O dublê é um profissional do cinema que geralmente se dispõe a correr riscos no lugar do ator principal. Enquanto a estrela do filme é reconhecida, tem seu rosto estampado em cartazes, concede entrevistas e recebe os maiores reconhecimentos pela obra, o dublê o substitui nos momentos de perrengue: a cena com salto, rolamento, queda, corrida. Embora as palavras tenham origem comum, o dublê exerce ofício distinto do dublador, que apenas empresta a voz à personagem. Ambos substituem, de certo jeito, o ator, mas o dublê assume riscos, é colocado no lugar da celebridade por ser capaz de fazer alguma peripécia que o dono do papel não se dispõe a realizar.
Certamente vem daí a intencionalidade por trás da expressão corrente em Feira de Santana apontando a proliferação dos chamados “dublês de rico”. Quem na cidade não conhece o caso de uma figura que esboçou sinais de prosperidade, carros de luxo, viagens dispendiosas, hábitos caros para então ser descoberta como autora de delitos, dívidas ou corrupções? Às vezes até surpreende como tais figuras povoam solenemente a vida pública do município.
Roberto DaMatta já tinha notado esse traço do povo brasileiro: “diferentemente dos ladrões de outros países, que roubam e somem no mundo, os nossos são forçados pela ‘lei relacional da inveja’ a retornar ao lugar natal para mostrar aos seus parentes, amigos e, acima de tudo, inimigos, como estão ricos e, nisso, são denunciados, presos, soltos e finalmente colocados no panteão cada vez mais extenso dos canalhas nacionais”. O antropólogo é taxativo na tese de que a inveja é o sentimento básico do Brasil. “Não há brasileiro que não goste de ser invejado por alguma coisa. Pelo salário, pelo poder, pela beleza, pelo sucesso, pela inteligência e até mesmo pelas sacanagens, injustiças, calúnias, e descalabros que comete”, diz ele em um dos textos de Crônicas da Vida e da Morte (2012).
Neste 2026, impossível não lembrar a agitadíssima vida de Daniel Vorcaro, dublê de bilionário que movimentou os bastidores do poder no Brasil com festas e favores milionários para autoridades da República. Não foram poucos os protestos bem-humorados, e em alguma dimensão sinceros, de quem não fez parte dos badalados programas do banqueiro. É até de se perguntar em que medida a novelização cômica desse personagem não reduziu o impacto eleitoral que deveriam ter suas relações com candidatos hoje eleitos ou com chances reais de eleição.
Ostentação
Os mecanismos que induzem à formação dos tais dublês de rico parecem algo distante, mas estão bastante distribuídos entre nós: se o consumo é a forma de dignidade mais óbvia para a maioria de nós, se o relógio, o carro, o lugar onde moro e que frequento me credenciam a estar socialmente melhor posicionado, faz sentido ostentar para conseguir um lugar ao sol. A cultura vigente crescentemente incentiva essa postura.
As músicas que tocam no rádio e nos paredões estão carregadas de letras exaltando bens de consumo indisponíveis para a maioria dos brasileiros, quase sempre como um marco de vitória e poder. Hilux, Dodge Ram, Lacoste, Rolex e Black Label são exemplos de marcas que aparecem em gêneros atualmente conhecidos como agronejo, agrofunk, funk, trap, pagode ostentação, entre outros.
Na contramão dessa tendência, o baiano Igor Kannário até fez uma música criticando esse universo:
Você ostenta o que não tem pra tentar parecer mais feliz, mas não sabe que pra ser alguém tem que agir ao contrário do que você diz. Você pensa que tem liberdade exibindo riqueza e poder, mas não vê que na realidade o sistema é que lucra usando você.
Desostenta, Igor Kannário
Na cidade em que a comercialização de réplicas e produtos piratas fez fama nacional, não é de se espantar que a cultura da ostentação tenha aqui morada especial com peculiaridades próprias. No fundo, a ostentação é a forma visível e individual de disputar um lugar numa estrutura em que a riqueza de fato é discreta e concentrada.
A ostentação é a forma visível e individual de disputar um lugar numa estrutura em que a riqueza de fato é discreta e concentrada.
Feira de Santana tem ricos?
Numa cidade que se construiu sobre o comércio popular, a impressão é que Feira não tem pessoas que possam ser consideradas de classe alta. Mas os dados disponibilizados pela Receita Federal com os rendimentos e patrimônios declarados em Feira apontam em outra direção. Os ricos existem, embora sejam proporcionalmente poucos em relação à massa da população.
Dos cerca de 616 mil habitantes de Feira, 91.239 entregaram declaração à Receita Federal, algo como 15% da população. Desse grupo, que já é um recorte de quem tem renda formal acima do limite de isenção, apenas 549 pessoas declararam rendimentos superiores a R$ 1,2 milhão no ano. São 0,6% dos declarantes, ou cerca de nove em cada dez mil feirenses.
