O presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das casas de apostas online, as chamadas bets. A proibição alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos online. O governo justifica a decisão como resposta de saúde pública, diante do aumento da demanda no SUS por atendimentos ligados ao jogo patológico. O setor reagiu e prepara contestações no Supremo Tribunal Federal e no Congresso, que ainda precisa aprovar a medida para que ela continue em vigor.

Quando o jogo saiu da lei

O presidente Eurico Gaspar Dutra ao lado da esposa, Carmela Dutra
O presidente Eurico Gaspar Dutra e a primeira-dama, Carmela Dutra. Reprodução.

A última vez que o país fechou as portas do jogo por decisão do governo federal foi em 1946. Poucos meses depois de tomar posse, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou um decreto que proibiu os jogos de azar em todo o território nacional. O texto justificava a medida com a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro, e a decisão costuma ser associada à influência da primeira-dama, Carmela Dutra, católica fervorosa. O decreto encerrou a era dos grandes cassinos, que reuniam roletas, orquestras e os principais artistas do rádio. Fecharam casas famosas como o Cassino da Urca, no Rio, e o Quitandinha, em Petrópolis, e na Bahia a proibição atingiu o Tabaris, em Salvador, uma das mais conhecidas da noite baiana.

Em Feira de Santana, a proibição atingiu o Cassino Irajá. Nos anos 1940, a cidade crescia como entroncamento rodoviário e ponto de parada obrigatório para quem cruzava o interior baiano, e a instalação de uma companhia do Exército aumentou ainda mais o movimento. Foi nesse cenário que o comerciante Oscar Marques, conhecido como Oscar Tabaréu, abriu o Irajá em 1943, na Praça dos Remédios, com incentivo do então prefeito José Berbet Tavares. A casa oferecia roleta, bacará e shows, nos moldes dos cassinos de Salvador. Com o decreto de Dutra, o jogo acabou, mas as portas não fecharam: Oscar transformou o Irajá numa casa de espetáculos. Por ela passaram grandes orquestras e cantores como Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Sílvio Caldas.

Fachada do Cassino Irajá, em Feira de Santana
Fachada do Cassino Irajá, em Feira de Santana. Reprodução.

Oscar Tabaréu

Retrato de Oscar Ferreira Marques, o Oscar Tabaréu
Oscar Ferreira Marques, o Oscar Tabaréu. Reprodução.

Oscar Ferreira Marques chegou a Feira de Santana ainda rapaz, vindo do povoado de Anguera, para estudar no colégio do professor Leonídio Rocha. Na turma havia outros alunos com o mesmo nome, e o jeito acanhado do recém-chegado do interior lhe rendeu o apelido que o acompanharia por toda a vida: Oscar Tabaréu. Começou trabalhando no armazém do irmão, Alto Marques, e logo abriu os próprios negócios, como a Sorveteria Riviera, na Rua Direita, e o Hotel Universo. Com o tempo, tornou-se representante da Cerveja Brahma na cidade e um dos responsáveis pela criação da Rádio Cultura. Na política, foi vereador pelo PSD, deputado estadual e fundador do MDB local. Na vida social, foi irmão da Santa Casa, dirigente da Festa de Santana e um dos criadores da Micareta, que presidiu várias vezes e que mais tarde o homenageou como tema de uma de suas edições. Oscar morreu em março de 1990.

Um cassino à altura de Salvador

Nos anos 1940, o Brasil vivia o auge dos cassinos, e as grandes cidades tinham os seus salões de jogo e espetáculo. Feira de Santana queria o seu. A oportunidade veio em 1942, quando José Berbet Tavares, amigo de Oscar, foi nomeado prefeito. Atento ao crescimento da cidade, ele prometeu que Feira teria um cassino à altura dos que faziam a fama da noite de Salvador, como o Tabaris e o do Palace Hotel. Oscar comprou uma área na Praça dos Remédios e, no ano seguinte, inaugurou o Irajá. A cidade ganhava uma casa noturna para receber os viajantes que paravam no entroncamento, os militares da companhia do Exército e a elite local.

