Os depósitos de bebida são um tipo de negócio que cresceu em Feira nos últimos anos. Não é dado de nenhum instituto, só achismo. Olhando bem, os donos de depósito são sagazes: vendem a mesma bebida dos bares e não precisam tolerar bêbados. No bar de Carmem mesmo tem um galego chatíssimo, que fala se aproximando e pegando na orelha do interlocutor, chamando-o de primo. Banheiro fedorento, sujo.

A saideira, a saideira, só essa. Cada mesa tem um assunto importantíssimo que precisa de continuidade justamente quando o bar está fechando. O dono do bar que se vire com o horário do aniversário da filha. Em que outro momento se falará sobre assuntos de morte ou vida como o acesso do Fluminense de Feira para a série A do baiano? Os bêbados abusaram da boa vontade, então a cerveja passou a ser despachada dentro de sacolas plásticas para não correr o risco de ser aberta. Em alguns depósitos há grades explícitas, coagindo o cachaceiro à prisão de não beber onde se compra a bebida.

As áreas gurmês de porcelanato creme e paredes brancas ajudaram a justificar esses estabelecimentos. A pessoa compra a cerveja, carne, carvão e faz um churrasco com os vizinhos de condomínio. Pra que melhor que isso? Seguro, as crianças ficam à vontade usufruindo dos joguinhos no celular, assistindo vídeos divertidos. Um vizinho conta da potência do carro novo, outro da viagem às vinícolas do Chile, o inventor do churrasco mostra o grave da caixa de som imbatível.

No bar dificilmente se encontram famílias felizes. É lugar de desajustados, inconformados, melancólicos, solitários, magoados, cansados, preocupados. Ali riem da desgraça, ou a contemplam através de um silêncio embalado pela embriaguez. Entre um copo e outro, Tó mente um desdém pela mulher ter saído de casa. Saiu, cabeça de gente é brincadeira, ela com cinquenta e quatro anos e arte. É bom que eu gasto menos, mas foi. Robinho vem conferir o bicho com a esperança de pagar as dívidas, acabar as brigas em casa, demitir o chefe. Juarez senta no balcão e pouco conversa. Ninguém sabe de nada que aconteceu com ele, só é triste.

O dono do depósito não precisa lidar com nada disso.

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