Junho é o mês em que um nordestino que se preze se torna maratonista de forró. Neste ano de 2026 o São João caiu numa quarta feira, ou seja, obrigatoriamente, os festejos oficiais precisaram começar no fim de semana anterior e continuar no seguinte, afinal, São Pedro é logo ali. Várias cidades, nos 9 estados do Nordeste, estão celebrando São João de forma majestosa. Mas aqui, neste texto, eu vou puxar a sardinha para nossa brasa.
Quantos Nordestes cabem na Bahia?
A impressão que eu tenho é que há vários Nordestes aqui. São 417 municípios, 417 jeitos de falar, 417 formas de viver, 417 maneiras de celebrar a mesma tradição no Recôncavo, no sertão, no semiárido, no litoral. E apesar de tantas nuances, temos algumas unanimidades: Rastapé, sanfona, forró, e todas as delícias que fazem com que junho tenha cheiro e sabor; amendoim cozido, milho, bolo de aipim, briga se alguém fala que mungunzá é canjica, são itens obrigatórios.
O licorzinho famoso de Cachoeira, que deixa de ser só de lá e vira um símbolo da Bahia inteira. Aliás, tomar licor no São João é um costume baiano. Em vários estados do Nordeste isso sequer é conhecido, muito menos é tradição como aqui.
É mágico ver como costumes tão específicos de um lugar acabam virando patrimônio afetivo de um povo inteiro.
A gente quase viu a essência do São João se perder em muitos momentos. Parecia que as festas juninas estavam sendo engolidas por uma lógica de entretenimento genérico. Tudo começava a parecer a mesma festa em todo lugar, em qualquer época do Brasil. Mas o São João é nosso e foi reivindicado pela força do povo.
Ao que parece, gestores públicos entenderam, depois da pressão popular e de órgãos fiscalizadores, que uma festa como essa não é um gesto vazio. E me parece justo reconhecer o papel dos que se comprometeram em devolver a cara do São João.
Quando a gente olha para os números da Bahia, entende melhor a dimensão dessa festa. Somando os investimentos declarados pelas prefeituras baianas e pelo Governo do Estado, o valor destinado aos festejos juninos em 2026 chegou a R$ 637,9 milhões, segundo o Painel de Transparência dos Festejos Juninos, coordenado pelo Ministério Público da Bahia. Foram 410 municípios com dados informados, o equivalente a 98,3% de adesão em todo o estado, além de 4.639 contratações de apresentações artísticas registradas. Isso mostra que o São João baiano não é um evento isolado ou concentrado em poucas cidades, mas uma engrenagem gigantesca espalhada por praticamente todo o território.
Se o investimento é alto, o retorno é maior ainda. R$ 2,3 bilhões, é a estimativa. São hotéis lotados, restaurantes cheios, vendedores ambulantes trabalhando, costureiras fazendo renda com as roupas juninas, artesãos vendendo suas obras, motoristas rodando, pequenos comerciantes lucrando com este movimento. É uma cadeia imensa!
Mas tem um retorno que não aparece na planilha: a autoestima de um povo que ao se reconhecer, percebe que pertence a tudo isso e se orgulha das suas raízes.
Preservar os festejos juninos é um ato de resistência. Essa festa mexe tanto com a gente porque não é só festa. É pertencimento.