Dançarinas do Tabaris Night Club, em Salvador
Dançarinas do Tabaris Night Club, em Salvador, uma das casas que serviam de referência para o Irajá. Reprodução.

O Irajá tinha regras próprias. Os homens só entravam de terno e gravata. Em entrevista ao jornalista José Carlos Pedreira, o Zé Coió, publicada na Revista Hoje em 1984, Oscar disse que a casa funcionava como uma escola: segundo ele, ali se aprendia a dançar e a tratar uma dama, buscando-a na mesa e levando-a de volta ao fim da música. As dançarinas vinham de várias partes do país e moravam em apartamentos do próprio cassino ou em hotéis da cidade. Além da orquestra da casa, um conjunto de cordas, piano e acordeom, regido pelo maestro Leonel Brito, tocava nos intervalos, e alguns desses músicos seguiram carreira em orquestras do Sul do país. Na mesma entrevista, Oscar contou que, numa mesma noite, recebeu três gerações de uma família, avô, pai e filho.

Numa mesma noite, o Irajá recebeu avô, pai e filho da mesma família.

Uma noite feita por homens

Os relatos sobre o Irajá também revelam a moral da época. As senhoras e moças da sociedade não frequentavam a casa: só podiam assistir aos espetáculos quando eram levados ao Feira Tênis Clube e ao Cinema Iris. No salão, as únicas mulheres eram as dançarinas, trazidas de fora para acompanhar os homens noite adentro. Ao lembrar delas na entrevista a Zé Coió, Oscar disse que “o Irajá as importava de todas as partes”, e as descreveu pela beleza, pela maquiagem e pela disposição para as noitadas. O fato de morarem no próprio cassino reforça o que a memória oficial preferiu não dizer. O escritor Marilton Carvalho, no livro “100 anos de amor, paixão e sexo”, que mistura lembranças e ficção, é mais direto. Ele descreve a casa como um cabaré, com quartos no próprio prédio e movimento maior nos dias de pagamento, e conta que as moças fingiam ser estrangeiras porque isso “valorizava o produto”. Entre a versão elegante de Oscar e a de Marilton, fica o retrato de uma noite feita por homens e para homens, em que as mulheres eram parte da atração.

Duas versões da mesma noite

O Irajá as importava de todas as partes
Oscar MarquesDono do cassino, em entrevista a Zé Coió, 1984
Valorizava o produto
Marilton CarvalhoSobre as moças que fingiam ser estrangeiras, no livro “100 anos de amor, paixão e sexo”

As senhoras da sociedade não entravam no salão. As únicas mulheres ali eram as dançarinas, trazidas de fora e hospedadas no próprio cassino.

O paradoxo

A lista de frequentadores do Irajá guarda um paradoxo. Na entrevista a Zé Coió, Oscar citou entre os habitués o delegado regional Jorge Leal, o deputado Humberto Alencar e toda a oficialidade do Exército, além dos homens mais importantes da cidade. Marilton Carvalho acrescenta ao salão juízes, advogados e funcionários públicos graduados. Eram justamente os responsáveis por fazer cumprir a lei que dividiam as mesas de uma casa onde, ao que tudo indica, os encontros com as dançarinas iam além da pista de dança.

Na plateia do Irajá

  • O delegado regional Jorge Leal
  • O deputado Humberto Alencar
  • Toda a oficialidade do Exército
  • Juízes, advogados e funcionários públicos graduados

Fontes: entrevista de Oscar Marques a Zé Coió (1984) e livro de Marilton Carvalho.

A proibição do jogo também parece não ter sido cumprida à risca. No fim dos anos 1950, uma nota da Gazeta do Povo, recuperada pelo Blog Por Simas, noticiou a inauguração de um cassino na Euterpe Feirense, com mesas de roleta, que passava a concorrer com o “famoso Cassino Irajá”.

Roleta na Euterpe, em concorrência com o “famoso Cassino Irajá”

Nota da Gazeta do Povo, fim dos anos 1950, mais de uma década depois da proibição do jogo

Referências

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