Jesus poderia ter repartido o cuscuz, o aipim, o bolo, o beiju, a pamonha. Decidiu repartir o pão, formando uma tradição universal sobre o alimento feito de trigo. Repartir o pão é expressão de fraternidade. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, pedimos que a rotina apenas seja como a de ontem, sem novidades que nos tornem famintos, carentes.
Então as padarias são templos onde o alimento sagrado é oferecido. Se o bar é onde o trabalhador sublima o cansaço, as vicissitudes do dia, a padaria é onde ele se prepara para elas. Cinco horas da manhã o cheiro de pão-café perfuma o ambiente, primeiro prazer dos recém-acordados. Um silêncio reside nas padarias, abrigando o matutar sobre o que vai ser a jornada, o inconformismo pela noite pouco dormida, a paz de quem quer procrastinar aquele ali.
Dona Iraci leva o saco de pão dela, de pano, estampado com flores vermelhas. Quer pão de sal, os mais moreninhos, insiste como se todo dia fosse diferente. Na chapa o ovo chiando estala. A vitrine é renovada com pastéis, carecas, broas, bolos. Durante o dia os manjares serão resgatados por quem precisa de um tiquinho de alegria gostosa.
Eu e meu primo Jai vendíamos garrafas de vidro vazias para comprar o sonho da Chinesa, que ficava ali na esquina da Getúlio com a Maria Quitéria. Era perfeitamente arredondado, com açúcar granulando a superfície corada. Eu mordia os cantos adiando o momento solene de encontrar a goiabada derretida. Auge.
Eu ainda mais novo, minha mãe (que chamava Edson Celulari de pão) prometia o prêmio pelo cansaço de bater perna na rua a manhã toda: terminar aqui vamos na Padaria da Fé comprar queijada. Dourada, com pedaços emblemáticos de coco. Chegávamos em casa felizes.
Um homem sem nome estende a mão para quem sai da padaria. Só tenho cartão, responde o cliente alimentado ao barbudo maltrapilho. Compre pra mim um pão então. Deus abençoe, diz o pedinte, mordendo um pedaço do corpo de Cristo.

