Obra em parceria com Ivanildo Cajazeira atravessa mais de um século e meio de literatura brasileira para discutir como estruturas de opressão podem ser reproduzidas dentro dos próprios grupos historicamente oprimidos

O que acontece quando alguém que pertence a um grupo historicamente violentado passa a reproduzir, contra seus próprios pares, comportamentos e mecanismos de poder herdados de quem o oprimiu? É em torno dessa pergunta que os pesquisadores Gilsam Santana e Ivanildo Cajazeira constroem Entre o Chicote e o Espelho: ensaios sobre a síndrome do chicote na contemporaneidade.

Escrito a quatro mãos, o livro propõe o conceito de “síndrome do chicote” para analisar a reprodução da violência entre pessoas pertencentes a grupos sociais historicamente submetidos à opressão. O termo não é apresentado como diagnóstico médico ou psicológico, mas como uma formulação teórica para pensar comportamentos atravessados pelo legado colonial e pelas estruturas de poder que permanecem na sociedade.

A imagem escolhida pelos autores é forte. O chicote representa a violência historicamente exercida sobre determinados corpos. O espelho desloca a questão para o presente e obriga a perguntar o que permanece dessa estrutura quando aquele que foi colocado na posição de oprimido passa a reproduzir sua lógica contra outro semelhante.

Ao longo de nove capítulos, Gilsam e Ivanildo percorrem 157 anos da literatura brasileira para investigar como essas relações aparecem na produção literária e continuam encontrando correspondência na contemporaneidade. A análise parte da formação colonial brasileira, acompanha os mecanismos de reprodução da violência e chega à decolonialidade como uma possibilidade de ruptura com esse ciclo.

A proposta toca em uma questão particularmente delicada porque desloca o debate para dentro dos próprios grupos sociais. Em vez de apagar a existência das estruturas históricas de desigualdade, os autores procuram discutir de que maneira seus códigos podem ser assimilados e reproduzidos inclusive por aqueles que foram atingidos por elas.

O livro, segundo a apresentação da obra, foi escrito para produzir mais inquietação do que conforto. A intenção é aproximar uma discussão teórica complexa do público sem abandonar o rigor acadêmico.

A trajetória dos autores ajuda a explicar a abordagem multidisciplinar. Gilsam Santana desenvolveu no Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural da Universidade do Estado da Bahia uma tese dedicada às experiências de educação comunitária do Afoxé Pomba de Malê, investigando corporeidade negra, memória e educação. Ivanildo Cajazeira é filósofo, pedagogo e mestre em Educação pela UFBA, além de atuar como pesquisador e professor. Em publicação acadêmica de 2025, aparece também como doutor em Filosofia e doutorando em Educação pela Universidade Federal da Bahia. 

Entre o Chicote e o Espelho está disponível para compra pela plataforma UICLAP. 

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