso misturada a vendedores de sorvete, pipoca, amendoim e refrigerantes. Eram, segundo o texto, os 180 mil habitantes da cidade somados a caravanas de municípios vizinhos. O resultado, como resume a própria reportagem, foi “um grande vale-tudo no melhor estilo baiano”, com saldo de feridos e dezenas de prisões.
O padre que se recusou a abençoar

A cerimônia previa uma bênção católica no coreto, depois transferida sob pressão eclesiástica. Mas, no dia, descobriu-se que o padre, apesar das testemunhas e das promessas, havia desistido de abençoar o casal. Diante da recusa, noivos, convidados fantasiados e populares, sempre escoltados pela polícia, invadiram a igreja da padroeira, Nossa Senhora de Santana, interrompendo até um casamento convencional que ocorria perto do altar.
O religioso havia fugido pela porta dos fundos, deixando outro padre em seu lugar, que também se recusou a oficiar. O delegado Osvaldo Pereira Franco chegou a sair atrás do pároco, primeiro na casa do bispo, depois na residência do próprio padre, sem encontrá-lo em lugar algum. De volta ao templo, achou Franklin ajoelhado e irredutível, disposto a permanecer ali, segundo a reportagem, ad nauseam: o noivo dizia ser católico e exigia a bênção combinada.
Do Feira Tênis Clube a São José dos Itapororocas

Sem a bênção, o cortejo seguiu para a cerimônia de matriz afro-brasileira, montada no ginásio de esportes do Feira Tênis Clube, ornamentado com bananeiras, mamoeiros, cana, bambus e galhos de ouricuri. Ali, ao som de atabaques e agogôs, foram invocados os orixás e realizada a celebração simbólica da união, com os noivos cobertos por lençóis e “fechados” segundo o rito.
Encerrada a festa, o casal partiu para São José dos Itapororocas, terra de Maria Quitéria, heroína da Independência, onde passou a lua de mel e posou, com exclusividade, para O Cruzeiro, sob o olhar curioso de pouco mais de cem moradores.
Mãe Socorro nas páginas de O Cruzeiro

Um detalhe que o tempo tornou ainda mais significativo está nas fotografias que ilustraram a reportagem: entre as figuras dos terreiros que conduziram a cerimônia aparece Mãe Socorro, importante babalorixá de Feira de Santana. Sua presença nas páginas de uma revista de circulação nacional, em 1970, é um registro valioso da força das religiões de matriz africana na cidade.
Mais de cinco décadas depois, o casamento tropicalista de Franklin e Maria Helena permanece como um dos episódios mais singulares da memória cultural feirense, uma festa que, no dizer de Edney Silvestre, foi “muito mais bonita do que se poderia imaginar”.
Franklin Maxado
O noivo daquela boda seguiria um caminho tão singular quanto a própria cerimônia. Anos depois, Franklin Machado abandonaria o jornalismo, a advocacia, a carreira militar e as terras de família para se tornar Franklin Maxado, com o X que cravou no próprio nome, um dos maiores cordelistas do Brasil. Filho do dentista Isaack Barreiro Machado e da professora Anita Vitória Barreiro, o feirense passou a escrever e vender livros de cordel nas feiras e ruas da Grande São Paulo, levou a poesia popular às universidades e à Europa e dedicou-se também à xilogravura. Autor de centenas de títulos e do ensaio O Que é a Literatura de Cordel, foi ele quem, em 1980, pediu ao então ministro da Educação, e também feirense, Eduardo Portela, o reconhecimento do cordel como patrimônio cultural do Brasil, e quem mais tarde levou à UNESCO o pedido para declará-lo patrimônio imaterial da humanidade.

