Entre relatos de generosidade, disputas por terras e lembranças de saraus, a trajetória de Ernestina Carneiro se entrelaça com a formação de um dos bairros mais negros e musicais de Feira de Santana.
Há quem diga que ela doava terrenos aos pobres. Outros contam que vendia por preços baixos, facilitava o pagamento e até permitia que famílias construíssem suas casas antes de pagar. Pesquisadores, por sua vez, questionam a romantização dessa história e chamam atenção para as relações de propriedade e aforamento que marcaram a formação do bairro Rua Nova, em Feira de Santana.
Mas, para muitos moradores, especialmente aqueles que conheceram Dona Pomba ou cresceram ouvindo histórias sobre ela, Ernestina Carneiro foi muito mais do que uma proprietária de terras. Foi uma mulher que abriu caminhos para famílias que dificilmente teriam condições de conquistar um lugar para morar.
Conhecida como Dona Pomba, Ernestina era proprietária de uma extensa área de terras da antiga Fazenda São Gonçalo, onde se desenvolveu o bairro Rua Nova. A partir do início da década de 1940, famílias vindas da zona rural de Feira de Santana, do Recôncavo Baiano e de outras regiões passaram a se estabelecer naquela área.
A história mais conhecida é a de uma mulher generosa, que acolhia os mais pobres e permitia a construção de casas em suas terras. Essa versão atravessou gerações e ajudou a transformar Dona Pomba em uma personagem quase maternal na memória coletiva da comunidade.
Entretanto, as pesquisas acadêmicas mostram que o processo de ocupação foi mais complexo.
Estudos sobre a formação da Rua Nova identificam diferentes modalidades de acesso à terra, incluindo doações, vendas parceladas e aforamentos, sistema em que o morador podia utilizar um terreno mediante determinadas condições, sem necessariamente adquirir sua propriedade plena.
A historiografia também questiona a ideia de que o bairro tenha surgido exclusivamente da generosidade de uma única pessoa. A Rua Nova foi construída pelo esforço de centenas de famílias, muitas delas negras e pobres, que ergueram suas próprias casas, abriram caminhos, organizaram a vida comunitária e enfrentaram dificuldades para garantir moradia e infraestrutura.
A pesquisadora Késsia da Santa Cruz Conceição, que estudou a formação histórica e social do bairro, contribui para compreender a ocupação da Rua Nova como parte de um processo mais amplo de urbanização, desigualdade racial e resistência da população negra.
Isso, no entanto, não apaga o que permanece vivo na lembrança de quem conheceu Ernestina.
Para compreender a importância daquele pedaço de chão, é preciso lembrar que o Brasil havia abolido oficialmente a escravidão em 1888, sem garantir à população negra liberta o acesso à terra, à moradia ou a condições dignas de sobrevivência. Décadas depois, os efeitos dessa exclusão permaneciam profundos. Sem recursos para adquirir imóveis e frequentemente empurradas para áreas desprovidas de infraestrutura e serviços públicos, famílias negras encontravam na ocupação das periferias uma possibilidade de sobrevivência. Era um processo de precarização urbana, mas também de resistência coletiva. Ao mesmo tempo em que se formavam comunidades em condições semelhantes às das favelas, construíam-se redes de solidariedade, proteção, trabalho, religiosidade e pertencimento. Na Rua Nova, esse movimento também pode ser compreendido como uma forma de aquilombamento urbano, em que a população negra não apenas conquistava um lugar para morar, mas criava condições para preservar sua identidade, sua cultura e seus vínculos comunitários.
A mulher que os moradores não esqueceram
Em conversas com moradores da Rua Nova, a reportagem ouviu repetidamente uma versão carregada de afeto. Para muitos, Dona Pomba foi uma mulher extraordinariamente bondosa, alguém que compreendia as dificuldades dos mais pobres e não lhes fechava as portas.
Essa memória encontra eco em depoimentos preservados por pesquisadores. Alguns moradores relatam que havia quem pagasse pequenas quantias pelos terrenos, enquanto outros permaneciam sem pagar e, ainda assim, não eram impedidos de morar.
O músico Jorge de Angélica, um dos maiores representantes culturais do bairro, também deixou registrado que Dona Pomba vendia terrenos em condições facilitadas, com prestações longas, e permitia que as pessoas construíssem suas casas antes de acertar o pagamento.
São lembranças que ajudam a explicar por que, mesmo diante das controvérsias históricas, Ernestina continua sendo tratada com profunda gratidão por parte da comunidade.
