Tese do pesquisador Fábio Santana Nunes mostra que a expressão já aparecia na imprensa feirense em 1899, duas décadas antes do famoso discurso de Rui Barbosa que costuma ser apontado como origem da alcunha

Por gerações, uma história foi repetida em Feira de Santana: teria sido Rui Barbosa quem batizou a cidade de “Princesa do Sertão”, durante uma visita em 1919. A frase atravessou décadas, ganhou espaço na memória popular e acabou incorporada à própria identidade feirense.

Os documentos históricos, porém, contam uma história diferente.

Uma pesquisa do professor Fábio Santana Nunes encontrou registros do uso da expressão “Princesa do Sertão” em Feira de Santana pelo menos 20 anos antes da passagem de Rui Barbosa pela cidade. A descoberta aparece em sua tese de doutorado, que investigou aspectos da vida urbana e dos divertimentos em Feira entre o fim do século XIX e o início do XX.

O registro apresentado pelo pesquisador é de 2 de julho de 1899. Naquela data, o jornal feirense O Propulsor publicou um texto que já se referia à cidade como “princesa do sertão”.

A descoberta coloca em xeque não o fato de Rui Barbosa ter usado a expressão, algo documentado, mas a ideia de que tenha sido ele o seu criador.

A “Princesa” já existia em 1899

Na tese, Fábio Nunes discute justamente a construção dessa imagem de Feira de Santana. Segundo o pesquisador, a representação de “Princesa” estava relacionada a projetos de civilização e memória que apresentavam Feira como uma cidade em processo de afirmação urbana e com papel de destaque no cenário baiano.

É nesse contexto que aparece o registro de 1899.

Na edição nº 142 de O Propulsor, publicada no dia em que se comemorava a Independência da Bahia, o jornal exaltava as características da região e o que considerava o caráter trabalhador de seus habitantes. Em determinado momento, dizia que Feira caminhava para que “a princesa do sertão” disputasse o lugar de destaque a que teria direito.

O documento é particularmente importante pela data: 2 de julho de 1899.

Rui Barbosa só faria sua famosa visita a Feira de Santana em dezembro de 1919.

E esse não foi um uso isolado.

A própria tese registra que, em 1º de dezembro de 1901, outra edição de O Propulsor se referiu a Feira como “a encantadora princesa do sertão da Bahia”. Ou seja, 18 anos antes da passagem de Rui Barbosa, a alcunha continuava circulando na imprensa local.

Rui Barbosa “sacramentou” a expressão

Rui Barbosa efetivamente chamou Feira de Santana de “Princesa do Sertão”.

O episódio aconteceu em 25 de dezembro de 1919, durante uma conferência realizada no Cine-Theatro Sant’Anna. Em sua fala, Rui declarou:

“nesta romagem pelos sertões e pelo recôncavo, de Vila Nova da Rainha à Feira de Santana, da antiga corte sertaneja à bela Princesa do Sertão”.

A tese referencia o discurso a partir da obra de Rui Barbosa publicada em 1988.

O que a pesquisa de Fábio Nunes altera, portanto, é a interpretação tradicional sobre a autoria.

Ao confrontar as datas, o próprio pesquisador lança a questão: se o epíteto tivesse surgido naquela conferência de Rui Barbosa, como explicar que um jornal de Feira já utilizasse a expressão em 1899?

A documentação permite afirmar que Rui Barbosa não inaugurou o uso conhecido da expressão. Quando chegou a Feira e pronunciou “bela princesa do sertão”, o título já circulava havia pelo menos duas décadas.

Antes de Rui, a expressão já ultrapassava os jornais de Feira

Há outro dado importante na pesquisa.

Entre o registro de O Propulsor e a visita de Rui Barbosa, a alcunha continuou aparecendo. A tese aponta que jornais de 1910 já empregavam “Princesa do Sertão”. Naquele período, Feira também era chamada por outro título curioso: “Petrópolis Baiana”, denominação associada a Joaquim dos Remédios Monteiro e às referências ao clima ameno da cidade. Talvez aqui, Monteiro estivesse falando das noites na cidade.

Mais significativo ainda é um registro de 1916 citado pelo pesquisador: a expressão “Princesa do Sertão” aparece no Diário Oficial do Estado da Bahia, na reprodução de um discurso da professora Mille Marília Carneiro de Souza, feito durante a inauguração de um grupo escolar em Feira de Santana.

Era três anos antes da visita de Rui.

Assim, a cronologia encontrada na pesquisa mostra uma circulação continuada do título:

1899: O Propulsor registra “princesa do sertão”;
1901: o mesmo periódico publica “a encantadora princesa do sertão da Bahia”;
1910: a alcunha aparece novamente nos jornais;
1916: a expressão está registrada no Diário Oficial do Estado da Bahia;
1919: Rui Barbosa chama Feira de “bela princesa do sertão”.

Uma princesa entre o rural e o urbano

A pesquisa também ajuda a compreender por que essa denominação fazia sentido naquele período.

Feira ocupava uma posição peculiar. Geograficamente localizada no Agreste, zona de transição entre a Zona da Mata e o Sertão, a cidade consolidou sua identidade histórica profundamente associada ao sertão. É nesse cenário que, segundo a tese, ela acaba consagrada como “Princesa do Sertão”.

Mas a “Princesa” retratada nos discursos de modernidade estava longe de ser uma cidade uniformemente urbanizada.

A tese chama atenção para essa contradição. Enquanto o centro construía uma imagem de progresso, os subúrbios ainda apresentavam lagoas, pequenas caatingas, roças e moradias simples. Regiões como Queimadinha, Rua do Fogo, Olhos D’Água e áreas próximas à linha férrea aparecem nas fontes como espaços ocupados por trabalhadores da estrada de ferro, lavradores, operários, oleiros, pedreiros e trabalhadores domésticos. O próprio autor pondera que não seria prudente falar em um grande processo de urbanização de Feira naquele período.

Isso torna o título ainda mais interessante historicamente. “Princesa do Sertão” não era apenas uma descrição da cidade que existia. Também ajudava a construir uma representação da cidade que determinadas parcelas da sociedade desejavam afirmar: urbana, progressista e relevante para a Bahia.

Então quem criou “Princesa do Sertão”?

Essa é a pergunta que permanece aberta.

A pesquisa derruba a cronologia que coloca Rui Barbosa como autor da expressão, mas o documento de 1899 não permite concluir quem a criou. Ele demonstra que o título já estava em circulação naquele ano, não necessariamente que tenha surgido ali.

Também é possível que registros ainda mais antigos existam.

O que os documentos permitem afirmar é algo diferente e historicamente relevante: quando Rui Barbosa subiu ao palco do Cine-Theatro Sant’Anna, em 25 de dezembro de 1919, e pronunciou as palavras que entrariam para a memória da cidade, Feira já era chamada de Princesa do Sertão havia pelo menos 20 anos.

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