Cultura não dá voto: essa é uma frase muito repetida em mesas de análise política. Ela serve para justificar orçamentos tímidos, obras adiadas e falta de prioridade a políticas culturais efetivas pelos governos. Os números do pleito eleitoral de 2026 em Feira de Santana sugerem que talvez seja hora de aposentar essa máxima.

Em 2022, no segundo turno, ACM Neto venceu Jerônimo Rodrigues na cidade com folga: 204.662 votos (58,95%) contra 142.490 (41,05%). Uma diferença de mais de 62 mil votos, quase 18 pontos percentuais. Quatro anos depois, no primeiro turno de 2026, o placar feirense foi outro: Neto ficou com 175.603 votos (53,33%) e Jerônimo com 151.212 (45,93%). A distância caiu para pouco mais de 24 mil votos e 7,4 pontos. Em quatro anos, Jerônimo reduziu em cerca de 60% a vantagem da oposição no maior colégio eleitoral do interior baiano.

Governador da Bahia: votação em Feira de Santana

Percentual dos votos válidos na cidade

Jerônimo Rodrigues (PT) ACM Neto (União) Outros
2022, 2º turno
41,05%
58,95%
142.490 votos204.662 votos
2026, 1º turno
45,93%
53,33%
151.212 votos175.603 votos

Fonte: TSE. Em 2026, os demais candidatos somaram 0,74% dos votos válidos na cidade.

A vantagem de Neto em Feira encolheu

Diferença de votos entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues na cidade

20222º turno
62.172 votos
20261º turno
24.391 votos
−61% na diferença entre os dois candidatos em Feira de Santana, de quase 18 para 7,4 pontos percentuais.

Fonte: TSE.

A comparação entre um segundo turno e um primeiro turno é legítima neste caso: em 2026, os demais candidatos ao governo somaram menos de 1% dos votos válidos em Feira. Foi, na prática, uma nova final entre os mesmos dois nomes.

Seria possível argumentar que Feira apenas seguiu a maré estadual. Os números dizem o contrário. Na Bahia como um todo, Jerônimo passou de 52,79% no segundo turno de 2022 para 55,80% em 2026, um avanço de três pontos. Em Feira, o avanço foi de quase cinco. A queda de Neto também foi mais acentuada na cidade do que no estado. Houve, portanto, algo particular acontecendo aqui, um movimento que a tendência geral não explica sozinha.

Feira andou mais rápido que a Bahia

Variação entre o 2º turno de 2022 e o 1º turno de 2026

BahiaFeira de Santana
Jerônimo em 202252,79%41,05%
Jerônimo em 202655,80%45,93%
Crescimento de Jerônimo+3,01 pontos+4,88 pontos
Neto em 202247,21%58,95%
Neto em 202643,72%53,33%
Queda de Neto−3,49 pontos−5,62 pontos

Fonte: TSE. Percentuais sobre votos válidos.

Neto continua vencendo em Feira, é verdade. Mas a pergunta que interessa é outra: por que Jerônimo cresceu justamente aqui, acima da média baiana, num território historicamente refratário ao PT nas disputas estaduais?

O trabalho do prefeito em Feira de Santana

Seria cômodo atribuir o resultado a uma oposição acomodada. Não foi o caso. O prefeito José Ronaldo (União Brasil), popular e bem avaliado no município, entrou na campanha de 2026 com uma disposição que não se viu em 2022, e isso torna o dado ainda mais revelador.

Vale lembrar o que aconteceu há quatro anos. Ronaldo era o nome natural para a vice de ACM Neto, apoiado publicamente por aliados, e foi preterido em cima da hora, quando Neto anunciou Ana Coelho. O episódio deixou marcas profundas: pouco mais de um ano depois, em entrevista a uma rádio feirense, o então ex-prefeito chorou ao relembrar a exclusão da chapa, que classificou como um dos momentos mais duros de sua trajetória política e um equívoco de Neto. Mesmo assim, após ser cortejado por Jerônimo, permaneceu no grupo.