A disputa pelas terras após a morte de Dona Pomba
A morte de Dona Pomba, no início da década de 1970, abriu um novo capítulo na história da Rua Nova. As terras que haviam permitido a centenas de famílias construir suas casas passaram a ser objeto de reivindicações por parte de pessoas que se apresentavam como herdeiras da antiga proprietária. A situação colocou em risco a segurança fundiária de moradores que já haviam estabelecido suas vidas na comunidade.
Uma reportagem publicada pelo Blog da Feira recupera esse episódio ao relatar que, após a morte de Ernestina, herdeiros tentaram reaver judicialmente terrenos que haviam sido cedidos à população. O registro acrescenta uma dimensão importante à história da mulher lembrada pela generosidade: a permanência das famílias nas terras não estava necessariamente assegurada do ponto de vista jurídico.
A disputa também aparece na pesquisa Um Quilombo Urbano Chamado Rua Nova, de Flávia Santana Santos, que reúne depoimentos de antigos moradores sobre a formação do bairro. Um dos entrevistados identifica integrantes da família Mota como responsáveis por reivindicações sobre os terrenos. Segundo o relato, a associação de moradores se organizou para enfrentar a situação, recorrendo à Justiça em ações que teriam envolvido mais de 300 pessoas, entre 1975 e 1976.
O depoimento também menciona a atuação da advogada Ana Rita Lima Braga e uma estratégia adotada pelos moradores para demonstrar o cumprimento de suas obrigações: o depósito judicial dos valores referentes aos aforamentos. Esse sistema permitia a utilização dos terrenos mediante determinadas condições, mas não garantia necessariamente a propriedade plena dos imóveis. A pesquisa registra ainda iniciativas posteriores de regularização por usucapião, instrumento jurídico que permite o reconhecimento da propriedade quando preenchidos os requisitos previstos em lei.
As famílias que haviam construído suas casas nas terras de Dona Pomba precisaram se organizar coletivamente para defender sua permanência.
Esses relatos revelam uma dimensão menos conhecida da história da Rua Nova. As famílias que haviam construído suas casas nas terras de Dona Pomba precisaram se organizar coletivamente para defender sua permanência. A mobilização da associação de moradores demonstra que a consolidação do bairro não dependeu apenas das concessões feitas pela antiga proprietária, mas também da resistência de uma comunidade que buscava assegurar o direito à moradia.
Décadas depois, a questão fundiária ainda mobilizava a comunidade. Em 30 de outubro de 2017, o vereador Ewerton Carneiro, conhecido como Tom, levou à tribuna da Câmara Municipal de Feira de Santana a reivindicação de moradores da Rua Nova que continuavam sem escrituras de seus imóveis. O episódio foi registrado em reportagem pelo Jornal Grande Bahia.
Na ocasião, o parlamentar afirmou ter sido procurado por moradores que aguardavam havia anos uma solução para o problema. Ele defendeu a aplicação da Lei Federal nº 13.465/2017, que estabelece mecanismos para a regularização fundiária urbana e rural, e anunciou uma reunião com a comunidade para discutir os encaminhamentos necessários à legalização dos imóveis. Durante a sessão, outros vereadores também manifestaram apoio à reivindicação e destacaram a responsabilidade do poder público municipal no processo.
Uma mulher, a arte e a formação de um bairro musical
Existe outra dimensão da memória de Dona Pomba que merece ser conhecida.
Moradores também descrevem Ernestina como uma mulher culta, ligada à música, à arte e aos encontros culturais. Segundo relatos recolhidos no bairro pela reportagem, sua convivência com a comunidade proporcionava oportunidades de contato com saraus e outras manifestações artísticas.
Essas lembranças, difundidas pela oralidade dos moradores, revelam uma personagem cuja influência, na memória coletiva, não se restringia à distribuição de terras.
E é impossível falar da Rua Nova sem falar de música.
O bairro se tornou um dos principais territórios de produção e preservação da cultura negra em Feira de Santana. Seus tambores, afoxés, escolas de samba, grupos de reggae e rodas de samba atravessaram gerações, transformando a comunidade em um verdadeiro celeiro de artistas.
Foi na Rua Nova que Jorge de Angélica encontrou as referências culturais que marcariam sua trajetória. Jorge cresceu artisticamente em contato com os terreiros, a percussão e a musicalidade do bairro. Tornou-se um dos grandes nomes do reggae feirense e dedicou parte de sua vida à formação de crianças e adolescentes por meio da música.