De cada 10 mil feirenses
- 8.519 não entregam declaração de Imposto de Renda: têm renda abaixo do limite que obriga a declarar ou não têm renda própria, como crianças e dependentes
- 1.481 entregam declaração
- 9 declaram renda acima de R$ 1,2 milhão por ano
Os números desse topo destoam de tudo ao redor. A renda média dessas 549 pessoas é de R$ 3,9 milhões por ano, cerca de R$ 325 mil por mês, mais de trinta vezes a média dos próprios declarantes da cidade (R$ 10,6 mil mensais). O patrimônio médio declarado chega a R$ 12,5 milhões. Juntas, elas recebem cerca de 18% de toda a renda declarada em Feira e detêm aproximadamente um terço de todos os bens informados ao Fisco no município. Ampliando um pouco a lente, os 3.440 declarantes com patrimônio acima de R$ 1 milhão, menos de 4% do total, concentram cerca de dois terços da riqueza declarada na cidade.
Quantos salários mínimos por mês
Salário mínimo (R$ 1.621)1
Média dos declarantes de Feira (R$ 10,6 mil)6,5
Média dos 549 mais ricos (R$ 325 mil)200
O perfil desse grupo também tem contornos nítidos: 73% são homens, a idade média passa dos 52 anos e quase sete em cada dez declaram cônjuge. Mais revelador é de onde vem o dinheiro. Só 7% da renda dos mais ricos de Feira é tributável. O restante chega como lucros, dividendos e aplicações financeiras, isentos ou de tributação exclusiva. O resultado é que o imposto devido médio, de R$ 55 mil, corresponde a cerca de 1,4% da renda total, enquanto a classe média alta assalariada da cidade compromete algo próximo de 10%. O rico feirense, em regra, não vive de salário.
O rico feirense, em regra, não vive de salário.
Nada disso faz de Feira uma exceção. No Brasil, os declarantes com renda acima de R$ 1,2 milhão são 1,1% do total, ganham em média R$ 367 mil por mês, têm patrimônio médio de R$ 13,9 milhões e concentram cerca de 37% dos bens declarados. Feira é uma miniatura desse padrão nacional: uma elite proporcionalmente menor, mas com o mesmo modo de enriquecer e a mesma capacidade de concentrar. E os números ainda subestimam o quadro, porque imóveis e outros bens são informados ao Fisco pelo valor de aquisição, não pelo de mercado.
Os dados são da Receita Federal e se contrapõem a certa ingenuidade feirense de que a riqueza por aqui é fingida ou simulada. Tal qual ocorre no Brasil, Feira tem altíssima concentração de renda, desigualdade que replica o padrão nacional — uma das maiores do mundo — e, portanto, está sujeita ao mesmo desequilíbrio estrutural reconhecido no país.
Dublês de Coletividade
Não é difícil entender que, num cenário cultural de incentivo à individualidade consumista, em tempos algorítmicos de simulação de realidades prósperas, grande parte da população busque formas de alcançar legitimidade social por meios próprios, “empreendendo”, “matando um leão por dia”, conquistando seus objetivos a partir do “próprio esforço”, “meritocraticamente”.
Não basta dizer que o padrão de consumo idealizado por essa cultura, caso fosse democratizado, tornaria inviável a vida no planeta. Não basta apontar que o modelo de ascensão social ensinado pelos gurus do marketing digital tem limitações piramidais, que tornam esses gurus milionários e sua base de seguidores sustentáculos dessa riqueza. Não basta dizer que problemas estruturais não são resolvidos apenas com mindset ou força de vontade.
Até porque as exceções estão aí para confirmar a regra: o esforço individual às vezes funciona, e cada qual sabe que certas lutas pessoais garantem, sim, um tanto de sobrevivência, de vez em quando um conforto, um dois alto no aperto de mente. A pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado é quem melhor tem descrito esse cenário:
“Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.”
Há alguns anos ficou fora de moda falar em coletivos, associações comunitárias, sindicatos, trabalhar em rede, buscar visões de mundo que não sejam tão dependentes do esforço individual. Essas organizações, salvo raras exceções, quase sempre têm atuado como satélites de burocracias governamentais ou surgem de maneira oportunista com objetivos meramente financeiros, para depois se desmobilizar. Ou seja, dublês de coletividade.
Um desafio que este momento histórico impõe é a retomada da construção de uma gramática comunitária, coletivista, para lidar com as questões que o século XXI nos traz. Até aqui esse trabalho tem sido quase exclusivo das igrejas evangélicas nas periferias das cidades, a exemplo de Feira de Santana. Não é uma tarefa para o curto prazo, mas é um caminho inevitável construir teias que se conectem com os problemas reais de uma sociedade que ainda não sabe lidar com a digitalização das relações, a inteligência artificial, os dilemas ambientais e as instituições públicas desacreditadas.
Ou nos formamos artesanalmente no idioma do coletivo, ou sempre parecerá mais simples a via individualista, nem que seja pela via da ostentação e simulação inócua.