  • Agosto de 2022Cotado como vice de ACM Neto, José Ronaldo é preterido e Ana Coelho assume a vaga na chapa.
  • Dezembro de 2023Em entrevista à rádio Princesa FM, Ronaldo chora ao relembrar o episódio.
  • 2025Já prefeito, Ronaldo se aproxima do governador Jerônimo e recebe convites para compor chapas em 2026.
  • Julho de 2026Na convenção de Neto, chama a regulação estadual de “fila da morte”.
  • Agosto de 2026Anuncia o hospital municipal de 110 leitos e reafirma o apoio a Neto.
  • 4 de outubro de 2026Neto vence em Feira, mas Jerônimo cresce na cidade acima da média estadual e é reeleito no primeiro turno.

Em 2026, Ronaldo não economizou. No palco da convenção que oficializou a candidatura de Neto, classificou a regulação estadual de saúde como “fila da morte” e disse ao governador que seu governo havia fracassado. Anunciou um hospital municipal de 110 leitos, a primeira clínica pet da cidade, reforma de praças e atrações para a Micareta, entre outras ações. Esteve ao lado de ACM em caminhadas e carreatas pela cidade. Colocou seu capital político, que não é pequeno, inteiramente a serviço de Neto. E, ainda assim, Jerônimo cresceu.

Uma Abóbora no meio do caminho

É claro que o governo estadual também investiu em outras frentes na cidade. A ampliação do Hospital Geral Clériston Andrade e a construção de escolas de tempo integral são entregas relevantes, que melhoram a vida de milhares de feirenses. Mas são obras que o eleitor tende a enxergar como obrigação do Estado, algo que se espera de qualquer governo. Falta a elas o peso simbólico e afetivo que só a cultura carrega.

Poucos símbolos traduzem tão bem a identidade urbana de Feira quanto a Abóbora do Centro de Cultura Amélio Amorim. Gerações de feirenses cresceram vendo aquela estrutura como parte da paisagem afetiva da cidade, e também a viram definhar. Recuperá-la, em alguma medida, devolve à cidade um pedaço da sua autoimagem. Quando um governo restaura um símbolo dessa natureza, ele está dizendo à população que reconhece quem ela é.

Quando um governo restaura um símbolo dessa natureza, ele está dizendo à população que reconhece quem ela é.

O mesmo vale para o Centro de Convenções. Durante anos, a obra foi sinônimo de promessa engavetada, uma ferida aberta no imaginário de uma cidade que se sabe grande, polo econômico, entroncamento do Nordeste, mas que não tinha onde receber grandes encontros à altura do seu porte. Nem mesmo os antecessores de Jerônimo no próprio PT conseguiram tirá-la do papel. Ele conseguiu.

Construir e ocupar

Outro ponto importante que certamente mudou a percepção de parte do eleitorado foi a dinamização desses espaços: uma programação de eventos e atrações conectada às raízes culturais da cidade, fazendo a população ocupar, frequentar, ir com a família, tirar foto, compartilhar. Essa experiência é muito mais persuasiva do que qualquer peça de campanha, porque é memória vivida, não promessa.

O recado para todos os governos

Cultura dá voto.

Dá voto porque mexe com identidade, pertencimento e orgulho. Dá voto porque é visível, cotidiana e coletiva. E dá voto porque, numa cidade como Feira de Santana, tão frequentemente reduzida à condição de lugar de passagem, ter seus símbolos reconhecidos e seus espaços ocupados é uma forma de ser levada a sério.

Governos de qualquer espectro político, municipais, estaduais ou federais, deveriam olhar para esse resultado com atenção: investir em cultura não é luxo nem concessão. É investir na relação de uma cidade consigo mesma. E quem fizer isso bem, à direita ou à esquerda, será lembrado. Para o bem de Feira de Santana.

Dados eleitorais: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), resultados do 2º turno de 2022 e do 1º turno de 2026 para governador da Bahia, no estado e em Feira de Santana. Variações e diferenças calculadas pelo Feirenses.

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