A Rua Nova também está ligada às trajetórias de Tonho Dionorina, Gilsam e Paula Sanffer, artistas que ajudaram a projetar a produção musical feirense.
Antes deles, a comunidade já pulsava ao ritmo das escolas de samba. Uma das principais referências foi Mãe Socorro, Maria do Socorro Romão, importante liderança religiosa do candomblé em Feira de Santana e fundadora da Escravos do Oriente, escola de samba criada em 1960, que se tornou uma das mais tradicionais da Micareta.
Sua atuação ultrapassava o carnaval. Como mãe de santo, Mãe Socorro também contribuiu para preservar e difundir manifestações culturais de matriz africana, estabelecendo conexões entre religiosidade, música e identidade negra.
Outras agremiações, como a Unidos de Padre Ovídio e a Império Feirense, ajudaram a fortalecer essa tradição. Também surgiram cordões, batucadas e afoxés, entre eles o Pomba de Malê, cujo nome homenageia Dona Pomba e faz referência à resistência histórica da população negra.
Criado por Nilton Rasta, músico, artesão e importante liderança cultural do bairro, o Pomba de Malê tornou-se um dos símbolos dessa identidade. Nilton faleceu em setembro de 2025, deixando um legado de valorização da cultura afro-brasileira.
A tradição musical também atravessou o tempo e alcançou outros gêneros.
Foi na Rua Nova que o cantor André Lopes desenvolveu sua formação musical, influenciado pelos blocos afro e pelas manifestações culturais da comunidade. Ao lado de amigos e familiares, fundou o grupo Sem Mais Nem Menos, uma das referências do samba e do pagode feirense, que completou 25 anos de trajetória em 2026.
O grupo nasceu da convivência entre músicos do bairro e ajudou a fortalecer as rodas de samba da cidade. André faz questão de reconhecer a influência da Rua Nova em sua trajetória, mantendo viva, nas apresentações e composições, a ligação com suas origens.
Essa capacidade de formar artistas não ficou restrita ao passado. A comunidade continua produzindo novos talentos e preservando tradições, como demonstra a atuação de projetos musicais e grupos afro que oferecem oportunidades de formação artística às novas gerações.
É possível que os encontros culturais associados à memória de Dona Pomba tenham contribuído para esse ambiente de valorização da arte. Mas a musicalidade da Rua Nova também tem raízes profundas nas tradições afro-brasileiras, nos terreiros de candomblé, na migração de famílias negras e na organização cultural da própria comunidade.
Uma história que não cabe em uma única versão
Em 2025, a Rua Nova foi reconhecida oficialmente como bem cultural de natureza imaterial de Feira de Santana. O reconhecimento reforça a importância de preservar a memória, as tradições e as manifestações culturais de um bairro que ajudou a construir a identidade da cidade.
A trajetória de Dona Pomba continua cercada de questões que merecem investigação. Nossa pesquisa não encontrou respostas para perguntas como: Qual foi a origem de suas propriedades? Quantas famílias receberam terrenos gratuitamente? Quantas pagaram por eles? Como funcionavam os aforamentos? E qual foi, efetivamente, sua participação na vida cultural da comunidade?
A história não precisa necessariamente dessas respostas para reconhecer sua importância.
É possível compreender que Dona Pomba era uma proprietária de terras, inserida nas relações econômicas e sociais de sua época, e, ao mesmo tempo, reconhecer que suas atitudes foram decisivas na vida de muitas famílias.
Ernestina exerceu uma capacidade de decisão que deixou consequências duradouras na formação urbana de Feira de Santana.
Em um período em que a propriedade da terra, a autonomia econômica e a participação feminina na vida pública eram profundamente marcadas por desigualdades, Ernestina exerceu uma capacidade de decisão que deixou consequências duradouras na formação urbana de Feira de Santana.
Talvez Dona Pomba não tenha sido exatamente a personagem idealizada pela memória popular. Talvez sua história seja mais complexa do que a imagem de uma mulher que simplesmente distribuía terrenos por bondade.
Mas há algo que as diferentes versões não eliminam: nas terras que um dia lhe pertenceram, centenas de famílias construíram suas casas, suas histórias, suas possibilidades de futuro e parte da identidade cultural de Feira de Santana.
Dona Pomba pode não ter construído sozinha a Rua Nova. Mas, para muitos daqueles que fizeram do bairro seu lar, foi ela quem permitiu que essa história começasse.

